20 de outubro de 2017 | Ano 4, Se Liga | Texto: | Ilustração: Guillermina Roboru
The Handmaid’s Tale: NOLITE TE BASTARDES CARBORUNDORUM
História de Margaret Atwood, The Handmaid's Tale voltou a ganhar destaque após a adaptação em série

“Eu estava adormecida antes, foi assim que deixamos acontecer. Quando eles massacram o congresso, nós não acordamos. Quando eles culparam terroristas e suspenderam a constituição, não ainda assim não acordamos. Eles disseram que seria temporário. Nada muda instantaneamente.”

Recentemente, a escritora canadense Margaret Atwood afirmou que se pudesse escolher entre estar errada e o anonimato, e estar certa e a notoriedade, ficaria com a primeira dupla. Ela se referia ao seu romance O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), escrito e publicado na metade dos anos oitenta, e trazido de volta à atenção do grande público depois da estreia de sua fantástica adaptação, que perturba por ser extremamente próxima a alguns aspectos que estamos vivendo hoje. É sobre a adaptação do livro homônimo que vamos falar hoje.

The Handmaid’s Tale é uma história distópica (e esperamos que assim siga) que se passa em Gilead, uma espécie de “novo Estados Unidos”. Os níveis de fertilidade estão em declínio e a solução encontrada é estabelecer um sistema que, no começo da história, vemos como o modo corrente de vida dos personagens que seguimos. A sociedade em Gilead é baseada em uma interpretação extremista da Bíblia, na qual as mulheres férteis (as handmaids, ou aias) são separadas e treinadas para procriarem para as elites inférteis numa cerimônia mensal que nada mais é do que um estupro. Gilead é, assim, organizada de forma a oprimir mulheres com a justificativa de protegê-las (qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência).

Não apenas de handmaids é feita essa nova sociedade – as esposas dos homens que dominam o país são responsáveis pela casa e pela maternagem dos possíveis frutos da relação de seus maridos com as handmaids; Marthas são as empregadas das elites, e as Tias são responsáveis pelo doutrinamento das handmaids. Ah, e claro, existem as combubinas, mas elas estão no submundo, não são parte do ideal extremista que forma Gilead. Os homens da história também são colocados em caixinhas (não fácil pra ninguém). Mas sendo homens em uma sociedade patriarcal, suas caixas são bem maiores, principalmente quando eles são parte da elite que dita a forma de viver. Eles acreditam que estão construindo uma sociedade melhor, mais pura, mas como diz um dos personagens: “melhor nunca significa melhor pra todo mundo. Sempre significa pior para alguns”.

A história é contada entre o presente e o passado: Gilead e o “antes”. Assim como no livro, seguimos a personagem Offred, ou, como era chamada “antes”, June, interpretada por Elizabeth Moss. Somos transportados para o passado em flashbacks que servem como  desenvolvimento de personagem e como explicação para o estado das coisas no presente.

A série é uma ótima adaptação do livro que lhe deu origem, não apenas pela sua fidelidade, mas justamente pelo seu sucesso em transpor a obra de Atwood para as telinhas – da escolha dos atores, à trilha sonora e às mudanças feitas, que ajudam a criar Gilead com maestria e contar uma história que está mais perto da realidade do que gostaríamos de admitir. Apesar de ter sido concebida nos anos 80, a obra segue extremamente relevante – talvez mais do que nunca –, principalmente em vista da guinada conservadora que toma conta do nosso mundo.

Obviamente, nós recomendamos o livro se você ainda não leu, mas você não precisa ter lido a obra original para assistir a essa fantástica e difícil adaptação que, por sinal, ganhou uma quantidade enorme de Emmys, incluindo o de melhor série dramática. Ah, e a segunda temporada está a caminho, para a felicidade de todos!

The Handmaid’s Tale é um seriado necessário, uma distopia para pensar os nossos tempos. No Brasil, a série será transmitida pelo canal Paramount Channel e deve estrear no início de 2018. Por enquanto, pra matar a vontade, você pode ler o livro e assistir ao trailer no aqui.

Deborah Simionato
  • Colaboradora de Se Liga
  • Revisora

Deborah tem 28 anos, é formada em psicologia, mas a paixão pelos livros fez com que ela se entregasse a um mestrado e agora a um doutorado em Literaturas de Língua Inglesa. Gaúcha tentando a vida em Londres, Deborah pode ser encontrada frequentemente devorando livros e xícaras de café, e acredita que a vida seria melhor se fosse um musical cheio de música e dança.

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