4 de setembro de 2014 | Artes | Texto: | Ilustração:
Submarino: afundar para emergir
Foto: divulgação

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Todo mundo tem seus momentos de tristeza. Alguns mais, outros menos, mas todos nós vivemos aquele momento de profunda melancolia, como se estivéssemos emergidos na água, afundando cada vez mais, sem reais expectativas de voltar à superfície. É claro que a vida é feita de altos e baixos e, alguma hora, com esforço e tempo, há de se ficar bem de novo. Mas quando se está lá debaixo é difícil pensar na perspectiva de voltar ao topo. Nessas horas, é possível se perguntar: “e se eu fosse mais fundo ainda?”, ou: “e se eu pudesse estancar essa dor?”  Não é difícil, então, passar a se perguntar como seria se você não estivesse mais aqui, imaginar qual seria a reação daqueles que estão ao seu redor, qual seria o impacto de uma morte. Alimentar esse pensamento é uma coisa horrível e, muitas vezes, você mesma se surpreende e se assusta ao se pegar pensando em tal situação. Agora… O que aconteceria se você ou algum amigo acabasse por, de fato, ter sua vida cortada?

A peça Submarino, escrita por Leo Moreira e dirigida por Pedro Granato, é exatamente sobre isso. Um garoto morre (não é claro se foi suicídio ou um acidente) na piscina de seu clube de natação e, a partir de então, dá-se início à narrativa do impacto de sua morte entre seus colegas de raia.

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O espectador acompanha o grupo durante um ano durante seus treinos de natação. Junto a isso, vê como cada personagem lida com a morte de seu companheiro, presenciando o duro caminho da superação de uma perda. Ao longo da peça, podemos entender melhor qual a relação de cada personagem com o morto e, pouco a pouco, percebemo-nos crescendo, aprendendo, junto a eles, a lidar com a perda – seja ela qual for. Vemos a antiga namorada se imergir em uma profunda tristeza e, aos poucos, superá-la; vemos o antigo melhor amigo procurar se consolar de alguma forma; acompanhamos as suposições de uma morte tão inesperada, a tentativa de encontrar motivos para o ocorrido, o choque inicial e a quase necessidade de ter que superar o apagar de uma vida.

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Cada personagem entra, sozinho, em uma empreitada por algo maior. Dentro de si, buscam não apenas preencher um buraco vazio ou dar sentido a um ato tão inesperado. A busca é por algo inominável; por um vazio além da morte, pois eles permanecem vivos.

E, como se refletisse essa solidão de cada um, o cenário é também uno: uma espécie de balcão, o qual serve de raia, beira da piscina, divisão entre topo e fundo etc. Apenas esse balcão, nada mais. Ali é onde tudo acontece, onde o tempo parece por vezes estagnar, por outras evaporar num piscar de olhos. O resto é trabalho para as luzes e para os jovens atores, os quais crescem no palco e em seus personagens.

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Com uma estética belíssima, Submarino vai além de seu belíssimo texto e faz com que cada um na plateia também procure em si o mundo submerso das perdas e vazios. Alguns dizem que ele viraria azulejo, outros dizem que viraria passarinho. Mas, ao fim, percebemos que, apesar de tudo, apesar de afundarmos até não poder mais, ainda estamos aqui, vivos, e, em algum momento, iremos emergir. Ao fim, apenas podemos citar o próprio texto: “Isso também era a vida continuando… Só que ninguém sabia”.

* * *

A peça Submarino estreia sua nova temporada esta semana. Se você ficou a fim de assistir, veja aqui as informações:

De 9 de setembro a 15 de outubro

Terças e quartas, às 20h

Ingressos: R$ 10

Retirada de ingressos duas horas antes do espetáculo

Sala Adoniran Barbosa – Centro Cultural São Paulo – Rua Vergueiro, 1000, Paraíso

Telefone: 3397-4002

**no dia 24 de setembro, haverá uma sessão popular a 3 reais. E, nos dias 16 de setembro e primeiro de outubro, as sessões serão gratuitas para escolas, grupos de teatro jovem, diretores e autores de teatro jovem para encontros e reflexões sobre o tema**

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Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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