21 de fevereiro de 2015 | Edição #11 | Texto: | Ilustração:
Todos os caminhos levam ao Bom Retiro
Rua da Graça x Rua Lubavitch

O Bom Retiro já recebeu toda sorte de imigrantes. Vieram judeus que fugiam do holocausto, europeus que fugiam da guerra, armênios que fugiam do genocídio. Depois chegaram coreanos e chineses, também procurando um lugar um pouco mais calmo que seus países de origem, e, mais recentemente, bolivianos e peruanos em busca de trabalho além-fronteiras.

Não cheguei ao bairro vinda de outro país, mas por lá também me senti estrangeira: aos 15 anos, tinha saído poucas vezes sozinha da minha região da cidade, uma das pontas da zona leste, até que resolvi procurar outra escola para cursar o ensino médio. Assim, fiz as malas para minhas viagens diárias de metrô e me mudei também para o centro. Ao chegar lá, me apaixonei completamente, e a paixão continua intensa até hoje, quando, já tendo saído do ensino médio há um tempinho, voltei ao bairro para trabalhar.

Este é um lugar onde grupos aparentemente fechados se reunem em torno de sua identidade, suas saudades e suas comidas (boa de garfo que sou, devo dizer que isso foi o que ganhou uma boa parcela do meu coração), e, ao mesmo tempo, se intersectam, seja na paisagem urbana e humana, nos espaços de cultura que existem pelo bairro ou nas prateleiras dos mercados onde chocolate kosher divide espaço com salgadinho coreano. No Bom Retiro, muitos mundos formam um só, e foi isso que o editorial fotográfico dessa edição tentou registrar:

 

O que visitar:

Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, 363) – Oferece cursos incríveis, principalmente em áreas artísticas, que são gratuitos e normalmente têm inscrições semestrais. Além disso, com um pátio enorme nos fundos, é um dos espaços mais gostosos da cidade para se passar a tarde fazendo nada.

Casa do Povo (Rua Três Rios, 252) – Não tem programação fixa, mas é sede de diversos eventos superlegais, como feiras de zines e mostras de filmes.

Arquivo Histórico de São Paulo (Praça Coronel Fernando Prestes, 152) – esse é pras geonerds que gostam de saber mais sobre a cidade. Lá você encontra a planta de qualquer edificação regulamentada que exista na cidade, além de poder pesquisar registros de imigração e outras coisas legais do tipo.

Parque da Luz (Praça da Luz, s/n)- é um pulmãozinho verde no meio do centro, e conta com o acervo externo de esculturas da Pinacoteca. Bom lugar para se fazer um picnic emergencial.

Lambes pela rua“Inside Out” é um projeto colaborativo idealizado pelo fotógrafo francês JR e realizado em São Paulo  pela Casa do Povo que retratou quem vive, seja morador ou frequentador, no Bom Retiro e o resultado foi espalhado por diversos muros pelo bairro.

 

Onde comer:

Burikita (Rua Três Rios, 138) – Para provar doces incríveis do leste europeu, e a especialidade do lugar, a burikita que dá nome ao estabelecimento, um salgado folheado que pode ser recheado com várias coisas – o meu preferido é o de batata.

Bellapan Bakery (Rua Prates, 547) – Padaria coreana, deliciosa pra sentar e jogar conversa fora. Peça o choux de chocolate, é baratinho (R$1,50) e delicioso, tipo uma carolina com recheio geladinho de creme achocolatado. O pão de curry (R$3,50), que tem uma massa molinha e recheio de vegetais meio picante, provavelmente entra na lista “dez melhores coisas que já comi na vida inteira”.

Mercadinhos orientais da rua Prates – provocam aquela sensação incrível de “entrei em um vortex e sai em outro país”, já que existem muito mais rótulos em coreano e chinês que em português. Eu costumava brincar de comprar alguma coisa que não fizesse ideia do que era e descobrir comendo, mas isso é pros corajosos (sendo “corajosos” um eufemismo para “sem noção”). Na dúvida, vá de sorvete, raramente será uma surpresa desagradável.

Delishop (Rua Correia de Mello, 206) – Comida tradicional judaica. Nunca comi os pratos principais, que são um tanto caros, mas o pudim de caramelo é grande, absurdo de bom e tem um preço ok – algo em torno de 6 reais, mas dá pra dividir com uma miga.

Papai Halim (Rua Ribeiro de Lima, 516) – Comida árabe por quilo e esfirras deliciosas no balcão. Vá, sempre que puder, de esfirra de zaatar, é uma coisa de outro mundo de tão bom.

 

Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

  • Nilzeth Gusmão

    Gostei do texto. Todas as dicas gastronomicas eu reitero, são otimas. Adoro Bom Retiro.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.