18 de maio de 2015 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Thelma, Louise e mulheres que se encontram se perdendo

TW: Estupro

Se o mundo é dos homens, então, às vezes mulheres precisam burlar todas as regras. Thelma & Louise (1991) é um filme norte-americano, dirigido por Ridley Scott e lançado em 1991, que retrata um momento onde tudo muda na vida de duas mulheres “comuns”, a garçonete Louise (Susan Sarandon) e a dona de casa Thelma (Geena Davis). Tudo começa quando elas combinam uma viagem de férias juntas, nas montanhas, e saem de carro. No caminho, a pedido de Louise, elas param em uma boate, ficam bêbadas e Thelma conhece um homem com o qual vai dançar. Quando ela começa a passar mal, sem que Louise veja, o homem acompanha Thelma até o estacionamento (e aí vêm spoilers, pode pular pro próximo parágrafo se não quiser grandes revelações sobre o enredo do filme), onde ele violentamente a ameaça mas é interrompido por Louise, que chega apontando uma arma pra ele. Quando elas viram pra ir embora, o homem as xinga e Louise impulsivamente atira nele. Ele morre imediatamente, e elas saem nervosas com o carro pra tentar descobrir o que vão fazer depois.

Louise é uma mulher claramente independente, em um relacionamento onde não recebe ordens — diferentemente de Thelma, casada com seu primeiro namorado, um homem que a controla e trata mal constantemente. Thelma sequer conta a seu marido que ia viajar, porque ele não a deixaria, mas o incidente pelo qual passam revela que elas são muito mais semelhantes do que poderiam parecer à primeira vista e solidifica cada vez mais a amizade que elas têm. Quanto mais elas fogem e se escondem, tendo a certeza que ninguém acreditaria que Thelma foi agredida e que nada aconteceria nesse sentido — já que as leis não são feitas para protegerem mulheres — quanto mais fazem coisas “erradas”, vamos vendo aumentar exponencialmente a sensação de liberdade que as vai atingindo, sobretudo a Thelma, que toma o controle da situação de uma forma que nunca teria feito antes. Lentamente, elas vão se tornando fugitivas perigosas, segundo a polícia, que mobiliza cada vez mais esforços para encontrá-las.

Todo o decorrer do filme mostra duas mulheres tomando controle sobre suas vidas da única forma que podem: protegendo uma à outra, porque ninguém nunca as protegeu antes, e desobedecendo todas as regras, porque as regras nunca as beneficiaram. O jeito que elas encontraram para transcender o domínio que os homens sempre exerceram na vida delas, seja ameaçando, violentando, desrespeitando ou controlando, é com uma arma. E isso claramente as muda, afinal, essa é a primeira vez que se sentiram vivas. Mesmo que você não ache que violência é a solução pra nada, é bem difícil não sentir uma satisfação enorme em ver duas mulheres realizando o grande sonho de tomar as rédeas de si mesmas. E só por fazerem isso, começam a ser entendidas como grandes ameaças: a polícia mobiliza um verdadeiro batalhão pra persegui-las, contando até com um helicóptero. Mulheres em controle assustam.

Thelma & Louise poderia ser só mais um filme mostrando a vida de donas de casa do Sul dos Estados Unidos, vivendo em contextos extremamente machistas, seguindo aquilo que o mundo espera delas, lavando os pratos, fazendo o jantar e sorrindo em satisfação. Mas, em vez disso, é bem pelo contrário: é uma história de amizade, emancipação e libertação. É a história de mulheres que fazem de tudo pra serem felizes, e no fim escolhem a liberdade, porque se no mundo atual não há espaço pra mulheres livres, então… construiremos um mundo paralelo, feito pra nós e por nós mesmas.

Thais Bakker
  • Colaboradora de Cinema & TV

Thais tem 20 anos e estuda Relações Internacionais e Filosofia. Se sente bem estranha se apresentando, por isso pagou uma coxinha a quem escrevesse isto por ela. Essa pessoa também achou relevante mencionar que ela reclama mais do que o socialmente aceitável.

  • Ariane Oliveira

    Confesso que pelo trailer não tive das melhores impressões. Mas vi e tô apaixonada pelas duas <3

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