2 de maio de 2015 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Bia Quadros
As tais borboletas no estômago (ou frio na barriga)

Quando tinha 15 anos, existia uma rede social chamada MSN. Era algo parecido com o Facebook, mas mais precisamente a parte do chat. O ícone ficava ali do lado, uma pessoinha em azul e outra em verde, e toda vez que alguém ficava online, uma janelinha subia. Para você adicionar uma pessoa no MSN, era necessário ter uma conta de e-mail no Hotmail. A desculpa para adicionar alguém que estivesse a fim era basicamente “conversar sobre trabalho da escola”, quando na verdade tudo era apenas para se aproximar da pessoa.

Bastava a pessoa ficar online para que uma nova possibilidade de conversa (nem tanto) interessante fosse aberta. Tudo começava com um oitudobemnovas?, e o papo prosseguia pela noite toda. E assim, numa rotina, todo dia a espera gerava uma ansiedade com nome e sobrenome: borboletas no estômago (ou frio na barriga, brasileiramente falando).

Confesso que gostava dessa sensação, apesar de fisicamente não ser muito legal. Uma ansiedade que doía o estômago, uma felicidade descontrolada, uma imaginação sobre cada palavra lida ali. Podia até não ser algo tão interessante, mas só de ver já dava uma sensação boa. Ou pelo menos acreditava ser.

Então, em cada relacionamento que surgia procurei essa sensação “boa” e “incrível”, digna de “amor verdadeiro”. Se eu não estivesse nervosa, com dor (forte) na barriga, com vontade de fazer cocô e tremedeira não seria boa coisa este futuro namoro. E se por um acaso a pessoa simplesmente desaparecesse, o sentimento consequentemente se tornava maior. Não que eu quisesse, claro, por mim poderia acabar assim que eu levasse um não. Mas, racionalmente, já não falava mais por mim. Já estava sofrendo, com fortes dores de cabeça, crise de ansiedade que fazia minha respiração acelerar, a sensação de não ter um chão e uma tristeza profunda. Mas estava bem, afinal, isso é amor verdadeiro, não?

Então, ao longo da minha maturidade, esses anseios já não faziam mais sentido. Por que eu precisava aguentar certas coisas para amar? Criolo bem que falou: “Não precisa sofrer para ver Deus.” Não, de fato não preciso mesmo.

Rola uma romantização em relação a esses efeitos colaterais. Letras de música tratam isso de forma única, como se a falta de ar, a confusão mental e a necessidade de estar com a pessoa senão você morre fossem coisas normais quando alguém se descobre amando. Falam-nos que isso é bom, que isso faz sentir algo e que, se por um acaso você não sentir isso, não está verdadeiramente apaixonada nem amando. Mas por que não podemos simplesmente curtir o amor que vem por aí de uma forma feliz e saudável? Sim, coloco a palavra “saudável” na roda porque crise de ansiedade e ter ataques nervosos não são coisas que podemos levar de boa. Eu, particularmente, sou ansiosa para a vida. Às vezes sinto isso à toa, com dor forte no estômago (com uma necessidade de comer algo para aquietar), meu coração batendo rápido e um pensamento de que nada dará certo (que me traz depressão de vez enquanto). Isso não é legal e me prejudica, já que preciso parar o que estou fazendo, mover minha mente para algum lugar e tentar me acalmar.

Vejam bem: amor nos traz sentimentos incríveis que realmente são maravilhosos e nos movem de maneira maravilhosa, nos levando para a frente. Ter saudade, vontade de saber mais, gostar de tudo que está envolvido neste afeto, ouvir uma música e lembrar de um momento… Isso é normal, isso é legal, isso é bacana, isso é muito bom. Mas isso não envolve angústia nem amargura. Isso é o fluxo natural de algo que é novo na sua vida. Principalmente tendo este sentimento forte que é o amor.

Só que em filmes, livros e novelas (ou séries) nos falam que para amar é OK você sofrer. E quer uma prova deste sofrimento quando se sente fisicamente isso? Então, não precisamos disso. Claro, uma excitação é natural quando se vê algo novo. Mas quando isso vem junto de outros sintomas realmente graves, fisicamente e psicologicamente falando, não é legal, não é necessário. Até porque, já pararam para pensar que a ansiedade vem com o sentimento de que não vai dar certo? Que a pessoa é muito melhor que você? Que um dia ela vai perceber isso e sumir do mapa, então é preciso fazer tudo certo, porque se errar, a culpa será sua? E se simplesmente pararmos de nos diminuir em relação ao outro e curtirmos o que este novo relacionamento tem a oferecer, sem nos preocuparmos em fazer tudo corretamente? Você vai notar que esse tipo de visão vai mudar e que esses efeitos não são necessários para ser feliz!

Bia Quadros
  • Coordenadora de Música
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Ilustradora

Bia na verdade é Beatriz e tem 20etantos anos. É do RJ, nunca saiu de lá e é formada em Artes Visuais. Transita entre ilustrações, pinturas, textos, crianças e frustrações. Tudo que está ligado a arte faz, sem vergonha e limite. Já fez algumas exposições, já fez algumas vitrines, vive fazendo um monte de coisa. Uma Metamorfose Ambulante.

  • Laíza

    Nunca pensei que, do alto dos meus 21 anos, fosse ler uma matéria explicando para as leitoras mais jovens (em que momento eu deixei de ser uma das leitoras mais jovens???!!!) o que é o lendário MSN. Hahaha.
    Mas a matéria é ótima… eu também tenho problemas com ansiedade e acho que isso não é bom em nenhuma situação.

  • http://www.paleseptember.com Tany Monteiro

    Na realidade, pra mim a melhor parte do amor é a sensação de quando ele tá estável e você sabe que aquela pessoa é humana, muito linda por dentro, mas tem seus defeitos e aceita eles e ao mesmo tempo você sabe que ela pensa o mesmo de você, e ainda assim quando você pensa em encontrar dá uma vontade de chegar a hora logo, pela saudade, por ser ela, mas saber que além disso, tá tudo bem.

    Texto lindo. 🙂

    • Ariel

      Concordo plenamente. E ainda bem que achei esse post, pois não gosto de sentir isso ainda mais sendo que nem mesmo comecei ou sei se vai chegar a ter algum relacionamento. Também prefiro quando isso tudo já sumiu e descobrimos que amamos de verdade.

  • Andreza Delgado

    adoro demais essa sensação

  • Nathalia Dutra

    Gente, que saudade desse sentimento! Esse negócio de pirar quando a pessoa chega perto, ou vibrar com uma surpresa. Faz tanto tempo que não sinto isso, e faz TANTA falta. Esse seu texto (que está incrível, por sinal), me deu um sentimento nostalgico sobre estar apaixonada e sobre sofrer por amor. Acho que é de lei colocarmo-nos à disposição da dor caso decidamos amar. Um abraço! 48janeiros.com

  • Jussara Miranda

    Vivo um pouco ainda com essa sensação de você é muito bom pra mim. Mas fazendo todo um trabalho comigo mesma, em me trazer para um lugar bom e confortável, onde me sinto feliz comigo e isso faz com que, quem esteja comigo, se sinta bem também…
    Mas sinto uma tremenda falta daquele comecinho.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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