23 de janeiro de 2015 | Ano 1, Edição #10 | Texto: e | Ilustração: Isadora M.
Um pesadelo vestido de sonho: o poder da Taylor Swift
Ilustração: Isadora M.

 

Nossa cultura popular – seja músicas, filmes, peças, ou livros – é cheia de estereótipos sobre mulheres. Isso se reproduz o tempo todo naquelas personagens sempre estranhamente parecidas: apesar das infinitas combinações possíveis de personalidade humana, personagens mulheres seguem sendo construídas de forma muito semelhante. Também estão sempre vivendo romances que se desenrolam quase da mesma forma.

Existe um desses estereótipos de personagem mulher muito famoso que foi apelidado de “Manic Pixie Dream Girl” (algo sem uma tradução boa o suficiente, mas que é mais ou menos garota-fada-maníaca-dos-sonhos). A garota-fada-maníaca-dos-sonhos é aquela mulher, com jeito ainda pueril, que não se encaixa bem em padrões populares de agir ou vestir, não tem muitas preocupações e que vai lentamente se aproximando de um homem e lhe mostrando que a vida é bela e leve com seu jeito descompromissado e extremamente cativante, retirando grandes pesos de seus ombros até que ele se vê perdidamente apaixonado, porque é impossível não se apaixonar por uma garota-fada-maníaca-dos-sonhos (ver: Zooey Deschanel em 500 dias com ela e New Girl; Natalie Portman em Garden State; em retrospecto, Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo, etc. etc. etc).

O principal traço que caracteriza esse estereótipo e um dos traços mais valorizados na mulher hoje em dia está justamente em não se importar – mas ainda assim misteriosamente se mantendo linda e cativante, usando maquiagem sem parecer que está usando maquiagem, usando sutiã sem parecer que está usando sutiã se vestindo bem sem parecer que se esforçou pra isso etc. Esse valor gerou ainda outra trope, estereótipo de personagem, a “cool girl” – digamos, “garota maneira” –, popularizada por um trecho do livro Garota Exemplar, da Gillian Flynn. É como se “não se importar” fosse tudo de mais importante. Mas é impossível ser essa pessoa porque, na maior parte das vezes, nós nos importamos, sim, com muitas coisas.

Taylor Swift construiu sua persona pública sendo a antítese da mulher que não se importa. Ela mostra que se importa em toda música que faz. Sua carreira musical foi construída de forma extremamente emocional e dramática sobre relacionamentos que ela tornou públicos. Logo, ela se tornou aos olhos do mundo outro estereótipo de mulher, a “histérica” excessivamente apegada, a mulher que as pessoas imaginam comprando um vestido de casamento pra usar sozinha sentada na sala enquanto chora e come brigadeiro. Essa é daquelas mulheres das quais, supostamente, homens devem correr desesperadamente (sempre homens, porque sempre se imagina que todas as mulheres do mundo necessariamente se sentem atraídas por homens e precisam deles).

Algumas das músicas do começo da carreira da Taylor ainda se apegam a outro estereótipo sobre garotas (especialmente sobre essas garotas que “se importam demais”): o de que garotas são competitivas. O hit “You belong with me”, de seu segundo álbum, por exemplo, é exatamente sobre como o cara devia largar a namorada, que não é tão legal quanto a Taylor; e sua imagem pública visual era de jovem virginal, inocente e pura, como se isso fosse o ideal a ser desejado. Aos poucos, no entanto, Taylor foi crescendo, e isso pode ser percebido nas suas músicas. “Mean”, por excemplo, do seu terceiro álbum, é um hino country adolescente de poder e liberdade, em que ela canta – para alguém que a faz mal e tem muito poder sobre ela – que “algum dia eu estarei vivendo numa grande cidade, e tudo que você será é malvado; algum dia eu serei grande o suficiente para você não me atingir, e tudo que você será é malvado”.

No quarto álbum, Red, é que a mudança da persona da Taylor começou a ficar mais clara. Já eram os vestidos brancos e longos e os cabelos cacheados, dando lugar a shorts de cintura alta, listras, batom vermelho, e uma animação pop contagiante nos shows. Os dois singles mais famosos desse álbum – “22” e “We are never getting back together” – mostram essa mudança: não são sobre levar um pé na bunda e sofrer, ou sobre querer alguém de volta, mas sim sobre como ela está bem, sozinha, com as amigas, curtindo a vida.

Aí chegamos a 1989, um dos melhores álbuns de 2014 (adendo da Sofia: para vocês terem uma noção, a Taylor Swift foi minha artista mais ouvida do ano de acordo com o last.fm, e eu culpo esse CD). “Blank Space”, single do 1989, é o ponto de virada na carreira da Taylor. Pela primeira vez, ela apropria o estereótipo da mulher histérica e usa para satirizar todos aqueles que a reduzem a isso. Para isso, ela assume a personagem ao absoluto extremo, deitada no chão com salto XV e borrando o rosto inteiro de rímel, atirando facas por aí, sentada na cama planejando vingança e apunhalando um doce enquanto acaricia um gato. O objetivo é expor o total ridículo dessa ideia. Ela se afirma aí como um ser humano completo que decide sobre si e é mais do que isso. A letra também segue esse caminho, com ela se declarando “um pesadelo vestido de sonho”.

Acompanhando o 1989, a persona pública de Taylor também se consolidou da forma como se encaminhava desde a época do Red. Ela sai com as amigas – dentre elas, Lorde, Lena Dunham, Karlie Kloss e as irmãs do Haim –, passeia por NY com suas gatas (cujos nomes são Meredith Grey e Olivia Benson, por causa das personagens de Grey’s Anatomy e Law & Order: SVU), declara publicamente estar feliz solteira, compra presentes para as fãs em turnê, faz biscoitos para comer vendo televisão e, ah é, é uma milionária aos 25 anos que compõe e canta as próprias músicas. Taylor Swift é poderosa e não tem medo de mostrá-lo – mas, ao mesmo tempo, constrói esse poder em cima de sua aparente vulnerabilidade. Ela ganha muito mais dinheiro do que somos capazes de imaginar, controla impecavelmente sua imagem, e mesmo assim não tem medo de ser boazinha. Enquanto é esperado que mulheres poderosas sejam “duronas”, ou sigam certos modelos pressupostos de poder, ela mostra que você pode ser poderosa sendo legal, simpática, fofa até dizer chega – que você pode ser uma empresária e artista de sucesso, sem deixar de carregar suas gatas de estimação a tiracolo, e que você pode ser uma mulher de poder nos seus próprios termos.

Mas, por mais que a gente ame a Taylor Swift, sabemos que ela não é a única artista pop com músicas super animadas e poderosas. Por isso, fizemos essa pequena playlist no 8tracks, para vocês se sentirem maravilhosas no #verãodopoder:

#girlpower from capitolina on 8tracks Radio.

1. Bellas Finals – The Barden Bellas (Pitch Perfect)
2. What the hell – Avril Lavigne
3. Wings – Little Mix
4. So what – P!nk
5. Shut up and drive – Rihanna
6. Can’t be tamed – Miley Cyrus
7. Problem – Natalia Kills
8. Cannibal – Ke$ha
9. Spice up your life – Spice Girls
10. Bulletproof – La Roux
11. Salute – Little Mix
12. I’m the best – Nicki Minaj
13. 212 – Azealia Banks
14. Vanity – Christina Aguilera
15. Stronger – Britney Spears
16. Primadonna – Marina & the Diamonds
17. Blank space – Taylor Swift
18. Fighter – Christina Aguilera
19. Glory and Gore – Lorde

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

Thais Bakker
  • Colaboradora de Cinema & TV

Thais tem 20 anos e estuda Relações Internacionais e Filosofia. Se sente bem estranha se apresentando, por isso pagou uma coxinha a quem escrevesse isto por ela. Essa pessoa também achou relevante mencionar que ela reclama mais do que o socialmente aceitável.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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