6 de abril de 2015 | Edição #13 | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Tempo: lembrança, memória e muita justiça

Ficar pensando no tempo que passou e quanta coisa aconteceu não é um hábito exclusivo de poucos, mas sim, algo universal. Eu, por exemplo, sempre me pego pensando sobre o tempo que passei sem ter uma “consciência negra” ou sobre como foi importante guardar fotos da minha adolescência para ver o quanto mudei, principalmente em termos estéticos. As lembranças (nem todas!) às vezes são um negócio que faz bem para a gente, né?

Mas não é só disso que quero falar hoje; também quero falar sobre memória, sobre ter consciência do passado e sobre como a memória tem um papel importantíssimo na história e na construção de uma sociedade. É ela quem dirá como determinadas coisas e grupos de pessoas serão tratados; ela quem dirá muito sobre nossas referências e experiências como um todo. Um exemplo disso é o jeito que as vítimas da ditadura foram tratadas: em alguns países da América Latina os ditadores e torturadores foram escrachados, enquanto no Brasil viraram nomes de importantes avenidas e escolas.

Também não podemos esquecer de discutir sobre memória individual e coletiva. É necessário saber de onde você veio, ter consciência do seu passado. Você sabe quem foram suas antepassadas? Quais outras dificuldades as mulheres da sua família enfrentaram? É preciso desenvolver a memória e garantir justiça para todas as mulheres que foram esquecidas, marcadas e violentadas.

O título deste texto faz alusão aos que sofreram na ditadura e à comissão da verdade. As minhas antepassadas sofreram demais, mas uma comissão de memória e justiça não foi instaurada para negras assassinadas, muito menos para as nativas indígenas assassinadas. E olha que dizem que um povo que conhece sua história conhecerá as suas mazelas…

A graça de falar do tempo e da memória é perceber que vivemos em uma amnésia estrutural: tudo que falei aí em cima é esquecido, a memória é manipulada e tratada como se fosse apenas um ponto da história, como se não tivesse se arrastado até os tempos de hoje. Assim fica mais fácil alterar essa memória sem enfrentar nenhum tipo de “oposição”.

É necessário refletir sobre o passado, presente e futuro para uma construção pessoal e coletiva da memória para os presos da ditadura, conferindo muito mais justiça aos nossos mortos do passado e do presente.

Andreza Delgado
  • Colaboradora de Escola, Vestibular e Profissão

Andreza Delgado, 19 anos, leonina e baiana da terra do cacau, é estudante de Letras mas não tão assim, gosta de astrologia porque acha que resume metade dos problemas dela com as pessoas, é militante do movimento negro, apaixonada por colocar ketchup em tudo que é comida , fala mais que os cotovelos e acha que vai mudar o mundo.

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