21 de maio de 2015 | Artes, Literatura | Texto: | Ilustração: Beatriz Leite
Tá na hora de deixar a banana de lado e pegar um livro!

Certa vez, em uma aula da faculdade, um professor disse que quando dava aulas de filosofia para o ensino médio, um dos assuntos mais recorrentes em suas aulas era o sexo e as drogas. Ele relatou ficar muito surpreso: por que raios os alunos traziam para a aula de filosofia suas dúvidas e desabafos sobre esses assuntos, se temos, dentro do currículo escolar, aulas de ciência sobre isso?

Essa questão ficou na minha cabeça por bastante tempo. É verdade que muitas escolas não trazem para dentro de aula assuntos considerados tabus, como drogas ou sexo. E, se trazem, sempre vem acompanhado de um jaleco branco e uma prancheta; é somente através da ciência que assuntos tabus podem ser aceitos e estudados dentro de um ambiente escolar. Confirmo isso por experiência própria: na escola em que estudei, tivemos aulas de laboratório sobre os sistemas reprodutores de cada sexo, vimos filmes de parto natural, lemos sobre os diferentes tipos de preservativos e até colocamos camisinhas em bananas! Mas, gente, vamos ser sinceras: do que adianta eu saber o que é útero, o que é ovário, como ocorre o ciclo menstrual, qual é o caminho do espermatozoide, entre mil outras coisas, se, na vida real, na hora H mesmo, a gente não pensa em nada disso? Verdade seja dita, no fim das aulas sobre sexo, nós saímos de lá sabendo ainda menos sobre como lidar com o sexo em si. No fim, acaba sobrando pro amigo mais experiente, pros pais, pra internet, ou, eventualmente, para o professor de filosofia.

Quando ouvi o desabafo do professor, me veio em mente um livrinho que li quando tinha 14 anos. Lembro de ter encontrado no meio da estante de livros dos meus pais, tinha um título interessante, Porcos com asas, então resolvi dar uma chance. Porcos com asas foi escrito em 1976 por dois autores italianos, Marco L. Radice e Lidia Ravera. O livro conta a história de amor entre dois adolescentes, Antônia e Rocco, em meio a crises políticas e a procura pelo seu lugar no mundo. Ambos são membros do movimento estudantil em seus colégios e Antônia se afirma feminista. Deixando o enredo de lado, Porcos com asas tinha algo que eu nunca tinha lido em nenhum lugar: cenas de sexo. Em 175 páginas, eu li, aos 14 anos, cenas de masturbação, tanto masculina quanto feminina, cenas de sexo hétero e homossexual, li sobre sentimentos, prazeres e tristezas, preocupações, aflições e conforto. Me identifiquei com os dilemas de Antônia, tentei entender os problemas de Rocco, vivi a relação entre os dois tão realisticamente que parecia até que tinha acontecido comigo. Quando acabei de ler o livro, saí sabendo muito mais sobre sexo (e relacionamentos) do que pude aprender na escola.

É comum ouvir que a escola nos prepara para o mundo. Possivelmente algumas delas realmente fazem isso, mas o que eu vivi dentro da escola diz pouco respeito a como o mundo funciona de verdade. O que aprendemos lá é uma vida na base da teoria, saímos de lá sem saber como a prática se estabelece. Do que me adianta saber sobre a maneira como a maconha age no corpo se seus efeitos psicoativos na mente de um ser humano ainda são um mistério para mim? Do que adianta aprender sobre o sistema reprodutor se o sexo, muitas vezes, passa longe de ser só sobre isso?

Nunca tinha entendido a importância desse livro pra minha adolescência, até ouvir, na boca do professor, a confusão presente em muitos jovens quando esse é o assunto. Quando li Porcos com asas tirei muitas dúvidas, esclareci pensamentos, me senti menos aflita com as eventuais surpresas que a vida nos aguarda. Nunca tinha lido sobre uma experiência tão tátil e próxima de algo que, talvez, pudesse acontecer comigo, com você, com todos nós. Seria muito mais interessante se os livros de literatura tomassem o lugar dos professores de ciência para tratar de assuntos considerados tabus. Literatura é mais do que uma historinha; cada livro, cada autor joga nas páginas em branco algo que diz respeito a si mesmo e que, quem sabe um dia, nos servirá de ensinamento para quando estivermos passando por algo semelhante.

É necessário lembrar que às vezes é preciso tomar cuidado, nem todos os autores irão escrever cenas de sexo legais. Existem muitos livros por aí, por exemplo, que ainda reproduzem um sexo abusivo e de maneira alguma queremos que vocês aprendam que isso é o que sexo deveria ser. Porque não é.

Vale também frisar que cada pessoa terá uma experiência diferente. A minha nunca será igual a tua, que nunca será igual a de Rocco e Antônia em Porcos com asas. Acho que tive sorte de ler, logo de cara, algo tão parecido com a minha vida real. Mas, posso afirmar que, quanto mais a gente lê, mais acumula experiências de outros que talvez funcionem para nós também. Ensinar assuntos tabu através da literatura permite olhar para aquilo de maneira mais real; é se colocar no lugar de alguém que está, justamente, passando por isso. E, no fim das contas, é com a ajuda de experiências dos outros que criamos curiosidade e coragem para enfrentar as nossas próprias.

Infelizmente, mesmo na literatura, sexo e drogas ainda são assuntos tabu e dificilmente são encontrados em livros para adolescentes (apesar de ser um assunto que pensamos muito na adolescência!). Deixo abaixo, então, algumas sugestõezinhas de livros interessantes!

 

Azul é a cor mais quente — Julie Manoh

Quem é você, Alasca? — John Green

As brumas de Avalon — Marion Zimmer Bradley

O terceiro travesseiro — Nelson Luiz de Carvalho

Feliz ano velho — Marcelo Rubens Paiva

A série Garotos — Meg Cabot

 

 

Dora Leroy
  • Coordenadora de Quadrinhos
  • Ilustradora

Dora Leroy tem 21 anos e acredita que o universo é grande demais para não existir outras formas de vida inteligente por aí. E, enquanto espera uma invasão alienígena acontecer, gosta de ler livros que se passam em universos mágicos e zerar séries do Netflix.

  • http://revistapolen.com Revista Pólen

    *insira momento fangirl da dora aqui*
    adorei esse post. e um timing tão bom agora que as pessoas acham que o mundo vai acabar porque adolescentes – gasp! – sabem o que é sexo.

    – Lorena

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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