7 de maio de 2015 | Artes | Texto: | Ilustração:
Teatro de rua: Entrevista com Maria Gabriela D’Ambrozio
Foto: arquivo pessoal

Você já deve ter passado por uma praça ou parque e visto uma movimentação diferente, muitas pessoas reunidas em torno de algo, rindo ou concentradas, e então percebido que se tratava de uma apresentação teatral. E o mais diferente de tudo? Não era dentro de um teatro! Contamos aqui (http://www.revistacapitolina.com.br/historia-teatro/) uma breve história do teatro, e agora vamos falar um pouco sobre o teatro de rua, apresentações teatrais em espaços abertos.

Por ocorrer em locais públicos como feiras, mercados e praças, pode-se dizer que o teatro de rua nasceu antes mesmo do teatro grego, como manifestação cultural de comunidades ao redor do mundo, na forma de rituais e festas homenageando os deuses. No Brasil, prolifera  como maneira de expressão após a ditadura militar.

As apresentações de rua costumam ser mais interativas pelo fato de não terem a quarta parede (uma parede imaginária que separa a plateia do palco) e é uma maneira trocar experiências com pessoas de lugares mais afastados e com culturas diferentes, como as periferias e as aldeias.

Confira agora a entrevista com a atriz Maria Gabriela D’Ambrozio, que faz parte da Marcha Mundial das Mulheres (link: https://marchamulheres.wordpress.com/) e da Rede Brasileira de Teatro de Rua e nos conta um pouco sobre sua vida e experiência:

D: Como você começou no teatro de rua?

M: Eu queria fazer teatro desde criança, mas naquela época minha referência era o que eu assistia na televisão, a mídia maior. Depois de muito procurar um lugar, aos 12 anos entrei na Fundação das Artes, aqui em São Caetano, e comecei a fazer teatro, mas eu ainda tinha a imagem das atrizes da televisão, das novelas. Fiquei sete anos participando das peças e processos que a Fundação proporcionava e depois prestei um teste para fazer teatro profissional nessa escola. No teatro profissional me convidaram para participar de uma oficina com o grupo Grite, de Santo André , e nessa oficina conheci a Natalia Siufi. Ela estava montando um grupo de teatro, o Parlendas, que tinha a ideia de a gente se sustentar com a nossa arte, porque gostávamos muito de fazer teatro, só que trabalhávamos com coisas paralelas. Começamos a fazer teatro infantil e as escolas começaram a nos convidar, então largamos nossos outros empregos e passamos a fazer só teatro. A partir disso, começamos a questionar uma porção de coisas. Que teatro a gente realmente queria fazer? Um teatro em caixa fechada ou um teatro que possibilitasse múltiplas formas de experiência? Com quem a gente queria trocar? O que a gente necessitava falar? O que é que a gente estava querendo com o teatro? E a resposta e outras milhões de perguntas vieram com a escolha pelo teatro de rua.

D: Quando você passou da escola de teatro para o teatro de rua, qual foi a maior diferença?

M: Na escola onde eu estudava, e na maioria das escolas, não existe uma disciplina que fale de teatro de rua, então toda minha formação foi de uma técnica europeia, uma técnica burguesa. Um teatro grego, principalmente feito por brancos e que é a refrência até hoje, mas que está apartado das classes baixas, dos movimentos sociais, das lutas políticas de rua. Ele está voltado para o mercado ou para uma cultura erudita. Quando as pessoas vão ao teatro, elas veem um artista que parece deslumbrante e intocável, enquanto o teatro de rua vai na contramão de tudo isso. Você está em constante diálogo com o público. O público está dentro da peça e dá a opinião no mesmo momento em que você está fazendo — é o que a gente chama de queda da quarta parede, o teatro épico. A maioria dos teatros feito em caixa fechada usa a quarta parede, onde o ator não vê o público, só o público vê o ator. É uma parede de vidro e nada acontece pra fora do palco. Se alguém gritar, se alguém tiver uma emoção maior, aquilo é excluído pelos atores que estão em cena, e no teatro de rua você não tem essa possibilidade. O bêbado entra em cena, o cachorro passa, a polícia aparece, alguma coisa sempre acontece, então é sempre um espetáculo diferente e é nossa proposta conversar com o que está acontecendo no momento, brincar com aquilo, trazer aquilo para a cena, porque é um teatro gratuito, publico que ressignifica o espaço público. Esse teatro deseja que o público reaja como se estivesse em um estádio de futebol, como dizia Brecht.  Esse teatro tem relação direta com o momento social, político e econômico do agora, daquela comunidade onde a gente está, e baseia-se em histórias sociais do passado, da luta de classes.

D: Você acha que depois de todo esse tempo trabalhando com teatro de rua você conseguiria voltar a fazer o teatro de caixa?

M: Na faculdade uma professora queria que eu fizesse uma direção cênica e recitasse poesias num teatro fechado. A primeira apresentação que eu fiz foi engraçadíssima, parecia que aquele palco ia me engolir, o meu corpo não estava mais naquele espaço. Eu queria conversar com as pessoas, descer, fazer brincadeiras, mas a própria disponibilidade daquele teatro não me deixava fazer aquilo. Não é que o teatro de caixa seja horroroso, mas precisa daquele público que esteja disponível a sair de casa e entrar no teatro e o teatro de rua proporciona o outro. É outro movimento, é a gente romper, resignificar um espaço da rua, romper com aquela ordem já dada da rua e abrir uma roda de troca de experiência no meio da rotina da rua ou da comunidade.

D: É, porque a pessoa está passando, vê uma movimentação diferente e para pra olhar…

M: Exatamente, e aí é aquela coisa: ela para pra olhar; se for interessante pra ela, ela fica, e se não for ela vai embora, então é a gente aprender qual é essa linguagem da rua, porque também tem manifestações que acontecem na rua, que apesar de aparecerem no espaço público, ainda estão vinculadas com aquela ideia burguesa de arte, que é o mostrar o artista, mostrar o que ele sabe fazer. A gente, enquanto Rede Brasileira de Teatro de Rua, enquanto grupos de esquerda de São Paulo (grupos que estão vinculados aos movimentos sociais) , pensamos o contrário disso. Pensamos em trazer a conversa que é comum e mostrar que quem está fazendo aquele teatro é tão trabalhador, é tão comum quanto quem está passando pela rua. Nosso teatro tem um recorte de classe. E estamos a serviço da classe trabalhadora. Fazendo um teatro que diverte e causa reflexão. Um teatro que não propaga preconceitos, mas sim que denúncia a exploração, o machismo, a homofobia.

D: Você prefere por isso, então, porque você pode lidar mais com o público do que no teatro de caixa?

M: A palavra é conversar com o público. Criar um espaço de conversa, de troca de experiências. É por isso que a gente quer estar na rua, e aí tem toda uma questão política por trás disso. Não é só por preferência, não é só por gostar, mas também por uma necessidade histórica: em que tempo estamos e para que queremos usar esse teatro. É como se esse teatro fosse nosso instrumento de luta, um teatro que causasse reflexão.  Ao causar reflexão dentro do teatro, a gente vai atingir ou a categoria artística, que sempre vai ao teatro, ou a gente vai ficar fazendo teatro para a burguesia, então é tudo isso que está em questão, mas principalmente a questão política. Tem um recorte de classes. Mas o teatro, sozinho, não pode mudar o mundo. Precisa fazer parte de um coletivo maior, e é por isso que essa galera do Movimento de Teatro de Rua de São Paulo está muito próxima dos movimentos populares sociais, como o MST, a Marcha Mundial das Mulheres, e é com esses movimentos que a gente faz teatro. Não tem como fazer teatro político, com uma visão de esquerda sozinha, ensaiando,  só pensando artisticamente. É preciso estar muito perto dos movimentos sociais organizados pelas(os) trabalhadoras(es).

D: Como você diria que é a vida de uma atriz de rua, como vocês se sustentam?

M: A gente é marginal. A tradição do teatro de rua e o sustento do artista de rua por muitos anos na história foi apenas a passada de chapéu. Tem toda uma luta dos movimentos de teatro no Brasil (como o Arte contra Barbárie, a Roda do Fomento, as ocupações que fizemos na Funarte) a favor de políticas públicas para uma Arte Pública. A gente pede que o nosso trabalho seja financiado pelo Estado. E por que o Estado e não as empresas privadas? Porque as empresas pedem  que a gente faça quase uma propaganda. Tudo na mão do capital é produto a ser negociado e a gente tá na contramão disso. Não queremos fazer propaganda.  Queremos Políticas Públicas para uma Arte Pública. Muita gente no Brasil, por conta das pouquíssimas Leis pra financiamento da Cultura, ainda se  se sustenta só com o chapéu, o que é muito difícil num país capitalista. Além disso, sempre tem os editais públicos e os fomentos ao teatro, mas são poucos e todos os anos precisamos nos organizar para que não cortem verbas. Em São Paulo, a gente tem o Fomento ao Teatro da cidade de SP, que é a melhor lei do Brasil. Esta Lei foi construída pelo movimento Arte Contra Barbarie e é pricipalmente voltada aos grupos teatrais. Mas ainda assim, essa Lei não garante a permanência do Grupo por muito tempo e são poucos os grupos que recebem. Precisamos de mais verba. A luta é pra haja possibilidade de que todas que desejam fazer teatro, trabalhar com teatro, possam, de fato, fazer.  E não é fácil fazer Teatro. É um trabalho árduo. Quando vemos uma peça de teatro, estamos percebendo a pontinha do iciberg, por baixo daquilo tudo tem muito estudo e trabalho.
Esse conceito de Arte Pública é algo que a gente está desenvolvendo agora; o dinheiro vem do Estado, e é uma arte sempre gratuita, que está sempre em espaço público, por isso essa ideia de arte pública. Ela está muito perto do chão, está dizendo o que a gente precisa dizer, o que os movimentos sociais estão dizendo. Essa é a ideia da arte pública.

D: O que você diria para encorajar as pessoas que querem trabalhar com teatro de rua?

M: É preciso muita coragem pra fazer esse teatro, porque ele está bem à margem, é pouco registrado, é pouco valorizado pelo padrão social. É um teatro que a gente faz em grupo, e é muito difícil viver em grupo, porque toda sociedade capitalista nos individualiza a todo tempo, nos coloca em competição com nossos parceiros. E é preciso estar atento para não reproduzirmos essa lógica. A criação é coletiva, as coisas estão sempre se modificando, e o mais bonito disso é o quanto a gente aprende nesse processo, e a gente acaba se emancipando a partir dele, com outras/os companheiras/os.

Tem uma história do primeiro espetáculo grande de rua que eu participei, que foi uma grande processo, ficamos bastante tempo construindo: o Marruá, com o grupo Parlendas, dirigido pelo Luciano Carvalho (Dolores Boca Aberta, militante do MST). Ficamos mambembando pelo Brasil durante 71 dias, fomos para assentamentos, aldeias e quilombos colhendo histórias, e a partir delas montamos o Marruá. Voltamos com um punhado de histórias e muitas nos incomodavam, porque a gente queria falar sobre elas, mas não sabia como. E montar o Marruá, com a direção do Luciano, foi uma formação política. Eu vejo claramente que mudei durante esse processo de criação. Nessas comunidades, a coisa que mais me instigava e que eu mais tinha vontade de fazer era conversar com as mulheres, então eu ia pra uma comunidade quilombola e as procurava. Não tinha claro na minha cabeça o porquê disso, mas eu queria saber sobre elas, talvez porque eu percebia que havia algo em comum. E a partir das conversas, que se desdobraram em mil fatos sobre violência, divisão sexual do trabalho e muita coragem dessa mulherada, eu passei a me interessar mais. Eu trouxe aquele punhado de histórias e queria colocar tudo no corpo e conseguir expressar tudo aquilo que eu estava sentindo. Mas é aí que entra a nossa metodologia teatral que os grupos vão desenvolvendo. O Parlendas trabalha bastante com a Palhaçaria Clássica e o Dolores desenvolveu o que eles chamam de Teatro Mutirão. Foi a junção dessas formas e conteúdos teatrais que me formou como atriz militante.  A partir disso, fui me formando enquanto feminista também, e isso é muito bonito, porque foi a partir de uma criação teatral, a partir de um fazer artístico não descolado das lutas da rua. Só que eu sozinha não dava conta, então foi essa coisa, eu vi que precisava estar muito perto dos movimentos. Aí entra a Marcha Mundial das Mulheres; eu comecei a ler sobre isso e a estar mais com as mulheres. Eu contaria essa história pra quem está começando agora. Sobre o quão importante é estar em grupo, essa possibilidade de fazer um teatro que é para a gente. E também não é  só para mim. Num desses estudos ganhei o livro O segundo sexo, da Simone de Beauvoir, e no final do livro ela fala da atriz narcisista, que é aquela atriz egocêntrica, que quer fazer o teatro para se mostrar, para o seu ego. E ela está muito dependente de algumas coisas, não esta em luta pela emancipação, então a busca que a gente faz é por esse não narcisismo, é pelo coletivo. É difícil falar “eu”, é sempre “a gente”, “nós”. E a gente acaba se modificando muito com isso. Acabamos pensando menos em nós mesmos e mais no todo, e estamos a serviço da nossa classe. Isso é ser uma atriz militante, uma fazedora de teatro de rua, que é também costureira, motorista, contadora, porque estar em grupo é fazer um pouco de tudo.

D: Seu grupo é só de mulheres?

M: Eu trabalhei durante oito anos com o grupo Parlendas e saí no final do ano passado. Fiz minha ultima apresentação em Cuba, na Cruzada Teatral Guantanamo – Baracoa. Aprendemos muito com as cubanas. O Parlendas hoje  é um grupo misto. Foi criado só por mulheres, mas depois foi se desdobrando, muitas saíram. Agora, estou com outro grupo de mulheres, estamos iniciando um processo, e esse é só de mulheres, mesmo. Chama-se Mãe da Rua, e surge de todas essas questões que eu falei, que eu fiquei fuzilando durante muito tempo. Comecei a compartilhar isso com outras companheiras e a gente se juntou. O Mãe da Rua é um grupo de mulheres, e não só mulheres teatreiras. Tem musicista, psicóloga, geógrafa, poeta, grafiteira…. É um grupo de artes integradas. Essa é a proposta, e a partir daí vamos montar manifestações artísticas em espaços públicos. Ainda não sabemos o que vai virar, mas essa é a ideia.

D: Como você diria que é ser mulher no teatro de rua?

M: Vou responder essa a partir das conversas com outras companheiras. Durante a faculdade, fiz meu TCC junto com outras companheiras pensando sobre isso. Chama-se Espelha, Martela e Forja, que é a brincadeira de a gente se espelhar – perceber o que existe em comum; martelar, que é a construção, pensar sobre nossas metodologias e forjar uma proposta de reinventar um outro mundo. Então fomos conversando que, historicamente, nós mulheres ficamos nos ambientes privados. O homem provedor e a mulher dona de casa. Então não é que as mulheres são minoria, as mulheres estão dissipadas entre os homens, esse é o grande problema, e nós tivemos, durante a história, poucas oportunidades de ocupar o espaço público e dar a nossa visão sobre o fato, o nosso conhecimento. Há poucos registros sobre. Nós, enquanto fazedoras de teatro, ocuparmos o espaço público e colocarmos esse nosso corpo, que por muito tempo ficou voltado para os afazeres domésticos, é incrível e muito importante. E tem vários relatos. A Rafaela Carneiro, da Brava Companhia, fazia a Joana D’Arc num espetáculo, e ela me conta que fica presa, toda amarrada num poste no começo do espetáculo, e que enquanto ela tá presa, sofrendo, os caras no meio da rua chegam e cochicham “E aí, gostosa” e outros comentários desse tipo no ouvido dela. Eu dançava um funk horroroso no Marruá, que é uma coisa feia e bela, que é o que a arte provoca. E a música do funk falava “Vai Maria aria só panela todo dia, lava, esfrega, lava, esfrega, cai na bacia. Vai Maria, o marido vai chegar, vai Maria e você vai se ferrar”. Enquanto essa música estava tocando, eu dançava funk, só que fazendo movimentos como se estivesse lavando, passando, varrendo, esfregando, e eu ia ficando cansada durante o funk, e é incrível como muitos homens não conseguem olhar para cara, eles olham o corpo, aquele corpo objeto, e fazem comentários objetificando esse corpo. E a gente conversou muito sobre isso, de qual é a nossa postura pra que isso não aconteça. É claro que isso transcende a gente, é uma questão social, que não acontece só quando a gente faz teatro, acontece quando a gente está passando na rua. Mas quando a gente faz teatro, nós puxamos o público pra gente, ainda somos o ponto da conversa, a estamos protagonizando. Quando a gente começa esse teatro na rua, é óbvio que o assédio e todas as outras coisas podem aumentar, então a gente falou muito sobre como criticar o assédio. Então quando o assédio vem, eu rebato, não me deixo ficar acuada. Deixo meu corpo de mulher fazedora de teatro de rua romper com aquela estrutura. É sempre essa a ideia, é romper com isso, porque já houve apresentações em que me senti acuada, mesmo dançando esse funk, e quando eu me vi naquela situação, quis modificar isso. Quando você resolve isso, com uma segurança e com todo um compartilhar, com um coletivo que você faz parte, você acaba conseguindo constranger quem está assediando e isso é muito legal, é uma proposta muito empoderadora para nós, mulheres.

D: É muito complicado pra gente, mesmo, andar na rua sem se sentir acuada, então eu fiquei imaginando como deve ser pra você e outras atrizes, estando sempre na rua.

M: é isso, a Iná Camargo Costa, filósofa, fala muito do quanto é importante as mulheres ocuparem o espaço público, tanto na política quanto no trabalho, e essa ideia da gente estar na rua é muito legal, muito empoderadora. E vale lembrar que, historicamente no Brasil, as mulheres atrizes por muito tempo foram conhecidas como prostitutas, e é isso. Você fala que faz teatro e já é uma classificação anterior, porque você não está na televisão, e quando você fala “de rua”, aí é o fim! Acham que você é louca! Para quem é do padrão mais conservador é meio assim, mesmo. Ou então ficam “nossa, que força masculina essa mulher tem!” Ou a gente é desvairada ou quase um homem, é bem assim, e é desse binarismo que queremos fugir. Existem muitas maneiras de tornarmo-nos mulheres.

D: Quais são os maiores desafios que você encontra?

M: Os desafios são os de estar em grupo. Não ter chefe, não ser chefe enquanto a gente está ocupando esses coletivos é um grande desafio pra quem faz teatro de rua e é a gente ser coerente com tudo que a gente diz, porque tem toda uma teoria e a gente precisa alcançar essa prática diária do que é ser solidário aos companheiros, do que é a gente se autoavaliar, conseguir fazer uma autoavaliação sobre os nossos posicionamentos enquanto fazedoras de teatro de rua, militantes e sempre a favor daquilo que a gente propõe. Isso é uma tarefa árdua, de não se deixar corromper pelo poder, que seja ele mínimo, ou se corromper pelo próprio capital, que já é maior. A gente precisa avançar. Acho que é esse o nosso desafio enquanto Rede Brasileira de Teatro de Rua, enquantogrupos de esquerda. E eu vejo que esse avanço só pode se dar aliado aos movimentos sociais grandes, de massa. E o mar do Capital está sempre querendo nos corromper.

D: Tem algo que você queira muito fazer em relação ao teatro de rua, um sonho?

M: O que eu já te falei, que a gente já fez, é tudo um sonho. Eu brinco que “sonho que se sonha só é só um sonho, e sonho que se sonha junto é realidade”. Então os sonhos, as vontades, são muito todas vividas em coletivos. No Parlendas,  eu realizei muitos sonhos. Viajei pra muitos lugares no Brasil que pouca gente conhece: assentamentos, quilombos e aldeias, e construí muita coisa com pessoas muito bacanas. E agora esse grupo Mãe da Rua é outro sonho que está se desdobrando, que é fazer teatro de rua com mulheres, disseminar essa arte que nós mulheres fazemos. Acho que a gente constrói dia a dia uma  outra realidade em nossos grupos.  Meu sonho é que muita gente possa fazer esse teatro questionador, revelador das contradições sociais. E que a gente possa ter mais condições de fazer esse teatro. É pra isso que a gente luta e festa. Pra uma mudança social. Pra uma união.

D: Tem mais alguma coisa que você gostaria de falar?

M: É importante o registro sobre esse trabalho, porque quando a gente vai estudar teatro, as referências são as de um teatro burguês. A gente fala da Revolução Russa e ouve o nome dos homens, a gente propõe falar da história da esquerda e ainda assim tem um deslize, que é falar  só sobre o que os homens fizeram, então a proposta de registrar sobre o fazer de rua das mulheres é muito importante. Eu fico muito alegre quando as pessoas pedem pra conversar, escrever sobre esse teatro. A gente mesmo tem o trabalho árduo de registrar os nossos pensamentos, as nossas metodologias, porque a gente quer mesmo que isso se multiplique. E registrar esse fazer, que é das classes populares, de quem é da esquerda, de quem é militante, de quem quer uma transformação social. A luta das mulheres organizadas não é secundária. É cerne para a transformação social, assim como ir contra a homofobia e o preconceito racial.

 

 

Domenica Morvillo
  • Colaboradora de Artes
  • Colaboradora de Cinema & TV & Música

Domenica tem 18 anos e mora no interior de São Paulo, de onde sempre foi louca para sair. Não sabe bem o que quer da vida e às vezes tem vontade de largar tudo e se mudar para Tóquio. Gosta muito de ler, escutar música e conversar.

  • Ariane

    Sou atriz de teatro de rua. O meu grupo passa por situações parecidas e enfrentamos dificuldades financeiras, não ganhamos nada por todo o trabalho, sustentamos nossa arte com muito amor e vontade. O teatro de rua me ensinou que arte é despertar sonhos, já conheci gente que achava que pra ver teatro precisava saber ler, ou que teatro era relacionado a comida, no fim de cada apresentação recebemos abraços e vários obrigadxs. Já recebi cantadas enquanto divulgava nossa peça, por ser muito jovem já fui ignorada e silenciada, não é fácil. Força para atrizes do teatro de rua, força ao teatro! Amei a entrevista

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