18 de agosto de 2015 | Ano 2, Edição #17 | Texto: | Ilustração: Isabela Zakimi
Subvertendo o lugar da mulher: cozinhar como ato emancipador

Quem nunca ouviu falar que “lugar de mulher é na cozinha”? Sob essa perspectiva tradicional, a mulher é a responsável pelas tarefas da cozinha e, na melhor das hipóteses, existe outro ser humano masculino que ajuda a lavar a louça, tirar a mesa e coisas assim. Curiosamente, quando ouvimos falar de chefes de cozinha renomados, há muito mais homens do que mulheres. Por que será?

É muito comum considerar os trabalhos domésticos (não remunerados) como menores em importância em relação a trabalhar fora, algo que dá dinheiro. E, segundo os papéis sociais tradicionais de homem e mulher, o homem é aquele que sai para trabalhar e ganha dinheiro para “botar comida na mesa”, e a mulher é aquela que de fato coloca a comida na mesa. No entanto, esse trabalho desempenhado pela mulher é raramente considerado um trabalho de verdade. Não se considerando este tipo de trabalho um trabalho de verdade, abre-se margem também para achar que a pessoa que o desempenha não está fazendo nada. Essa diferença entre trabalhos remunerados e não-remunerados já foi comentada aqui na Capitolina e, em uma sociedade patriarcal, é claro que o trabalho menos valorizado é aquele desempenhado pela mulher.

Aqui em casa sempre foi diferente e eu cresci meio sem saber que minha família estava fora desses padrões. Minha mãe sempre trabalhou fora e nunca gostou muito de cozinhar. Meu pai, além de gostar de cozinhar e fazer isso muito bem, trabalhava principalmente de casa, então, acabava sendo a pessoa da família que cozinhava. A primeira coisa que meu pai me ensinou a fazer foi feijão. Ele catava feijão comigo, me explicou como fazia para conferir se aquele buraquinho da panela de pressão estava limpo e como limpar pra panela não explodir; me ensinou a botar na panela o suficiente de água pra parecer que tinha a mesma quantidade de água e de feijão, pra render bastante caldo; me deu o tempo exato pra deixar cozinhando e a hora de abrir pra conferir se precisava um pouquinho mais… Com onze anos de idade, fazer feijão era minha contribuição para as refeições da família. Deixava esfriar, separava em uma panela o que seria consumido nos próximos dois dias e distribuía o restante em potes de margarina dentro do freezer.

Depois do feijão, aprendi a fazer arroz. Em seguida, carne moída, molho bolonhesa, macarrão, purê de batata, temperar bife, fritar bife e por aí foi, de modo que, aos treze anos, eu já fazia minha própria comida todos os dias. Nem sempre meus pais estavam em casa para almoçar; muitas vezes, era só eu que iria comer mesmo, então, saber preparar basicamente tudo que eu gostava de comer era um adianto. Por ter aprendido desde nova, sempre achei muito normal fazer minha própria comida mesmo morando com a família e, com o tempo, fui gostando de cozinhar. Porque, quando você aprende a cozinhar, você acaba aprendendo o que fazer para que a comida fique do jeito exato que você gosta. E aí cozinhar para si mesma acaba sendo escolha também e vira prazer – o melhor macarrão aos quatro queijos do mundo é o que eu faço pra mim e é isso.

Desenvolver essas habilidades e também o gosto pela coisa me foi muito útil, bem mais pra frente, quando meus pais se separaram e meu pai se mudou. Não é segredo pra ninguém no mundo que eu não curto a comida da minha mãe, que não gosta mesmo de cozinhar e não fica ofendida com essa declaração. Morando só com ela (e depois com o meu padrasto, que também não cozinha), ser capaz de fazer comida foi a melhor coisa. De uns tempos pra cá, vários amigos e amigas foram morar sozinhas/os e não sabiam nem o básico da cozinha e vinham me pedir ajuda. Também sei de gente que, quando a mãe viaja, só come fora e pede delivery. Essa ideia me apavora, pois me soa horrível depender de algo ou alguém que não eu para o que eu preciso. Em outras palavras, ser capaz de preparar tudo que tenho vontade pra minha própria alimentação me dá uma sensação inestimável de autonomia.

Uma das primeiras coisas que você percebe quando passa a ser a única responsável pela própria alimentação é que elaborar refeições, mesmo que simples, exige um mínimo de planejamento. Você precisa saber quais itens tem em casa, quais precisa comprar, quantas vezes você vai comer em casa naquela semana e ter noção de que comida estraga, sai da validade e que certas coisas precisam ser consumidas com maior rapidez que outras – meu sonho é a criação do meio pacote de pão de forma. Isso também contribui para a sua independência, pois te exige responsabilidade para lidar com essas questões que não são uma preocupação quando há alguém que cozinhe pra gente.

Ninguém é obrigado a gostar de cozinhar, muito menos a ser capaz de fazer as receitas mais elaboradas dos programas de culinária. Ninguém é obrigado sequer a saber cozinhar e se interessar por isso. No entanto, em uma sociedade que sempre criou a mulher para ser submissa, saber cuidar de si mesma é de extrema importância. E cozinhar faz parte disso. Não é nenhum bicho de sete cabeças e, por mais que certas coisas, a princípio, pareçam impossíveis, com o tempo e com a prática, tudo vai ficando mais fácil. Tente começar com coisa simples, tipo arroz e macarrão. Tente seguir receitas de poucos ingredientes. Com prática, você vai entendendo melhor o tempo que cada prato leva, a quantidade ideal para você e para quem mais você estiver cozinhando, como você prefere cada comida e, de repente, começa até a inventar e adicionar ou trocar ingredientes. É também com a experiência que você vai vendo o que são refeições de fim de semana, quando se tem mais tempo pra cozinhar, e o que são aquelas de correria. Você passa a controlar seu tempo e sua alimentação sem gastar horrores com restaurantes ou apelar pra comidas nada saudáveis só por serem práticas.

Na minha experiência pessoal, saber cozinhar foi emancipador, pois, mesmo ainda morando com a família, cuido sozinha da minha alimentação. Esse cuidado também engloba ir ao supermercado, fazer orçamento, organizar as refeições da semana, etc.
Muito embora, conforme comentado anteriormente, haja essa tradição machista de reduzir o lugar da mulher à cozinha, saber se virar na cozinha é empoderador. É não depender de dinheiro a mais para comer fora ou pedir comida, é não viver de congelados e industrializados e, principalmente, é não precisar que outra pessoa faça por você.

Laura Pires
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Vlogger

Usa seu vício em séries e Facebook como inspiração para os textos, para a vida e para puxar assunto com os outros. Adora ouvir histórias e conversar sobre gênero, sexualidade, amor e relações amorosas – gosta tanto desses temas que deu até um jeito de fazer mestrado nisso. É professora de inglês, cantora e pianista amadora de YouTube, fala muito, ri de tudo e escreve porque precisa. Ama: pessoas e queijo. Detesta: que gritem.

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