29 de junho de 2014 | Estilo | Texto: | Ilustração:
Tamanho Você

Ilustração: Helena Zelic.

Que levante a mão a primeira menina que nunca teve nenhum problema para vestir uma roupa em uma loja. Seja magra, gorda, alta, baixa, com ancas largas ou peitos fartos, todas as meninas já vivenciaram algum momento em que alguma roupa deixou a desejar em algum pedaço de seu corpo. Entretanto, algumas meninas sofrem mais que outras pela padronização que a nossa sociedade escolheu para o corpo feminino e, é claro, todos esses conceitos de gorda, magra e afins são instituídos por essa mesma sociedade.

Se fizermos uma pesquisa rápida nos editoriais de moda por aí, encontraremos várias meninas de pernas longas e finas, cinturas mais finas ainda, vestindo o tal número 34. Na vida real, o padrão se expande um pouquinho, provavelmente se colocando entre o 36 e o 40. Mas o que acontece na vida dessas meninas que não se encaixam neste padrão de corpo quando vão à compra de uma muda de roupa?

Bom, eu sou uma delas. Com minhas coxas grossas, meu quadril largo, minha cintura fina, meus peitos grandes e meus 1,74m, existem vários percalços para encontrar uma roupa e comprá-la… Para começar: ou as calças ficam largas no quadril, ou apertadíssimas a ponto de nem passarem na coxa. Eu não consigo achar sutiãs bonitinhos e rendados para mim porque, se dão certo no bojo, ficam largos nas costas. Vestidos que fechem na altura dos meus peitos e não fiquem largos no resto do corpo são difíceis de encontrar. Mas mais difíceis ainda de achar são os que não acabam parecendo uma blusa compridinha pela falta de pano para o comprimento.

Depois de tentar em muitas lojas e experimentar muitas roupas, o que todos sabemos ser um trabalho desgastante e chato, consegue-se achar aquela loja que te dá menos dor de cabeça pra comprar determinadas peças de roupa. E ainda assim existem problemas na própria modelagem entre as diversas confecções. Outro dia comprei uma blusa P em uma loja e experimentei um vestido G em outra que não fechava no meu peito. Sem contar que, em várias lojas, os tamanhos param no 42 ou no 44, quando muito, o que diminui mais ainda a possibilidade de muitas garotas comprarem peças nessas lojas.

Os problemas não param por aí. Tenho duas amigas bem petit, com aproximadamente 1,55m e corpos magrinhos. Para elas, o problema é a não existência de lojas que trabalhem com o tamanho PP. E mesmo as que trabalham acabam tendo modelos de roupa PP que ficam extremamente largos e compridos nelas, fazendo com que tenham que levar as peças para a costureira para fazer o ajuste final.

No início do ano, viajei para fora e me deparei com uma realidade completamente diferente da que eu vivia aqui. No meu primeiro dia em Londres, precisei comprar uma legging térmica porque estava muito frio, e entrei em uma loja de departamento britânica para tal. Não preciso nem comentar o quanto eu fiquei maravilhada com a quantidade de tamanhos que eles vendem lá. As calças têm marcação de tamanho para o quadril e para o tamanho da perna, para evitar aquele ajuste chato de bainha ou o comprimento tipo “pescando siri”. Lá as lojas de fast fashion e de departamento têm roupas de realmente todos os tamanhos para as garotas, os sutiãs têm tamanho para as costas e para o bojo, entre outras regalias que beneficiam muitas garotas com corpos ditos fora do padrão, vestindo também as que estão dentro dessas medidas.

Mas, na real, o que é esse padrão? Porque eu andei pelas ruas de Londres e o que eu vi foram meninas com o mesmo biótipo que o meu, além de tantos outros tão diferentes. Todas vestindo os mesmos tipos de roupas, mas cada uma com o seu estilo, com seu tamanho, com sua autoestima aparentemente intacta. Não vou nem comentar os cabelos coloridos e cortes lindos e diferentes, porque senão vou desvirtuar o verdadeiro sentido deste texto.

Além da dificuldade de encontrar roupas em tamanhos e modelos certos, a menina brasileira acaba criando problemas com a sua autoestima por não conseguir se vestir com as roupas que deseja. Passei muito tempo tentando me adequar a esse tamanho perfeito da nossa moda para não me frustrar com a falta de opções de roupas do meu gosto. Mas nem sempre emagrecer ou engordar vai mudar isso. Quando seu peito é grande mesmo e os seus ossos são largos, dietas não vão modificar o tamanho deles.

Entretanto, ao longo do tempo fui aprendendo a comprar as coisas e mandar acertar tudo aquilo que ficava imperfeito – em última instância, é claro. Algumas coisas também começaram a mudar por aqui: agora eu já consigo comprar um sutiã com tamanho diferenciado de costas e bojo, ou comprar uma calça com um corte especial para quem tem coxas e quadris largos, mas cinturas finas. Ainda são artigos relativamente caros, mas dá para encontrar no mercado.

Aos poucos eu acredito que a indústria brasileira vai chegar a uma padronização de modelagens, introduzindo mais tamanhos e opções para as mulheres que já sofrem tanto com isso. Por enquanto, o importante é fazer essa busca de lojas para comprar determinadas roupas. É cansativo e por vezes extremamente enfadonho, mas é recompensador saber que você provavelmente vai conseguir achar o que quer nesses estabelecimentos que for descobrindo.

O importante é nunca deixar a sua autoestima ficar baixa por causa de uma roupa não deu em você porque ficou muito larga, ou muito apertada, ou não fechou, ou ficou curta. Esse com certeza não é um problema do seu corpo, essas coisas acontecem. Enquanto se sentirem à vontade como estão, não existe nenhuma necessidade de mudar, a não ser quando o corpo reflete uma doença. Nesse caso, a mudança não tem que ser feita pela estética, mas pela saúde. Temos sempre que manter mente e corpos sãos. Indispensável é se sentir bem!

 

Nathalia Valladares
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Ilustradora

Sol em gêmeos, ascendente em leão, marte em áries e a cabeça nas estrelas, Nathalia, 24, é uma estudante de Design que ainda nem sabe se tá no rumo certo da vida (afinal, quem sabe?). É um grande paradoxo entre o cult e o blockbuster. Devoradora de livros, apreciadora de arte, amante da moda, adepta do ecletismo, rainha da indecisão, escritora de inúmeros romances inacabados, odiadora da ponte Rio-Niterói, seu trânsito e do fato de ser um acidente geográfico que nasceu do outro lado da poça. Para iniciar uma boa relação, comece falando de Londres, super-heróis, séries, Disney ou chocolate. É 70% Lufa-Lufa, 20% Corvinal e 10% Grifinória.

  • http://www.fontenelefotografia.com Camila Fontenele

    Também encontro dificuldades em encontrar roupas e uma das minhas alternativas são as lojas que produzem suas próprias roupas e costureiras, mas mesmo assim me sinto triste em não poder comprar uma calça jeans que fique boa em todos os sentidos, tenho as coxas grossas e elas ficam presas e quando passam ficam largas na cintura. 🙁

  • Fernanda Molinaro

    “O importante é nunca deixar a sua autoestima ficar baixa por causa de uma roupa não deu em você porque ficou muito larga, ou muito apertada, ou não fechou, ou ficou curta. Esse com certeza não é um problema do seu corpo, essas coisas acontecem. ” – obrigada!

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos