10 de abril de 2015 | Ano 2, Edição #13 | Texto: | Ilustração: Clara Browne
Tempo, dinheiro e progresso

“Tempo é dinheiro” é uma frase que costumamos ouvir muito por aí e que existe em vários idiomas diferentes. Ela existe porque, no mundo onde vivemos, o valor das pessoas é dado pelo quanto elas conseguem produzir e colaborar para a máquina capitalista continuar funcionando. Com isso, tempo e dinheiro acabam se tornando duas coisas que andam de mãos dadas, quase indissociáveis — entende-se que seu tempo de vida deve ser gasto produzindo coisas que se revertam em dinheiro e, caso contrário, esse tempo terá sido desperdiçado. Da mesma forma, o valor de diversas formas de organização humana é frequentemente medido pelo quanto essa ou aquela sociedade conseguiu produzir. E a produção é automaticamente associada ao “progresso”, que seria sempre positivo. Ou seja, tempo é dinheiro, dinheiro é produção, produção é progresso, tempo é progresso.

É muito comum, também, ouvirmos por aqui no Brasil coisas como “índios são vagabundos/ preguiçosos”. Essa ideia parte do pressuposto de que povos indígenas não trabalham o suficiente, não produzem o suficiente e, portanto, teriam seu valor diminuído, uma vez que sua forma de vida e cultura são julgadas ultrapassadas, e os indígenas são entendidos como pessoas que saíram do passado em uma máquina do tempo para bloquear nosso progresso com suas demandas pelo direito de levar uma vida tradicional. Esse estranhamento às formas de organização indígenas brasileiras deriva de uma questão muito simples: por mais diversas que as culturas indígenas sejam por aqui, é possível dizer que elas não dão valor à produção compulsiva de bens e ao dinheiro, como faz a sociedade capitalista.

Mas será mesmo que isso necessariamente denota que indígenas sejam povos anacrônicos, perdidos no tempo, e que nós necessariamente estamos em melhores condições, à frente, seguindo uma linha temporal coerente? Depende muito da sua definição de progresso — e progresso é uma ideia que deveria ser melhor pensada. Primeiramente, progresso pode ser tecnológico, médico, social, entre tantas outras coisas; e por mais que a tecnologia humana, por exemplo, de fato evolua progressivamente com o passar do tempo, o mesmo não se pode dizer sobre nossa organização social, nosso bem-estar e, por que não, nossa felicidade. Porque nosso bem-estar social não evolui progressivamente da mesma forma que nossa exploração tecnológica mas, pelo contrário, é marcado pontualmente por retrocessos em inúmeras partes diferentes do mundo.

Por exemplo, há poucos anos estourou nos Estados Unidos o escândalo de espionagem da Agência Nacional de Segurança (NSA) que, contrariando totalmente a legislação e constituição norte-americanas, espionava cidadãos comuns sem nem precisar de qualquer suspeita plausível para tanto — uma violação de privacidade e dos direitos humanos digna de filmes de ficção científica e livros sobre futuros distópicos Orwelianos. Nesse episódio, nossa tecnologia evoluiu no mesmo ritmo da violação de nossos direitos. Em 2013, o Brasil viu um enorme número de prisões arbitrárias de pessoas que estavam fazendo nada além de exercer seu direito constitucionalmente protegido de protestar pacificamente. Muita gente vive louvando por aí o “crescimento” da China (medido, é claro, em termos de produção de bens) e, no entanto, o país tem inúmeras pessoas vivendo em condições de vida deploráveis, tirando seu sustento de trabalho semiescravo, produzindo coisas das quais nunca desfrutarão, como, por exemplo, os adereços de natal que compramos, felizes, todo fim de ano. No Afeganistão, a ascensão do Talibã retirou das mulheres direitos que já haviam sido conquistados a duras penas. Aliás, por falar em mulheres, esses mesmos direitos sofrem tentativas frequentes de supressão em tantos outros lugares do mundo, como nos Estados Unidos e aqui no Brasil, onde houve a recente tentativa de passar o estatuto do nascituro, que obrigaria mulheres a conviverem indefinidamente com seus próprios estupradores em caso de gravidez, entre outras atrocidades do tipo. Ah, tem também o caso da França, onde mulheres foram legalmente proibidas de praticar sua fé e sua livre escolha nas ruas usando niqabs. Enfim, poderíamos listar aqui milhares de outros exemplos.

Tempo só significa progresso em aspectos muito limitados. E progresso não necessariamente significa bem-estar ou felicidade. O problema é que nossa sociedade capitalista entende felicidade como um bem de troca, que pode ser adquirido de acordo com o quanto você está disposto a sacrificar seu tempo de vida trabalhando compulsivamente e gerando mais e mais dinheiro. Felicidade, para nós, é uma commodity como outra qualquer e, quanto mais produção, mais dinheiro, e quanto mais dinheiro, mais felicidade. Ou não?

Thais Bakker
  • Colaboradora de Cinema & TV

Thais tem 20 anos e estuda Relações Internacionais e Filosofia. Se sente bem estranha se apresentando, por isso pagou uma coxinha a quem escrevesse isto por ela. Essa pessoa também achou relevante mencionar que ela reclama mais do que o socialmente aceitável.

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