14 de fevereiro de 2015 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Clara Browne
Todo caminho é o caminho certo

Ser criança é maravilhoso. Poder brincar, se divertir sem muitas preocupações, confiar que vai sempre haver algum adulto por perto pra te guiar, chamar a atenção se necessário, consertar as besteiras que você faz e se responsabilizar por tudo. Mas, infelizmente, Peter Pan é apenas um conto e ninguém pode ser criança para sempre. E como a vida não vem com nenhum manual de instruções, ao mesmo tempo em que percebemos a realidade à nossa volta, temos que dar nosso jeito de lidar com ela. As situações vão se desenrolando na frente dos nossos olhos, e temos então que decidir o que queremos.

As primeiras decisões que tomamos na vida são, geralmente, mais simples, mesmo que na hora pareçam bem chatas: fazer dever de casa ou brincar na rua? Dormir ou levantar pra tomar banho e ir pro colégio? Prestar atenção na aula ou ficar sonhando acordada, com a mente nas nuvens? À medida em que vamos crescendo e amadurecendo, entretanto, maior fica o peso de tomar decisões. Coisas que antes nos pareciam automaticamente resolvidas por uma força maior (também conhecida como pais), acabam virando responsabilidade nossa e, quando sentimos o impacto do resultado que essas decisões podem ter na nossa vida, a coisa toma proporções inimagináveis.

O filme “Sr. Ninguém”, de 2009, é um exemplo maravilhoso disso. Nele, o personagem principal (Nemo, interpretado por Jared Leto) faz uma reflexão sobre os caminhos que a sua vida poderia ter tomado se ele tivesse feito escolhas diferentes. Quando criança, o medo de tomar decisões erradas o fazia evitar ao máximo ter que tomá-las, e assim ele achava que estava imune às consequências delas. Para si mesmo, ele diz: “Contanto que não faça uma escolha, tudo permanece possível.” Então, ao longo do filme, vemos a vida de Nemo se ramificar em três, e em cada uma os eventos vão tomando direções diferentes, de acordo com as escolhas que ele faz, como morar em lugares diferentes, casar com mulheres diferentes e viver, assim, vidas completamente distintas umas das outras.

A nossa vida funciona mais ou menos assim também. Se existissem universos paralelos, onde pudéssemos acompanhar o desenrolar de cada ação que poderíamos ter feito, existiriam infinitas possibilidades. O momento mais tenso da vida de um adolescente, geralmente, é aquele em que se está terminando o ensino médio e começa a pressão para escolher o que se quer fazer para o resto da vida. Como assim eu tenho que decidir agora uma coisa tão importante? Não dá pra esperar? O peso de tomar a decisão errada cai sobre nossos ombros e ficamos com aquele sentimento de que vamos estragar tudo se não pensarmos e calcularmos tudo direitinho, nos mínimos detalhes. A pressão para fazer as coisas certas para ser feliz é gigantesca.

Nemo diz: “Antes ele era incapaz de fazer uma escolha porque não sabia o que iria acontecer. Agora, que ele sabe o que vai acontecer, é incapaz de fazer uma escolha.” Na nossa vida, infelizmente, não podemos saber onde nossas escolhas vão nos levar. O momento da decisão vai ser sempre complicado, e o medo de escolher o caminho errado às vezes nos paralisa. Mas filmes são limitados porque precisam seguir uma narrativa coerente e, na vida real, infortúnios acontecem diariamente sem que nem tenhamos feito algo. Gosto de acreditar que a felicidade não se encontra na descoberta de que fizemos tudo certo, mas sim no momento em que percebemos que as partes que “deram errado” nos ajudaram a construir o que somos hoje.

Não podemos esperar que todas as escolhas que fizermos nos tragam felicidade imediata, nem que correspondam às expectativas de outras pessoas. Em alguns momentos, algo que te faz imensamente feliz pode deixar alguém que te ama pra baixo, e vice-versa. Acontece, e tudo bem. O segredo é perceber a imensa virtude que é ver beleza nas falhas, e ter jogo de cintura para contorná-las – o que é muito mais interessante do que almejar uma narrativa perfeita.

“Todo caminho é o caminho certo. Tudo poderia ter sido outra coisa, e seria um elemento igualmente importante.”
Nemo Nobody, citando Teenese Williams

Luciana Rodrigues
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Artes

Luciana tem 20 anos e é de Macapá, no Amapá, no extremo norte do Brasil. Cursa Letras na universidade federal do seu estado e é apaixonada por artes em geral, sendo a dança, o desenho e a pintura suas favoritas. Sonha em mudar o mundo com a ajuda dos seus gatos e tem certeza de que nasceu, além de índia, sereia de água doce.

  • Ivani Aparecida Stanchi

    Nossa! Li sobre vcs hj na Folha de SP e imediatamente senti uma conexão rsrsrs! Já partilhei com minha filha de 17 anos. Sabe, Luciana, VC me fez lembrar de mim com a sua idade e perceber que esse assunto não muda muito aos 50 anos onde me encontro agora! Amei a revista! Je suis Capitolina!!!

  • Alice

    Adorei!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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