26 de dezembro de 2014 | Culinária & FVM | Texto: | Ilustração:
Tradições abeguernes – e salada verde de maionese da tia

        Meu pai é o segundo filho de um casal que além dele teve mais cinco filhas. Ele veio bem em seguida da minha tia mais velha, acho que um ano só de diferença. Já pras as mais novas a cada filha a diferença aumentava, e minha tia caçula é uns oito anos mais nova que a ex-caçula. Então quando eu era bem pequena minhas tias em geral eram bem jovens e o natal ficava todo por conta da minha avó. Todas as comidas eram feitas por ela, assim como a decoração e todos se reuniam na sua casa.
Conforme eu fui crescendo, também foram as minhas tias, e pouco a pouco as responsabilidades do natal foram sendo distribuídas entre os filhos de vovó e vovô. Eu não lembro exatamente quando, mas algum ano a locação do natal passou da casa da minha vó pra casa da minha tia mais velha e as comidas passaram a ser no esquema “cada um traz uma coisa”.
Essa transição das responsabilidades do natal vem acontecendo há um bom tempo, mas eu só tive maturidade suficiente pra percebê-la quando eu tinha uns 15 anos.  E lembro que nesse natal eu virei pra minha irmã de canto e disse “alguma hora o natal vai passar pra gente. Como a gente vai fazer?! A gente não sabe cozinhar todas essas delícias”. Minha irmã -minha ídola, que sempre é incrivelmente precisa e terrena quando eu começo a ficar toda aérea e surtada- calmamente respondeu “alguma hora a gente vai ter que aprender, daí elas ensinam pra gente”.
Nesse mesmo dia eu fiquei me imaginando com uns 30, minha irmã com trinta e tantos, minhas tias com seus sessenta, meus avós velhinhos, meu pai e minha mãe velhinhos, algumas crianças, talvez, e a mesa de natal com exatamente a mesma comida que eu estava comendo naquele momento. O perú da minha vó, o pernil da minha tia, a maionese e o couscous marroquino da minha tia, o arroz com passas (cara de “argh” odeio arroz com passas). Eu achava que o natal era sobre tradição, sobre uma geração passando conhecimentos pra outra, e essa seguindo tudo à risca, porque afinal, sempre foi assim, então assim é o certo e tem que se manter igual, se não,  não é natal.
Só que pra falar a verdade, eu só sei dos natais na casa da minha avó por conta das fotos. Na minha cabeça, o natal sempre foi do jeito que o natal sempre foi e é até hoje, ou quase,  por que depois,  há uns três anos, ele voltou a mudar…
Algum dia eu lembrei do sorvete de coco com calda de manga, que sempre era sobremesa. Eu e minha irmã não gostávamos, e acho que eles mudaram por nossa causa. Mas isso eu era bem pequena,  só percebi a mudança bem depois. Junto disso, eu lembrei que, antes, quem fazia a maionese era minha avó e a dela era aquela mais comum de cenoura, batata, vagem e maçã (cara de “argh” odeio fruta na salada).
E então, eu percebi, que a tradição na verdade não era bem assim. Uma geração, na verdade, passa pra outra o que sabe de melhor e a seguinte, bom, a seguinte absorve todo o conhecimento possível e se emprenha pra dar um passo além.
A receita de hoje é natalina também, apesar de hoje já ser dia 26. Vamos encerrar o ano e o mês com a “maionese” que a minha tia mais velha passou a fazer quando a maionese virou responsabilidade dela. É incrivelmente diferente da da minha avó e  -vó, se você ler isso, perdão. Você é MARAVILHOSA e sua comida um arraso- na minha opinião bem melhor, porque tem várias coisas que eu adoro, e pouca maionese –eu tento evitar maionese (sou filha de mãe natureba que pegou trauma de comida junk).
Hoje em dia, ao imaginar aquela mesma cena que eu tentei imaginar com 15 anos, de um natal futuro, eu tenho quase certeza de que essa maionese nem vai mais existir, não porque ela não seja ótima, mas eu e minha irmã por diversos motivos não comemos frango. Além disso, talvez nosso natal também nem tenha peru, o arroz com certeza vai ser sem passas. Não porque as coisas que as gerações anteriores à nossa são todas ruins, mas só porque algumas podem melhorar e outras simplesmente não são mais viáveis pro nosso tempo, pro nosso gosto ou pros nossos hábitos. Aprender as tradições pode ser muito bom, mas as coisas não precisam ser assim, só porque sempre foram. Às vezes, elas nem sempre foram, simplesmente acontece que não sabemos que elas eram diferentes, ou não nos lembramos, mas de qualquer maneira, é sempre possível mudá-las.

001Ingredientes

Ingredientes:
2 peitos de frango
1 brócolis
Uva verde +/- 1 cacho
1 vidro de palmito picado
½ vidro de champignon picado
2 copos de iogurte natural
3 Colheres de sopa de maionese –da pronta, ou você pode fazer em casa, até vegana
(quem quiser fazer uma opção vegana, pode só tirar o frango, e usar mais dos outros ingredientes ou, substituir o frango por outras variações de cogumelos como shitake, shimeji, paris… ou ainda substituir por proteína vegetal)
Hortelã e sálvia frescas picadas – se você tiver da horta é mais legal
Sal, pimenta, mostarda e outros temperos a gosto

Primeiro de tudo, cozinhe o peito de frango e o brócolis.
Espere esfriar até que seja possível manuseá-los.

Pique todos os ingredientes

002CORTAR

 

Pegue, então, uma tigelona e acrescente os ingredientes nessa ordem:

003NaTigela
Frango
temperos –hortelã e salvia
brócolis
uva
Conservas –palmito e champignon
molhados –iogurte e maionese

Veja se a consistência está do seu agrado, caso não, adicione mais maionese ou iogurte

003GIFG______

 

Por fim tempere a gosto com sal, pimenta, vinagre, mostarda…
O que quiser… Eu só coloquei mostarda, na hora de comer algumas pessoas adicionaram sal e pimenta a gosto.

Mistura tudo, enfeita se quiser, e come!!

003FIM

 

 

Ps.: Esse é o nosso último post de Culinária e FMV do ano, o que quer dizer que a gente já fez muita coisa. 🙂 Fiquei emocionada. Quem perdeu alguma coisa ou quiser fazer uma recapitula, dá uma olhadinha aqui! 😉

 

 

 

As fotos deste tutorial foram feitas em colaboração com a fotógrafa Amanda Amaral. Quem gostou pode visitar o site dela. E eu termino com um “Obrigada, Amanda”!

Maísa Amarelo
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Ilustradora

21 anos, cursando o primeiro de design. Pras coisas que não gosta de fazer, inventa um monte de regras. Já as que gosta - como cozinhar - faz sem regra nenhuma. É muito ruim com palavras, ainda assim resolveu escrever sobre suas receitas que, em geral, não tem medida alguma.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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