24 de novembro de 2014 | Ano 1, Edição #8 | Texto: | Ilustração:
Tempo em movimento: crescimento e emancipação
Ilustração: Clara Browne.

Ilustração: Clara Browne.

Talvez um dos principais conflitos da adolescência seja esse: crescer. Crescer no sentido mais amplo do conceito, porque não só de transformações corporais e de estirão é feita a adolescência, mas também de engrandecimento de horizontes, responsabilidades e vontades. Que menina no auge dos seus 14 anos não sentiu uma frustração ao perceber que os pais ainda a tratavam como criança? Aliás, nessa fase, é muito comum a gente tentar sempre reforçar que não somos mais crianças, reforçar a “grande” diferença que há entre aquela de 12 e esta de 14.

Todo esse conflito porque, com o passar dos anos da nossa segunda década de vida, sentimos cada vez mais o ímpeto pela liberdade, a maioridade, a prometida emancipação (pelo menos a formal). Também pudera: o mundo dos adultos nos é pintado com tintas muito especiais, magníficas até; a liberdade da idade adquirida torna-se passaporte para um mundo de novidades. Mas será mesmo?

Verdade que com o tempo a gente vai se tornando donas do próprio nariz, mas sinto informar que do lado de cá (falou a velha rs) as coisas não são tão maravilhosas assim. Costumo invocar a sabedoria ancestral de Tio Ben, que diz que “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”, o que quer dizer que, quanto maior sua emancipação, maiores também serão os desafios a se enfrentar. Com isso não quero romper toda a expectativa de se atingir a emancipação, mas incentivar que vivam cada idade com calma, sem ficar na ansiedade de “quando eu tiver 18 anos…”.

Experiência própria de quem passou muito tempo querendo chegar logo à maioridade, porque aí tudo estaria mais que resolvido: minha futura profissão, minha independência financeira, meu apê dividido com amigas, minha l i b e r d a d e. A verdade é que, quanto mais próxima fui chegando dos 18 (e agora já com 20), mais essas coisas foram parecendo distantes, porque, e aqui invoco mais uma sabedoria ancestral, dessa vez do poeta uruguaio Eduardo Galeano: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.” E crescer é uma utopia.

Não poderia ser diferente: crescer é um processo, uma experiência que não tem fim e não corresponde única e exclusivamente à idade e/ou ao passar do tempo. Crescer vai além de adquirir mais uns centímetros de altura, ou poder tirar carteira de motorista; crescer é sempre e todo o dia, e toda experiência é aprendizado. No entanto, a gente se esquece disso e fica iludida achando que só quando tivermos “x” coisa (insira aqui qualquer coisa característica da vida adulta) significa que finalmente estaremos completas.

A questão que motiva tudo isso é que a infância é muito subestimada e, por sua vez, as crianças também. Por outro lado, há uma glamurização da idade adulta que força o abandono da infância cada vez mais cedo. Podemos ver isso nas atitudes incentivadas pela mídia, sobretudo no que se refere ao público feminino, opressivamente sexualizado prematuramente, por exemplo.

Disso decorre toda uma negativação do universo infantil (só de ler isso já te remete a algo indesejável? então!) e, consequentemente, um esforço antinatural de se negar a infância e apressar a idade adulta. No centro desse conflito encontram-se as adolescentes, apenas saindo da infância mas pressionadas a se livrar tão rápido de qualquer vestígio dela que acabam adotando posturas que não condizem (pelo menos, não deveriam) com esta fase. Outro exemplo disso é o sistema educacional, que exige uma carga cada vez mais pesada de estudos cada vez mais cedo na vida escolar de uma pessoa. É preciso definir sua carreira profissional, aquela que, supostamente, deve-se seguir para o resto da vida, somente aos 17! (Importante ressaltar que essa realidade se aplica principalmente a jovens de classes mais favorecidas).

O que quero dizer com todas essas informações? Que não é preciso apressar o crescer. Aliás, deve-se reconhecer que o crescer acontece o tempo todo e suas experiências quando você teve 8, 9 anos de idade não são menos enriquecedoras ou válidas que as que você terá aos 37. Aceitar que crescer é a utopia que nunca se concretiza e isso é bom! Porque gera movimento e só com movimento somos capazes de mudar.

Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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