24 de agosto de 2015 | Ano 2, Edição #17 | Texto: | Ilustração: Lila Cruz
Soylent é a comida do futuro

 

O Soylent é um composto nutricional de proteínas, carboidratos, gorduras, fibras, vitaminas e minerais que contempla todas as necessidades nutricionais do corpo humano, substituindo a alimentação tradicional por completo. É uma bebida esbranquiçada de gosto “neutro, mas agradável”, pondera Rob Rhinehart, enólogo engenheiro de software e criador do Soylent.

A “comida do futuro” já existe e custa menos de três dólares por refeição. Está disponível em duas versões, a recém-lançada pronta para beber ou em pó, que você mesma mistura em água ou leite. Soylent é vegano, contém glúten e transgênicos. Leva soja na composição sim, mas bem pouco. A real inspiração por trás do nome vem da ficção científica Make Room! Make Room!, de Harry Harrison. No livro, Soylent é a solução alimentícia encontrada para sustentar um mundo superpopuloso e sem recursos.

Rhinehart parte do princípio que nossa alimentação é muito custosa para nós e para o planeta. Plantar e colher, criar e abater, processar, distribuir e lidar com a quantidade de lixo gerado no processo é um desperdício tremendo de recursos, em especial quando tão mal administrados como no modelo vigente. Talvez um movimento de reconexão com a natureza na linha slow food, agricultura local, orgânicos, Bela Gil equilibre a situação.

Lembrando que ainda assim…

... “não existe consumo ético dentro do capitalismo”. Fonte.

… “não existe consumo ético dentro do capitalismo”. Fonte.

Uma outra via de ação é jogar tudo para o alto rumo a uma não-comida a base de algas que cresce em biorreatores só com luz, ar e H2O, e é distribuída como se fosse água, direto na torneira. Esse é o ideal do Soylent, a fronteira final.

Concentrar a segurança alimentar do mundo todo nas mãos de uma única empresa é perigoso? É demais, e dessa parte da realidade distópica a Monsanto já se encarregou.

MASTERCHEF

Nós podemos pensar no mesmo paralelo do plantar, colher, etc., em uma escala que conhecemos melhor: nossa cozinha. Fazer uma lista, ir ao supermercado, transportar as compras, pensar em refeições balanceadas, cozinhar, finalmente comer, lavar a louça e separar o lixo demanda tempo, dinheiro e energia. Você pode contornar uma etapa ou outra, investir em pratos rápidos ou ir a um restaurante, mas ainda assim precisa comer.

Comer é uma obrigação. A ideia de Rhinehart é tratar comida como um hobby, deixando mais espaço para que ela cumpra com suas outras funções (ser gostosa, ritualística, social, confortável, reality show, foto no Instagram) só quando nos convém e não três vezes ao dia. Mas talvez ele seja só mais um cara acomodado demais para cozinhar.

VOCÊ GOSTA MAIS DE BATATA OU DE SCIFI?

Eu adoro comer, não pulo o café da manhã nem acordando ao meio dia: eu descasco umas frutas, espalho alguma coisa na torrada e pronto. No almoço não, ali eu realmente penso no valor nutricional das coisas e tento ter de tudo no prato; é uma refeição mais complexa da concepção ao preparo. Às vezes dá preguiça, faltam ingredientes, prefiro gastar meu tempo livre jogando Cook, Serve, Delicious!. Entre trocar um almoço de verdade por uma quase não-comida que a gente come sem titubear o tempo todo, tipo um salgado de lanchonete ou um congelado de micro-ondas, eu fico com a honestidade quase sem gosto do Soylent e a garantia de ingerir o que meu corpo precisa.

MAS E ESTUDAR? VOCÊ GOSTA DE ESTUDAR?

Quando mais nova, eu estudei em tempo integral, cursei o ensino médio pela manhã e o técnico pela tarde em escolas diferentes. Até tinha tempo para almoçar, mas posso contar nos dedos quantas vezes o fiz. Não fazia sentido sair correndo de uma escola, entrar em um restaurante lotado, pagar caro em um prato incompleto sem boas opções vegetarianas, engolir tudo bem rápido e continuar na pressa. Era um almoço que não conseguia ser gostoso, nutricionalmente satisfatório e não cumpria com o ritual social de sentar e comer com os amigos; no final das contas, era só frustrante. Valia mais uma barra de cereal.

Um horror. Rotina nenhuma deve atropelar nosso bem-estar, mas eu não podia me dar mais uma hora de intervalo. Hoje, trabalhando, também não. Se os reservatórios do Alckmin chegarem a realmente secar, eu não vou poder escolher entre lavar minhas verduras ou não. Nem sempre comer é questão de escolha. Para quem vive situações de vulnerabilidade, como em zonas de conflito ou na pobreza extrema, uma alimentação completa que praticamente não estraga mesmo sem refrigeração, é compacta e custa pouco é uma alternativa incrível.

O que me preocupa nessa história do Soylent é que, ainda que as intenções do entusiasta de startup Rob não sejam essas, a mudança no paradigma da alimentação pode ter um papel crucial na busca sem fim por produtividade. A transformação dos nossos corpos em máquinas à la revolução industrial é muito assustadora.

SENSACIONALISMO

Falar em comida exalta os ânimos. Muito recentemente a proibição do detestável patê de foie gras na cidade de São Paulo (que infelizmente se encontra suspensa) causou indignação entre chefs e adeptos da alta gastronomia. “É como castrar a liberdade”, disseram. O nobre ato de comer deve ser protegido custe o que custar (mas regime pode, sempre pode).

Muita gente encara o Soylent como o fim do mundo, um ultraje, parece até que as varandas gourmet vão simplesmente começar a despencar dos prédios. Quem sabe um dia. Por enquanto os food trucks estão bombando, os supermercados continuam cheios e as panelas continuam sendo melhores empregadas na cozinha do que nas janelas fazendo barulho.

UM BRINDE AO FUTURO

Rhinehart é cobaia e garoto propaganda da sua invenção, vive uma dieta à base da bebida e nada mais, se livrou da geladeira, do fogão, dos utensílios e de uma obrigação que não lhe trazia prazer nenhum. Ele parece satisfeito e eu fico feliz por ele.

O Soylent pode funcionar muito bem como um substituto ocasional em vez de virar uma ração humana e, por mais estranho que pareça, faz mais sentido do que muita coisa que a gente já encontra por aí.

24-3

Soylent está disponível nos Estados Unidos e no Canadá e não tem previsão de chegada ao Brasil.

Carolina Stary
  • Ex-colaboradora de Tech & Games

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