23 de julho de 2015 | Artes | Texto: | Ilustração: Nathalia Valladares
Tenho vergonha de dançar, e agora?

Dançar é algo que faz parte do ser humano. Não importa quem você é ou de onde veio, pelo menos alguma vez na vida você já dançou por puro prazer. E existem vários tipos de dança que a gente faz sem perceber: por se tratar da expressão através do corpo com um auxílio opcional de música, a dança é uma área muito mais ampla do que a maioria das pessoas pensa – e nesse caso, até aquela dancinha de comemoração que a gente faz quando alguma coisa muito boa acontece entra.

Mas a gente sabe como funciona: ao mesmo tempo que parece ser algo supernatural remexer o corpo porque uma música legal tocou, sempre rola aquela insegurança de ser julgada porque o nosso jeito de dançar não é o que os outros classificariam como bonito. Com tantos bailarinos maravilhosos por aí então, vish… chega a dar até vergonha de publicar qualquer coisa que não alcance aquele nível técnico.

O que a gente acaba esquecendo no meio desses pensamentos (ou que pelo menos eu esqueci, quando eles me vieram à cabeça) é que assim como nós, seres humanos, somos variados e únicos da nossa forma, não existe apenas um tipo de dança, porque pessoas diferentes = estilos diferentes. Enquanto algumas são apaixonadas pelo balé clássico com toda sua postura e disciplina, outras se encontram mais em variações como o stiletto, que envolve canalizar sua diva interior e dançar de salto alto.

No meu caso, perder a vergonha de dançar foi um processo bem longo. Quando eu era criança minha mãe me matriculou no balé e eu amava mais que tudo. Ia em todas as aulas, fiz amiguinhas, lembro até hoje como gostava dos alongamentos e tudo mais. Então em um dia, no fim de uma aula, a professora pediu que todas as meninas deitassem em uma roda e depois de nos elogiar muito, explicou que tínhamos uma apresentação marcada no teatro da cidade. Todas as outras meninas ficaram superfelizes e empolgadas, mas eu tinha tanto medo de palco que minha reação foi chegar em casa e dizer pra minha mãe que não queria mais fazer balé. Hoje eu nem lembro se cheguei a contar o motivo, mas eu tava com vergonha de dançar na frente de várias pessoas e de errar.

Mais ou menos doze anos se passaram desde esse incidente e, nesse meio-tempo, meu interesse pela dança, apesar de mascarado, se manteve. Em algumas oportunidades me apresentei em aberturas de eventos no ensino fundamental e médio, mas nada contínuo e ainda com muita vergonha, mesmo que fosse algo que me fizesse muito bem. Quando entrei na universidade, meus amigos mais próximos (dançarinos de street jazz num grupo independente) falavam sobre os ensaios e me mostravam vídeos, e eu ficava pensando: “Poxa, queria muito participar e fazer igual, mas não tenho coragem de ir atrás porque sou muito ruim, certeza que vou passar vergonha.”

Hoje em dia faço parte desse grupo de dança do qual meus amigos me falavam tanto e o meu medo de me apresentar na frente de outras pessoas diminuiu consideravelmente, mas não foi de uma hora pra outra. Eu fui pros ensaios, era MUITO ruim no começo (de verdade, tenho um amigo que me diz até hoje que não tinha nem esperança em mim), mas continuei porque gostava e achava que podia melhorar — e realmente melhorei. Tive a ajuda de pessoas próximas que me apoiaram, e depois que peguei confiança em mim mesma e tirei da cabeça a ideia de que tava velha demais pra isso, decidi voltar ao balé que tinha abandonado aos 6 anos de idade.

Por mais que pareça difícil dar o primeiro passo, lembre-se de que todo mundo começou do zero algum dia, até mesmo aquelas pessoas que parecem já ter saído da barriga dançando. Ter paciência consigo mesma, vivenciar essas novas experiências sem focar em talvez estar fazendo errado — mas sim em estar se divertindo — e se permitir abrem portas que a gente não consegue ver com muita clareza no início, mas que apresentam possibilidades maravilhosas a longo prazo.

No mais, hoje percebi que a coisa que eu mais amava fazer quando tinha uns 13 anos — imitar as coreografias dos clipes da Beyoncé e tentar divar que nem ela jogando o cabelo — acabou se tornando o que eu mais faço hoje, com 20. E você, quem quer ser? 😉

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Luciana Rodrigues
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Artes

Luciana tem 20 anos e é de Macapá, no Amapá, no extremo norte do Brasil. Cursa Letras na universidade federal do seu estado e é apaixonada por artes em geral, sendo a dança, o desenho e a pintura suas favoritas. Sonha em mudar o mundo com a ajuda dos seus gatos e tem certeza de que nasceu, além de índia, sereia de água doce.

  • Camila

    Luciana, adorei o seu texto porque bateu uma identificação forte. Nunca fiz nenhuma dança, mas é uma coisa que sempre gostei e eu costumava dançar por ~hobby~ cazirmã e cazamiguinha da rua quando nova. Se eu dançava bem, eu não sei, mas, honestamente, naquela época eu não tava nem aí para isso. Bom, o fato é que conforme fui crescendo, fui travando também. E por mais que a música seja envolvente e eu sinta vontade de dançar, quando estou na frente dos outros fico só no passinho pra cá+passinho pra lá. Na universidade onde estudo eles oferecem algumas aulas e eu já pensei seriamente em me inscrever, mas desisti pela vergonha. Enfim, é uma coisa que eu tenho muita vontade de fazer e pouca coragem. Sei que esse medo só vai passar quando eu ao menos tentar, mas né… 🙂

    • Luciana Rodrigues

      Super te entendo, claro! É muito difícil passar por cima do medo dos outros te julgarem por dançar mal, por mais que a vontade seja de meter a cara e fazer. Hahahah

      Acho que o principal é ter paciência consigo mesma e focar nas vantagens que isso pode te trazer. Pensa que tu não vai ser a única começando! Boa sorte. :3

  • Suu

    Amei o texto sabe o mais ainda descobrir que a autora é da minha terra!♡

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