24 de julho de 2014 | Cinema & TV, Edição #4, Literatura, Tech & Games | Texto: e | Ilustração:
Todo o tempo e o espaço: viagens em ficção científica
Ilustração: Laura Viana.
Ilustração: Laura Viana.

Ilustração: Laura Viana.

Texto de Sofia Soter e Vanessa Raposo

Todo o tempo e o espaço; todo e qualquer lugar; toda estrela que já existiu. Por onde você quer começar?

Ficção científica é um tipo de ficção especulativa – ou seja, uma espécie de narrativa de fantasia que trabalha com ideias imaginadas e possibilidades; no caso específico, com possíveis inovações ou descobertas científicas e tecnológicas, imaginando o mundo afetado por essas coisas. Uma das coisas mais legais desse tipo de histórias é como elas possibilitam que a gente sonhe com o que hoje é improvável, mas não completamente impossível. Na verdade, muito da ficção científica dos fins de século XIX e começo dos anos XX ajudou a dar ideias para invenções que hoje fazem parte de nosso dia a dia. De certa forma, as ficções científicas são uma maneira de imaginar o que o futuro vai trazer para nós – com aquela liberdade maravilhosa de não precisar acertar tudo em cheio, claro.

Na ficção científica, as histórias podem falar de mundos futurísticos, realidades alternativas, mundos paralelos, planetas desconhecidos, e alguns dos temas mais populares são viagens: no tempo ou no espaço (às vezes as duas ao mesmo tempo, como no caso da série de TV Doctor Who). E, seja na vida real ou na literatura, tem coisa mais legal do que viajar?

Wibbly wobbly time-y wime-y: viagem no tempo

A noção de viagem no tempo é complexa e envolve uma série de possibilidades, teorias, consequências e paradoxos. A ideia, em geral, é que o movimento no tempo não difere tanto de um movimento no espaço, como se o tempo em si fosse uma dimensão espacial. Não é à toa que algumas pessoas se referem ao tempo como a “quarta dimensão”. A ideia de uma máquina capaz de fazer voltar e avançar no tempo, portanto, não é assim tão inesperada. Afinal, se criamos carros, aviões e elevadores para nos deslocar por largura, altura e profundidade (as três dimensões do famoso termo “3D”), por que não pelo tempo? Muitas vezes, vemos isso acontecendo em filmes e livros com a ajuda de máquinas fantásticas, veículos que, por uma ou outra explicação pseudocientífica da fantasia, são capazes de transpor o limite da linearidade temporal que conhecemos.

O principal clássico de ficção científica que trata do tema é o romance A máquina do tempo, de H.G. Wells, escrito em 1895. E, se você já acha que esse livro é velho, prepare-se para uma surpresa: a viagem no tempo está presente em livros desde pelo menos o ano 700 a.C., com o Mahabharata, texto da mitologia hindu, que ainda usa o combo viagem no tempo + viagem no espaço, pois o protagonista, o Rei Revaita, viaja para um outro mundo no qual o tempo passa de forma diferente e, quando volta, tempo demais passou na Terra! Desde então, o tema foi reproduzido, retrabalhado e retransformado de inúmeras formas, em livros de fantasia, filmes de super-heróis (como o mais recente X-Men), quadrinhos, e até em comédias românticas (o filme De repente 30, por exemplo, aplica a ideia a uma garota de 13 anos que é magicamente transportada para sua vida aos 30).

Em todas essas invenções e reinvenções, como era de se esperar, a viagem no tempo acontece de formas diferentes, sendo duas delas as principais. Em um tipo de narrativa, os personagens que viajam no tempo vão para outro momento como se estivessem mesmo viajando, e veem tudo que está acontecendo, inclusive eles próprios daquela época (como o que acontece, por exemplo, em Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban). No outro tipo, os personagens vão para sua própria vida em outro ponto no tempo, normalmente sem saber exatamente onde estão ou como chegaram lá, especialmente se vão para o futuro (que acontece em De repente 30 e X-Men, por exemplo).

Cada uma dessas formas de viagem no tempo tem suas complicações e consequências. No primeiro caso, é recorrente a necessidade dos personagens de tomar cuidado para não alterar nada muito grande em suas próprias vidas ou nas vidas alheias, especialmente quando viajando para o passado, pois é como se eles estivessem invadindo uma realidade a qual não pertencem. No segundo caso, a falta de conhecimento total – no caso de uma viagem para o futuro –, ou o excesso desse conhecimento – numa viagem para o passado –, tornam a experiência difícil, pois as decisões que os personagens tomam quando em sua forma em outro ponto do tempo transformam sua própria história, e não é possível medir os resultados de cada escolha. De qualquer forma, o maior problema da viagem no tempo costuma ser baseado no que se chama de “efeito borboleta” (inclusive, tem um filme de ficção científica com esse nome que trata exatamente desse problema): cada pequena escolha, cada pequeno detalhe (como o bater de asas de uma borboleta), tem consequências que não podemos prever, então se você viaja no tempo para o passado e, por exemplo, esbarra numa pessoa, isso pode mudar um pouco a vida daquela pessoa, que vai mudar um pouco a vida de outra pessoa, e assim por diante, e os resultados podem ser catastróficos.

A partir disso, os riscos são muito variáveis e complexos, tudo dependendo da forma de viagem no tempo e da base teórica usada. Porque, afinal, como é algo que (por enquanto) só existe no campo da especulação, existem grandes diferenças sobre como essas coisas funcionam. A viagem pode ser instantânea, com o personagem estando um segundo no presente e no segundo seguinte no futuro, ou gradual, como uma real viagem mesmo, com um trajeto até o ponto temporal desejado. A história e a linha do tempo podem ser fixas ou maleáveis, e podem ainda ser maleáveis e ter pontos fixos, ou seja, uma viagem para o passado pode mudar os acontecimentos, mas de forma que o resultado final seja sempre o mesmo (isso, em geral, vem ligado a noções de destino). Todas essas variações são interpretações diferentes de teorias vigentes, e mais muita fantasia e especulação em cima delas.

Como comprovou Einstein lá no comecinho do século XX, com sua teoria da relatividade, a ideia do tempo passar de forma diferente do fluxo “normal” a que estamos acostumados não é só coisa da ficção. É uma teoria bem mais complexa do que o que vamos explicar aqui, mas basicamente, ela diz o seguinte: quanto mais próximo da velocidade da luz (a maior velocidade conhecida) um corpo se move, mais devagar o tempo passa para ele. Digamos que você viaje para o espaço. Sua nave não se desloca na velocidade da luz, mas ainda assim é bem, bem rápida. Você dá uma volta pelo espaço, por, digamos, dois dias e volta para a Terra. Para você, o tempo pareceu fluir normalmente; mas quando você voltar para a Terra provavelmente vai tomar uma baita surpresa, pois o que para você foram só dois dias, para quem ficou aqui podem ter sido anos!

Essa teoria da relatividade de Einstein é também a base para justificar a possibilidade teórica de buracos de minhoca (ou wormholes), que seriam, basicamente, atalhos no espaço-tempo, como túneis que permitiriam atravessar de um ponto no tempo e no espaço para outro. Ou seja: seria possível, através deles, viajar no tempo, ou mesmo entre universos! Não há nenhuma prova de que isso existe na prática, e existem divergências teóricas a respeito (a física quântica, por exemplo, questiona muito essas ideias), mas o fenômeno é investigado e estudado na física (foi, inclusive, teorizado pelo próprio Einstein).

Agora, embora seja comprovado que é possível avançar no tempo (de certa forma), voltar são outros quinhentos. Então, a menos que queira correr o risco de ir parar no século XXXI sem uma passagem de volta, talvez você prefira ficar com os livros e filmes por enquanto.

Alguns livros, filmes, jogos e séries que falam de viagem no tempo: Tru Calling, Doctor Who, X-Men: Dias de um futuro esquecido, Questão de tempo, Looper, Meia-noite em Paris, Te amarei para sempre, Star Trek (2009), Click, De repente 30, Efeito borboleta, Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban, Donnie Darko, Feitiço do tempo, De volta para o futuro, O exterminador do futuro, Outlander, Slaughterhouse-Five, Bioshock Infinite, Chrono Trigger, The Legend of Zelda: Majora’s Mask.

Onde nenhum homem jamais esteve: viagem no espaço

Como a viagem no tempo, a viagem pelo espaço é um assunto tratado na ficção desde muito antes do que se imaginaria; mas, diferente da viagem do tempo, a viagem pelo espaço é, pelo menos em parte, uma realidade. Com a chegada do homem à Lua na década de 1960, a perspectiva de ficção científica sobre esse tipo de viagem mudou um pouco, pois a realidade mais palpável e possível trouxe o assunto ainda mais à tona, e permitiu que ele se desenvolvesse com mais certeza e afinco.

As viagens interestelares, interplanetárias ou intergalácticas frequentes em histórias de ficção científica em geral exploram também a possibilidade de extraterrestres, vida inteligente fora da Terra. O que é curioso é que normalmente esses extraterrestres se assemelham, de certa forma, aos humanos – fisicamente e socialmente –, e essas sociedades de aliens são frequentemente utilizadas como alegorias para algumas sociedades terrestres. Jornada nas estrelas, uma das mais conhecidas franquias de ficção científica, por exemplo, segue grupos de uma frota interestelar diplomática e de exploração que viaja pelo espaço descobrindo novas formas de vida e resolvendo conflitos; parece bem padrão, até pensarmos que ela surgiu em 1966, no meio da Guerra Fria, e que muito de seu conteúdo era de um discurso pró-ideais americanos (e, ao mesmo tempo, um discurso de tolerância e direitos civis). Outras histórias, como Guerra dos mundos, também de H.G. Wells, trabalham com a ideia do alienígena invadir a Terra com uma mentalidade destrutiva e conquistadora. Vale lembrar que a época em que escreveu o livro (1898), o mundo vivia o auge do imperialismo britânico, e Wells, como um bom observador de seu tempo, usou a ideia de ETs invasores como uma metáfora destrutiva de sua própria sociedade. Ouch.

De uns tempos para cá, muitas histórias deixaram de trabalhar com a ideia do alienígena como necessariamente um “invasor maligno” ou como o “exótico a ser explorado”. Algumas histórias vão, literalmente, além: elas se passam no espaço, envolvem extraterrestres, sociedades diferentes e alternativas ou futuristas, mas agem como se aquilo já fosse descoberto e conhecido. Nessa categoria se encaixa, por exemplo, outra franquia de ficção científica muito conhecida: Guerra nas estrelas. (Tem gente que diz que Guerra nas estrelas não é ficção científica por ter pouco elemento “científico”, e que seria mais uma “fantasia espacial”. Mas, shhh…) Outro exemplo, esse do terreno dos videogames, é a trilogia Mass Effect, que coloca a humanidade na posição de lanterninha de uma sociedade intergaláctica ultradesenvolvida e, no geral, pacífica. Nessas histórias, muitas vezes fica no ar a ideia de que cooperação entre sociedades é mais interessante do que a conquista – uma noção bastante contemporânea.

E, acredite ou não, hoje a possibilidade de existir vida em outros planetas é tratada com muita seriedade pelos astrônomos! A ciência tem até nome técnico: astrobiologia; isso é, o estudo das condições que poderiam possibilitar a formação de vida fora da Terra, inteligente ou não. Pesquisas no campo são feitas desde a década de 1960 (um dos pioneiros é o astrônomo Frank Drake), mas só de uns anos para cá é que estão sendo levadas a sério.

Apesar de viajar pelo espaço ser uma realidade possível para alguns, e as possibilidades de vida em outros planetas estarem sendo estudadas, fica a mesma dica de antes: por enquanto, é mais seguro se ater à ficção.

Lista de filmes, livros, séries e jogos que falam de viagem no espaço: Jornada nas estrelas, Guerra nas estrelas, Doctor Who, Battlestar Galactica, Alien – o oitavo passageiro, Contato, Gravidade, O guia do mochileiro das galáxias, Mass Effect, FTL: Faster than Light, Star Fox, Extant, Adaptation & Inheritance.

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

Vanessa Raposo
  • Coordenadora de Tech & Games

Vanessa é carioca, mas aos 25 anos sente que o mundo é grande demais para se pertencer a só um lugar. Por isso, passa boa parte do tempo em paisagens imaginárias e planejando suas próximas viagens - que podem ou não acontecer (“As passagens pra Plutão ainda estão disponíveis, moço?”). Gosta de filmes da Disney e de musicais mais do que dizem ser aconselhável para sua idade. Quando não está pseudofilosofando sobre o papel dos videogames na cultura pop, pode ser encontrada debruçada sobre seu laptop, arrancando os cabelos por alguma história que cisma em não querer ser escrita. 

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.