5 de março de 2015 | Artes | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
Sorria e faça poser!

 Quando eu tinha 14 anos, eu comecei a andar com esse grupo de garotos que adoravam rock’n’roll. Até aquela época, o que eu mais ouvia era música pop da Disney (Hilary Duff, Miley Cyrus, Jonas Brothers etc). Mas aqueles moleques eram legais e eu queria que eles me achassem legal também, então comecei a pesquisar sobre rock para conversar melhor com eles e parecer uma pessoa mais interessante. Eu mergulhei a fundo nessa história e gostei. Gostei tanto que passei a acreditar que o que eu ouvia antes era horrível e sem valor (apesar de eu ainda gostar, mesmo que secretamente) e que a verdadeira música era o “prog” (a.k.a: rock progressivo).

Eu caí com tudo no rock e todas as suas variações. Ouvia o tempo todo, escrevia as letras no meu caderno, comecei até a usar camisetas de bandas e coisas do tipo. Uma camisa especialmente não me esqueço: minha camiseta do Nirvana. E não esqueço dela porque era uma de minhas preferidas, apesar de não gostar muito da banda. E isso foi o que causou toda a história.

Eu estava sentada ouvindo “prog” antes da aula começar quando chegou um garoto e falou: “Nossa, você tá sempre com essa blusa, né!”. Era minha blusa do Nirvana. A blusa mais confortável que eu tinha. “Você curte qual álbum mais?”, o menino me perguntou. Mas eu não sabia responder, porque só conhecia poucas músicas deles e, no fundo, não gostava muito. Achava muito barulho pra pouco conteúdo. “Ah, então você é poser!”, o garoto me disse.

“Não”, respondi curta e grossa. Ofendida. Como ele ousava dizer que eu era poser? Como ele podia pensar que eu era poser? Aquilo parecia a coisa mais descabida que alguém poderia me dizer (spoiler: não era, já ouvi coisas muito piores, obviamente).

Poser, para quem não sabe – ou para quem está confusa – é aquela pessoa que diz que sabe ou gosta muito de uma coisa quando, na verdade, você não é tudo isso, meu bem. E, pensando estritamente nessa definição, eu era poser de fã de Nirvana sim. Mas qual é o problema de eu usar uma camiseta bonita e confortável, que me faz sentir bem comigo mesma?

Agora, em um mundo em que temos que fazer marketing de nós mesmas para tudo, qual o problema de ser poser? Escrevendo sobre como foi perceber que, hoje em dia, faço parte da cena alternativa de São Paulo, muitos desses questionamentos vieram à tona. Acontece que fazer parte de uma cena – seja ela qual for – é ao mesmo tempo maravilhoso e horrível. Maravilhoso porque você se sente pertencente a algo; horrível porque você começa a ver seu gosto virar fachada de um (novo) estilo e isso vem com tanta força que chega um ponto que aquilo que antes te abraçava, torna-se excludente. E é aí que entram os posers.

Quando um grupo passa a se comportar de uma forma X e excluir aqueles que não se comportam da mesma maneira, cria-se uma barreira entre esses dois tipos de pessoas. Foi o que aconteceu comigo quando eu tinha 14 anos. Os caras que eu achava que eram legais se comportavam como “roqueiros”, sempre com roupas pretas, camisas de banda, tocando violão e com fones de ouvido pendurados na gola da camisa; enquanto eu usava roupas coloridas, lia revistas dadas como femininas e via Disney Channel. E, sim, a forma de se vestir, o conteúdo que se consome, a maneira com a qual nos apresentamos são sim formas de dizermos quem somos – ou quem gostaríamos de ser. Nossa fachada é o nosso primeiro e maior marketing. E, quando nos apresentamos de maneiras diferentes, criamos essa barreira entre nós – e todos os filmes nos ensinaram que diferentes não devem se misturar.

Mas se eu me identifico com um grupo, como me aproximar dele sem ser julgada? Oras, fácil! É apenas criar essa mesma fachada que aquele grupo, não? Dessa forma, você não vai pagar mico e as pessoas que você quer vão, no mínimo, ter empatia com você. E, assim, rapidamente você se torna nada mais nada menos que, isso mesmo, poser. Não importa se você mente sobre o quanto você sabe de filmes cults ou o quanto você ama arte contemporânea, você finalmente se sente pertencente a algo – e quem são os outros para culpar você por querer pertencer a algo?

Todo mundo quer se sentir parte de algo. Não é à toa que criamos tantos grupos por aí. Mas isso não significa que sempre nos comportaremos da mesma forma. Assim, para uma pessoa, pode ser completamente natural se aprofundar em algo que ela gosta e pesquisar a fundo tudo sobre uma banda, um diretor, um artista plástico ou um escritor. Mas, para outra pessoa, isso pode não fazer sentido nenhum e só conhecer uma parte pequena da obra de alguém possa ser o suficiente para ela. E isso não faz de forma alguma que a primeira pessoa seja superior à segunda ou vice-versa.

Inclusive, para se aprofundar em um assunto, é preciso de muito mais do que vontade. É preciso tempo, acesso à internet, muitas vezes é preciso saber outras línguas além do português e, inclusive, dinheiro para consumir o conteúdo em questão. E, infelizmente, nem todo mundo tem todas essas possibilidades. Assim, essa imagem de “fãs de verdade” sempre envolve machismo – afinal, raramente as garotas são estimuladas a gostarem de rock, ficção científica, quadrinhos ou basicamente qualquer coisa que não envolva estereótipos femininos –, racismo – da mesma forma que garotas são privadas de certas coisas, pessoas negras também são –, e elitismo – pois para consumir você precisa de dinheiro e tempo, o que não é todo mundo que tem, além de conhecimentos de outras línguas ou mesmo de arte que não são ensinadas em todo ou qualquer colégio.

No final, se formos parar para pensar, todo o estereótipo de fã de algo acaba sendo um homem, branco, com dinheiro suficiente para o consumo do que gosta, pelo menos. Ficção científica, quadrinhos, artes plásticas, poesia, filmes cults, metal, rock, o que quer que seja. As chances de alguém que não segue esse padrão ser chamado de “poser” é enorme – e, bom, a maioria do mundo não segue esse padrão, mas é comum querer se encaixar. É comum porque o mundo faz isso com a gente: conta desses grupos de pessoas que gostam da mesma coisa e se unem com um objetivo comum e, nesses grupos, são todos amigos, todos felizes, nunca há problemas. Enquanto nós estamos isoladas, excluídas, nos sentindo sozinhas, existem esses grupos de pessoas que sempre farão com que quem faz parte dele se sinta bem! E, poxa, quem não quer ficar bem? Quem não quer pertencer a algo?

Na hora da foto, não fica difícil: sorria e faça poser.

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

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  • Karine

    Foi extremamente confortante ler o seu texto. As vezes faço coisas que são consideradas pertencentes de um grupo ( como por ex, raspei a lateral da cabeça logo quem me vê, me considera roqueira, de fato é o estilo musical que mais gosto apesar de não ser o único) e por não saber tudo sobre esse estilo me julgam “poser”( como ser julgada como roqueira e nunca ter escutado ramones). Além disso eu não tenho vontade de ficar pesquisando sobre as bandas que gosto e etc, eu apenas escuto algumas musicas delas e curto o som, só isso. Então o meu caminho é apenas dizer que não sou fã de nada ( daí me enchem dizendo que desse jeito não terei uma “identidade”).

  • Carolina

    Quase chorei lendo seu texto. Foi como se vc estivesse descrevendo minha história. Passei a sétima série fingindo ser alguém que não sou para os outros. Só que mudei de escola e amadureci bastante (tanto que me assusta), descobri quem sou e me orgulho bastante disso 😉

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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