24 de março de 2016 | Ano 2, Edição #24 | Texto: | Ilustração: Ana Maria Sena
Tradição oral e a preservação de culturas
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A forma mais antiga de se conhecer histórias é através da oralidade, a história ouvida pela sua avó, cuja sua bisavó contou-lhe e que hoje sua mãe lhe conta. Talvez não tenha nenhum registro escrito, você não irá até sua estante pegar um diário e ler em voz alta as histórias de centenas de anos atrás, mas nem por isso você deixará de conhecer e encantar-se por aqueles mitos, contos, ritos e ensinamentos. Talvez, naquela época sua bisavó sequer soubesse escrever, mas não é por isso que lhe faltavam as palavras e, não por isso sua história não era ouvida e repassada por gerações. A verdade é que, para conhecermos uma história não precisamos da letra (escrita), mas sim da palavra (falada). Maria Joaquina da Silva, ou Dona Fiota, disse isso durante um seminário sobre línguas faladas no Brasil, realizado em Brasília em 2006. Dona Fiota, como é conhecida, vive em Tabatinga, uma área quilombola em Minas Gerais e, o discurso em questão foi feito em Gira de Tabatinga, uma língua afro-brasileira que costumava ser falada nas senzalas de fazendas do interior de Minas Gerais. Essa era uma das maneiras que os escravos da região tinham de se comunicar sem que os senhores de engenho pudessem entender.

A tradição oral tem a função de preservar histórias, de garantir às novas gerações indígenas ou afro-brasileiras o conhecimento de seus antepassados. Para muitos grupos a oralidade é a única forma de resgatar e preservar sua ancestralidade. Hoje, mais de um milhão de brasileiros não possuem o português como sua língua materna. Temos mais de 200 línguas em nosso território, onde muitas são indígenas e não possuem qualquer tradição escrita. Essas línguas aos poucos vêm se perdendo. A cada ano a preservação pelas novas gerações tem se tornado um desafio maior. Atualmente, milhares de brasileiros com ancestrais afro-brasileiros e indígenas desconhecem sua própria história ou acreditam não ter uma de fato.

Quando nossas histórias não estão em livros, quando os únicos momentos em que escutamos falar de nossos ancestrais em nossas escolas são quando: “Os europeus chegaram ao Brasil e…”, “Milhares foram mortos…” ou “Tantos foram escravizados…” é compreensível acreditarmos que nós não carregamos uma história para além de genocídios e sofrimentos, pensamos que nossos ancestrais não têm nada a nos ensinar… Mas eles têm e já vem nos ensinando há muito tempo, não apenas para nós (afro-brasileiros e indígenas) mas para toda uma sociedade. O conhecimento e práticas religiosas, o uso de plantas medicinais, o cultivo do alimento, combate às pragas, as danças, as histórias, a pesca, caça, tudo isso nos foi passado através da oralidade, não existem livros que nos expliquem como é a reza que nossa bisavó fazia ou o poder da planta que ela utilizava, mas nem por isso desconhecemos.

A tradição oral e seus ensinamentos são tão importantes e de tantas formas que, alguns estudos nos mostram não apenas sua necessidade no conhecimento cultural, mas também no aprendizado de diversas áreas, como por exemplo na agricultura:

“A mandioca foi domesticada pelos índios há quatro mil anos, segundo hipóteses dos arqueólogos.” (LATHRAP, 1970).

“Durante pelo menos quatro milênios através de experimentação genética, os índios vêm diversificando e enriquecendo a espécie. Só na região do Rio Uaupés (AM), entre os índios Tukano, foram identificados 137 cultivares diferentes de mandioca pela antropóloga Janet Charnella. A preservação, o controle e as técnicas de cultivo e extração do veneno da mandioca vêm sendo transmitidos eficazmente pelos horticultores indígenas através da tradição oral.” (CHERNELLA, 1986).

Quando pensamos nos povos afro-brasileiros, a preservação da tradição oral como forma de ligação com nossa ancestralidade tem papel fundamental, tendo em vista um país como o Brasil, onde mais de 50% da população é composta por negros. O reconhecimento de nossos ancestrais como um povo com riquezas culturais é necessário, é também uma forma de resistirmos e sobrevivermos. Esse resgate talvez seja o grande segredo para preservação da memória dos povos. Quando conhecemos a história de nossos ancestrais conseguimos sentir orgulho de nossa trajetória, orgulho de todas as lutas que traçamos para chegarmos aqui e, com esse orgulho e conhecimento nos tornamos agentes da memória, nos tornamos responsáveis por não deixar que esse conhecimento morra, somos responsáveis por transmiti-lo e mantê-lo vivo.

A tradição oral não se apresenta somente em formato de contos e mitos. Canções e rezas também fazem parte da preservação histórica de povos indígenas e afro-brasileiros. Quando pensamos em terreiros compreendemos a importância histórica que, por exemplo, rezadeiras e curandeiros possuem no resgate do poder da fé através da palavra. O conhecimento de vida e da natureza dessas pessoas, não só auxiliam os que lhe procuram com dores físicas, mas também psicologicamente e, essa cura deve ser valorizada, a cura pela palavra e pela fé, a cura milenar.

Nesse cenário, é incontestável o poder da palavra falada. É através da oralidade que povos constroem sua cultura, é através da palavra que um indivíduo se torna capaz de construir sua identidade cultural. Essa tradição tem como objetivo não só o repasse de histórias, mas também a construção cultural de um povo, a criação dentro de uma coletividade da importância de cada história, a importância das percepções individuais e repasse das mesmas, através da tradição oral é possível a construção dos povos de tempos em tempos e esses valores, a tradição do coletivo, a ancestralidade e a palavra não devem jamais deixar serem silenciados ou esquecidos.

Fabiana Pinto
  • Colaboradora de FVM & Culinária

Fabiana Pinto, negra e carioca. Graduanda em Nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro em tempo integral e, escritora de suas percepções e experimentações do mundo em seu tempo livre.

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