25 de outubro de 2015 | Ano 2, Edição #19 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Todo mundo cresce igual?

Mariana cresceu morando com sua mãe e seus irmãos mais novos em uma pequena casa na periferia de sua cidade. Sua mãe, empregada doméstica, saia cedo pra botar o café da manhã da família para quem trabalhava. Mari colocava o café da manhã para si e para seus irmãos, os levava para a escola e ia estudar também. Quando se formou na escola, Mari já não tinha mais muito tempo, os afazeres da casa e a responsabilidade pelos irmãos eram demais e sua mãe precisava de ajuda.

Stephanie é jovem mas já conheceu muito mais desse mundão do que muita gente bem mais velha do que ela por aí. Mora com a mãe e o pai, e os três têm algo em comum: amam viajar. Férias para ela quer dizer fazer as malas e conhecer o mundo. Mas não só as férias. Stephanie fez intercâmbio durante o ensino médio e viajou para um curso de línguas antes de iniciar a faculdade por aqui.

Jéssica já viveu em alguns lugares diferentes mas não porque quis. Ela morava em uma comunidade em uma metrópole que vivia muitas cidades diferentes em si. As transformações daquela cidade faziam com que o espaço que era dela ficasse cada vez menos acessível. A sua comunidade, agora, é dos gringos e da Copa do Mundo. Ela teve que ir para outro lugar e dar um jeito de se adaptar.

Cássia viveu a infância e adolescência um pouco longe dos centros urbanos. Com seus pais, aprendeu a produzir a comida com que se alimentava e a usá-la como fonte de renda para a família. Estudou em uma pequena escola perto de casa, na zona rural, e hoje tenta uma vaga em uma grande universidade. Cássia quer estudar direito.

Quando eu era criança, tinha um livro que eu lia muitas e muitas vezes antes de dormir, eu adorava. Ele mostrava a vida de diversas crianças como eu, mas de vários lugares do mundo. Falava sobre seus hábitos, suas culturas, seus bens, seus sonhos. Onde moravam, seus melhores amigos, as roupas que usavam e suas comidas preferidas. Eu sentia como se conhecesse, de fato, cada uma delas e suas (breves) histórias. Como se eu pudesse descobrir vários mundos a cada página que virava.

No livro e na minha trajetória de vida, descobri que a vida não é igual pra todas nós. As pessoas vivem histórias diferentes e não só devido a suas escolhas ou conquistas. Vivem de formas diferentes pois o contexto lhes faz ser assim. Ser mulher é viver diferente que viver homem. Ser hétero é viver diferente que sendo lésbica ou bisexual (que também são vidas diferentes entre si). Ser cis ou trans. Ser pobre ou rica. Ser branca ou negra. Essas muitas estradas que seguimos são traçadas antes de passarmos por elas e são assim porque a sociedade que vivemos nos vê, trata e nos faz relacionar de formas muito particulares, dependendo de algumas das nossas características. Isso faz com que uns tenham mais privilégios que outros, mais oportunidades, mais possibilidades de estradas a seguir.

A vida, de todo jeito, não tem como ser absolutamente planejada. As coisas diversas que podem acontecer conosco, boas ou ruins, ajudam a moldar quem somos. Sem esquecer do lugar que crescemos, a cultura em que estamos inseridas. Viver no sul ou no nordeste, viver no Brasil ou na Europa, ou na África, ou nos EUA. Viver no Rio ou em São Paulo, ou no Acre, ou no Paraná. Nossos hábitos e formas de lidar com as coisas, muitas vezes, são convenções sociais e mudam de lugar pra lugar, de cultura pra cultura, fazendo com que a gente lide com as mesmas coisas de formas diferentes. A gente até dá nomes diferentes pra coisas iguais pelo Brasil afora!

Idade, crescimento e maturidade são conceitos que, vira e mexe, se misturam e confundem. Mas se somos e crescemos tão diferentes, como pode o tempo que vivemos definir tanto os nossos entendimentos sobre o mundo? As nossas vivências (pré-definidas socialmente ou não) vão nos dando mais experiências em alguns aspectos e menos em outros. Claro que quanto mais idade a gente tem, mais coisas a gente pode ter vivido, mas o quê? Talvez a Stephanie fique meio assustada em saber que a Mariana nunca entrou em um avião porque pra ela isso é normal. Mas Stephanie não tem ideia da responsabilidade que é ajudar a criar duas crianças e cuidar da casa quando se ainda é tão jovem, porque ela simplesmente não precisa e não é incentivada a fazer isso. A Cássia sabe muito bem de onde vem a comida que ela e que as meninas da cidade comem (afinal, se o campo não planta, a cidade não janta!), mas talvez seja um pouco assustador pra ela ter que pegar diariamente aqueles três ônibus lotados que a Jéssica pegava pra ir pra escola.

Essas coisas não querem dizer que uma é mais ou menos madura que a outra. Quer dizer que elas desenvolvem a sua maturidade em aspectos diferentes da vida. Isso, porém, não é desculpa para fechar os olhos ao que acontece ao redor; é importante que a gente entenda que somos diferentes e quais os motivos para que seja assim. A nossa sociedade tenta estabelecer muitas regras e padrões pra gente e para o nosso crescimento e tenta determinar quais experiências nos fazem melhor ou mais madura. O que é maturidade ou crescimento, então? É entrar pra faculdade ou é saber sobreviver ao que nos pode acontecer?

As personagens das histórias contadas lá em cima são fictícias, porém, inspiradas em pessoas reais que eu conheço ou poderia conhecer. Hoje todas as personagens tem 20 anos. Cada um desses 20 anos vividos de forma diferente. Cada um desses 20 anos com aprendizados e ensinamentos diferentes. Cada um desses 20 anos construindo mais 20, 30, 40 anos que serão, também, únicos. Mas se há algo em comum entre cada uma dessas histórias é que podemos e devemos sempre aprender com as pessoas e realidades diferentes das nossas. Enxergar a sociedade que vivemos: desigualdades, hierarquias, opressões e privilégios. Aprender sobre experiências, ações, reações, sobre como lidamos de várias formas com cada situação e que isso não é só porque somos únicos enquanto indivíduos mas porque muita coisa fez com que fosse assim.

Isabela Peccini
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão

O nome é Isabela, mas os apelidos são variados, sintam-se à vontade. Quase arquiteta e urbanista pela UFRJ. Mas não se engane, não vou fazer a sua casa ou a decoração da sala. Objeto de estudo: cidade, sempre pelos olhos da mulher. A minha cidade? Rio de Janeiro, uma relação de amor e ódio. Militante no movimento estudantil desde que me lembro e feminista porque não dá pra não ser, o feminismo te liberta!

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Não tenho palavras para descrever como amei esse texto

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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