4 de março de 2015 | Tech & Games | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
Sozinhos nesta rocha? O Paradoxo de Fermi

A fronteira final 

O universo fascina o ser humano desde sempre, e prova disso é a astronomia ser considerada a ciência natural mais antiga de que se tem registro. No início, deuses e seres mitológicos faziam a conexão entre nós e o que está lá fora. Conforme começamos a entender a estrutura e o funcionamento do mundo à nossa volta, a compreensão do espaço foi mudando junto. Hoje em dia, é comum ouvir aquela frase do Carl Sagan, “somos poeira das estrelas”. Essa noção de que o universo não é algo externo ao nosso planeta, à nossa história, ainda parece ser tratado somente no plano teórico.

O caráter místico do espaço permeia a maior parte da nossa relação com ele: a eterna busca por vida alienígena, a prova de que não estamos sozinhos, nunca vem na forma de vida microscópica, bactérias etc. São sempre seres mega inteligentes e avançados querendo nos subjugar ou nos ensinar. Basicamente, a reflexão da forma como nossa própria raça, e mais especificamente a sociedade ocidental, se relaciona com o resto da Terra.

Andou circulando no Facebook um dos muitos vídeos do cientista Neil DeGrassi Tyson, em que ele fala sobre como os elementos mais presentes no universo são os mais presentes no corpo humano, na mesma ordem, como quem diz “nós SOMOS o universo, LITERALMENTE”. Muito provavelmente, não somos um acidente bizarro cósmico que gerou vida, e sim uma consequência de eventos, que podem ou não se repetir/ter se repetido.

Partindo dessa ideia, ele diz que entende o estudo do cosmos, dos outros planetas do sistema solar, por exemplo, como uma forma de responder perguntas aqui da Terra. Afinal, se tudo está conectado, eventos que aconteceram em Marte e Vênus, por exemplo, podem ajudar a responder questões que ainda vão aparecer aqui.

Essa coisa toda de buscar respostas no universo me lembrou o filme Interestelar, e a busca por um planeta habitável. No filme, providencialmente, tudo dá certo. Mas a gente não tem um buraco de minhoca atrás de Saturno esperando a gente, nem o Matthew McConaughey para garantir um final feliz. A forma como DeGrassi coloca o estudo do universo faz muito mais sentido pra mim: usar o conhecimento que o cosmos pode nos fornecer para tentar resolver os problemas aqui. A humanidade tá sempre preocupada em se expandir e crescer, e o que já está consolidado parece que vai ficando pra trás. O universo como caminho lógico da humanidade parte de uma perspectiva expansionista conquistadora que não tem muito a ver com o momento de crises energéticas e econômicas que nos ronda. Será que é mesmo tão mais fácil assim continuar fugindo do caos que a gente cria, ao invés de tentar corrigir a bagunça que fez?

Uma das principais razões pra gente continuar insistindo no espaço é a certeza de que em algum lugar lá vai ter vida, de algum tipo. Mas mesmo isso é ambíguo.

Paradoxo

O físico italiano Enrico Fermi trabalhava com teoria quântica, física nuclear, de partículas e mecânica estática. Mas, além disso tudo, ele formulou o que conhecemos hoje como o “Paradoxo de Fermi”. A premissa é a incoerência entre a existência de vida fora da Terra e a total falta de contato e/ou evidências disso. Pela idade e tamanho do universo, pelas condições em que a vida se deu na Terra, deveria haver outras civilizações em algum lugar, inclusive na própria Via Láctea. No entanto, nada minimamente conclusivo foi encontrado.

Muitas soluções foram propostas para esse problema, a mais óbvia delas sendo procurar ativamente vida extraterrestre. Uma dessas buscas se deu através do projeto SETI.

O SETI (Busca por Inteligência Extraterrestre  – ou Search for Extraterrestrial Intelligence, na sigla em inglês) foi uma das formas encontradas pela humanidade para procurar sinais de vida fora da Terra. Se dividia em passivo e ativo: um em busca de uma possível mensagem, filtrando sinais de rádio vindos do espaço, e o outro enviando mensagens por ondas de rádio para possíveis viajantes. O projeto foi cancelado por falta de verbas, e até o seu desligamento, nada significativo havia sido encontrado.

Um grande problema da procura por vida alienígena é que não sabemos como ela pode ser. A gente se baseia na nossa própria história, nos nossos próprios passos, mas na verdade essa vida pode se comportar de formas que nem imaginamos – e muito menos detectamos…

Os limites do universo

Uma das missões espaciais mais comentadas ultimamente é a Mars One, a primeira viagem tripulada ao planeta vermelho, que pretende estabelecer uma colônia em Marte – uma viagem sem volta para os selecionados. Ela é uma missão particular, ou seja, não é patrocinada por nenhum governo. Missões assim são até comuns, apesar de não tripuladas. A Mars One seria um marco superimportante na história das viagens espaciais.

Além dessa, outras duas supermissões foram muito comentadas recentemente, ambas para o mesmo planeta: Júpiter. Quer dizer, na verdade o objetivo são as luas do planeta. Uma delas, organizada pela NASA, é a Europa Clipper. O satélite Europa é uma das luas de Júpiter que a gente chama de “luas de Galileu”, é do tamanho de um planeta, e, junto com Marte, é o lugar no sistema solar com maior possibilidade de ser habitável para terráqueos longe de casa. A missão tem como objetivo analisar o enorme oceano que se encontra embaixo da crosta de gelo que forma a superfície do satélite. Esse oceano pode não só ser habitável como conter formas de vida.

Já a JUICE, idealizada pela Agência Espacial Europeia, pretende visitar as quatro luas de Galileu: Europa, Ganimedes, Io e Calisto. Se essas missões provarem que há possibilidade de vida tão longe do Sol, seria prova de que podem haver muitos mais mundos habitáveis do que nós acreditamos atualmente.

Mas e se houver ainda mais planetas habitáveis do que nós acreditamos atualmente, a gente volta para o paradoxo: cadê todo mundo? Por que ainda não encontramos ninguém? Com várias missões planejadas, a humanidade segue na busca por respostas.

Verônica Montezuma
  • Colaboradora de Tech & Games
  • Audiovisual

Verônica, 24 anos, estuda cinema no Rio de Janeiro. Gosta de fazer bolos, biscoitos e doces, e é um unicórnio nas horas vagas.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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