8 de maio de 2014 | Artes, Edição #2 | Texto: | Ilustração:
Surrealismo: como Salvador Dalí transformou Freud em arte
Ilustração: Isadora M.

Ilustração: Isadora M.

O que é algo surreal para você? Normalmente damos esta característica a algo que não faz parte desta realidade, algo muito louco, parecido com um sonho. Surrealismo foi uma palavra inventada pelo poeta francês Guillaume Apollinaire, em 1917, para descrever duas peças: a primeira, Les Mamelles de Tirésias, conta a história de uma mulher que preferia ser um soldado ao invés de ser mãe. Afirmava que já sentia os pelos crescendo no seu rosto e seus seios saindo pelo corpo, fazendo com que seu marido produzisse 40049 crianças sozinho. A segunda peça é um balé russo denominado Parade, que até tinha uma história mais simples que a primeira peça (se passava num circo e havia 3 atos, a primeira com um mágico, a outra com uma acrobata e por fim uma menina) mas sua trilha sonora era estranha (com jazz e hélice de avião), além de alguns dançarinos fazerem algo parecido com dança contemporânea. Foi adotado para dar nome a um movimento artístico anos mais tarde pelo escritor André Breton com o objetivo de mostrar a loucura da mente humana em poesias e em quadros, baseada na sua experiência de vida num hospital psiquiátrico.

O movimento começou com um manifesto (explico: no momento moderno da arte, que dizemos que começa com o impressionismo e acaba na pop art, no começo da década de 10, alguns movimentos só eram reconhecidos como movimentos quando uma espécie de lei era publicada num artigo de arte, com regras e objetivos a serem seguidos caso você quisesse fazer parte do estilo) e depois Breton passou a convidar alguns artistas que admirava e acreditava que tinham a ver com o que gostaria de passar com este novo pensamento. Alguns aceitaram, como Magritte e Miró, porém o mais famoso desses todos e o que fez o estilo ser popular (muito pela sua personalidade e bigode excêntrico) foi Salvador Dalí. E foi ele que também fez este estilo ter a ver diretamente com sonhos.

Publicidade da Volkswagen inspirada nas obras de Magritte.

Publicidade da Volkswagen inspirada nas obras de Magritte.

"O carnaval de arlequim", de Miró.

“O carnaval de arlequim”, de Miró.

Dalí tinha uma ideia para seus quadros e tinha a ver com Freud (lê-se “Froid”), o famoso pai da psicanálise. Resumindo: para Freud, sonho era a realização disfarçada de desejos reprimidos. Nos seus estudos com seus pacientes, percebeu que eles falavam sobre seus sonhos como se fossem sintomas de alguma doença. Mais atento a isso, como médico, passou a anotar e a fazer interpretações em cima do que contavam com detalhes e a perceber algumas semelhanças com sonhos diferentes de outras pessoas. Entendeu que, quando sonhamos, na verdade estamos realizando uma vontade para deixar nosso inconsciente satisfeito. Para Freud, a mente humana se divide em 3 partes:

  • o consciente, que é a maneira que normalmente vemos o mundo quando estamos acordados
  • o pré-consciente, que são as lembranças fáceis de assimilar
  • o inconsciente, que é a maioria do conteúdo que fica guardado e só é despertado em algumas condições, como no sonho. Sim, isso significa que os pesadelos também são desejos reprimidos, porém é uma espécie de punição do consciente para o inconsciente por guardar tanta informação. Complexo, né?

Nos sonhos as imagens não são nítidas e para Freud isso também possuía um motivo. É uma espécie de disfarce do inconsciente para que o que estava tão bem guardado possa ser mostrado sem que haja uma censura, para isso deformando as imagens. Há 2 tipos de sonhos: Aqueles que mostram experiências do dia insignificantes e até esquecidas (para Freud, isso era um disfarce da mente para mostrar algo realmente importante, o que ele chama de deslocamento; sim, para Freud tudo tem um motivo), e do passado, mostrando uma regressão. Sempre lembrando, porém, que sonho é uma realização do sono.

No começo do Surrealismo, as pinturas apenas tinham a ver com a loucura do ato falho (sabe quando você quer chamar a pessoa e acaba a chamando pelo apelido maldoso que criaram para ela sem querer? Isso se chama, segundo Freud, ato falho). Um exercício comum entre os artistas era escrever uma frase num papel, aquela primeira que vier na cabeça. Passava para outro, com o papel dobrado para que este não visse o que estava escrito. E no final da folha, ideias loucas surgiam e logo eram pintadas nos quadros. Dalí foi além. Com uma ajudinha de substâncias químicas (dizem que o ópio e o absinto eram bastante populares entre os artistas que moravam em Paris naquele tempo), ele adentrou nos seus mais profundos medos e traumas que estavam guardados em suas memórias, como num sonho. E com os ensinamentos de Sigmund Freud, compreendeu como deveriam ser pintados seus quadros.

"A persistência da memória", de Salvador Dalí.

“A persistência da memória”, de Salvador Dalí.

O mais famoso deles é o quadro onde relógios estão derretidos num cenário que se parece com um deserto, chamado A persistência da memória, um ótimo sinônimo para a palavra sonho. Relógios derretidos já fazem jus à palavra que dá ao nome ao movimento, porém o quadro não é apenas isso. Cada parte dele possui uma referência à vida de Dalí. Os próprios relógios deformados são uma referência à morte e à impotência sexual. Logo ali, do lado de uma estante com um relógio derretido, abaixo do céu espanhol (a paisagem é inspirada na costa de Barcelona) um rosto cansado, com longos cílios, e um relógio derretido em cima. Como se o fim do tempo tivesse chegado a esta pessoa. Quase imperceptíveis aos olhos menos atentos. Um autorretrato de Dalí escondido, como fazia em alguns quadros. Um exemplo bom disso é o quadro O grande masturbador (sim, sexo era um tema muito presente em seus quadros), onde uma figura igual aparece, desta vez com mais destaque. Olhe para o canto esquerdo e observe as formigas, símbolo de decomposição. Outro medo de Dalí, às vezes colocado como símbolo de putrefação. Freud está mais presente neste quadro que apenas uma forma de interpretar o inconsciente de Dalí. Para Freud os sonhos são imagens deformadas soltas, mas a mente se encarrega em ali nutrir um cenário para se assemelhar com a nossa realidade quando acordado. O cenário do nada com figuras espalhadas dão esta sensação. Dali pegou seus medos e traumas, os transformou em figuras com deformações e colocou num cenário comum a sua vida. Melhor interpretação da teoria de Freud para sonhos não há.

"O grande masturbador", de Salvador Dalí.

“O grande masturbador”, de Salvador Dalí.

O que faz arte ser “Arte”, para alguns teóricos, é a forma de transformar o comum em algo grandioso e mágico. Todo mundo tem sonho. Alguns mais malucos que este quadro do Dalí. Porém foi ele quem pegou algo comum, misturou com uma teoria e transformou em quadros e deu força a um movimento artístico que se limitava a apenas ser louco.

Bia Quadros
  • Coordenadora de Música
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Ilustradora

Bia na verdade é Beatriz e tem 20etantos anos. É do RJ, nunca saiu de lá e é formada em Artes Visuais. Transita entre ilustrações, pinturas, textos, crianças e frustrações. Tudo que está ligado a arte faz, sem vergonha e limite. Já fez algumas exposições, já fez algumas vitrines, vive fazendo um monte de coisa. Uma Metamorfose Ambulante.

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