10 de maio de 2018 | Ano 4, Se Liga | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
This is America: que tempos são esses?
this is america

Com certeza, você já deve ter assistido o clipe novo de Childish Gambino, alter ego musical de Donald Glover, ator protagonista da série Atlanta. Lançado essa semana, o vídeo é um manifesto antirracista angustiante e alcançou marcas recordistas de visualizações no YouTube.

No decorrer do clipe, ao cantar o refrão da música “This is america/ Don’t catch you slippin’up” (“Isso é a América/ Não seja pego de surpresa”, em tradução livre), Childish saca armas e atira em pessoas inocentes. Esse recurso se repete duas vezes: na primeira, a vítima é um músico sentado numa cadeira com um violão e, na segunda, um coral de cantores com uniforme típico de igrejas protestantes estadunidenses. Em ambos os casos, a arma surge com a mesma agilidade com que ela é retirada de quadro e, rapidamente, a narrativa se emenda em outras ações.

Existe uma série de publicações circulando na internet, reunindo todo o apanhado de referências que foram cuidadosamente pensadas para criar o universo e a narrativa do vídeo. É maravilhoso que tantas pessoas tenham se empenhado em buscar explicar e entender de maneira racional o que se passa nos quatro minutos de This is America.

No entanto, ressoa dentro do meu coração a sensação de que a maior mensagem do clipe é exatamente a angústia que ele provoca quando, ao final, o espectador se dá conta de que foi exposto a uma série de assassinatos num ritmo frenético e não conseguiu compreender nem assimilar nenhuma das mortes direito. Os eventos se sucedem numa velocidade aceleradíssima e são filmados numa série de planos sequências, mal deixando tempo para que o público sequer respire.

O videoclipe é desde sempre a linguagem favorita do hiperestímulo – ou seja, uma quantidade de informações muito maior do que o nosso cérebro é capaz de assimilar. Nos anos 2000, me lembro de assistir nos tops da MTV e da Multishow vídeos em que as mulheres apareciam em trajes minúsculos e os homens ostentavam carros, casas e dentes de ouro, fazendo uma vida abastada e com muito sexo parecer um ideal a ser perseguido.

Esses clipes também eram ágeis. Experimentem assistir um vídeoclipe de 2008 e vocês verão: cada plano não dura mais do que dois segundos. Assim como em This is America, nesses outros vídeos também é difícil adotar uma postura contemplativa e, de fato, perceber todas as informações de cada imagem. Esse é, inclusive, um dos motivos pelos quais muitos dos pensadores do cinema e do audiovisual preconceituosamente se recusam a formular crítica de vídeoclipes, incapazes de levar a linguagem a sério.

No entanto, é interessante perceber a maneira como todo esse frenesi hiperestimulante ganha um propósito no clipe de Childish Gambino. Nada me faz buscar o significado de cada ação porque algo me diz que essa confusão mental com a qual eu me deparei era exatamente a proposta dos realizadores – considerando aqui uma equipe técnica talentosíssima além do protagonista Daniel Glover. Se fosse para eu entender cada coisa, tenho certeza que eles teriam filmado mais detidamente os elementos de maneira individual e de forma mais lenta, talvez fazendo um plano para cada situação ao invés de insistir em retratar o caos meio de longe.

Ainda numa conversa com os clipes-ostentação, vale a pena dar atenção à letra da música de Gambino. Começando com “We just wanna party/ Party just for you” (“A gente só quer festejar/ Festejar só para você”, em tradução livre), os versos seguem falando sobre festa e diversão até a primeira morte. O que preenche o tempo entre um assassinato e outro é um certo hedonismo, parecido com o que é retratado nos clipes de caras com carros e motos e dentes de ouro e mulheres e dinheiro e bens materiais, só que dessa vez a postura party hard está sendo criticada e não exaltada ou apontada como um objetivo.

This is America insere nas mentes contemporâneas a pergunta: como festejar se as pessoas estão morrendo brutalmente? Ao mesmo tempo que percebo cotidianamente uma insensibilidade passível de crítica, eu a compreendo: somos uma geração que busca o prazer constante pois vivemos diante de um abismo. Crise financeira para todo o lado, um cenário político digno do apocalipse, vide Donald Trump, presidente dos EUA. Nem mesmo a esperança de vida pós-morte nós temos, porque, diferente de outros contextos históricos, a religião está profundamente desvalorizada. O que mais existe para se fazer nesse mundo, além de festejar e aproveitar enquanto somos jovens e esse fedor que nos rodeia ainda não nos sufocou?

Ao dar o tiro, Childish diz “Isso é América, não seja pego de surpresa”, mas novamente eu me questiono: como estar sempre pronto para uma violência como essa? Só quem viveu a experiência negra na própria pele sabe o quão tenso um corpo pode estar por ser um alvo constante. E sabe também que, muitas vezes, essa tensão toda não é o suficiente para evitar o pior.

A música repete insistentemente “This is America” e tenho certeza de que ela se refere aos Estados Unidos, mas, quando eu escuto o refrão, não consigo deixar de pensar que aquilo que está sendo retratado no clipe tem muito a ver comigo, no meu contexto latinoamericano-brasileiro-carioca.

Todos os dias, assassinatos, mortes, revoltas, tiroteios, e, antes que eu consiga digerir cada tragédia, mais assassinatos e mortes e revoltas e tiroteios e o meu olhar segue deslizando por cima desse cenário, nunca preparado para um novo disparo – sempre surpreso, meio atropelado pelas circunstâncias. Talvez a América seja aqui e o hiperestímulo não pertença exclusivamente a uma linguagem audiovisual superágil, talvez já esteja entranhado na vida cotidiana. Mesmo sendo uma obra prima, o clipe não traz soluções para a situação hostil em que nos encontramos e apenas constata, com maestria, o horror que tem sido viver na América, onde quer que ela seja.

Ayodele Gathoni
  • Colaboradora de Artes

Ayodele Gathoni tem uns 20 e poucos anos e mora no Rio de Janeiro. Gosta de ver desenho animado, rodar bambolê e confeccionar licores artesanais.

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