20 de janeiro de 2015 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Transexualidade na Escola: Banheiro
Ilustração: Isadora M.

Durante toda a minha vida, fui uma pessoa que evitava banheiros. Seja onde for, com quem for, quando for. Só entro em um ambiente sanitário em último caso e isso é decorrente de algumas situações que demarcaram desde muito cedo, que nem ali, no lugar onde as ‘sujeiras’ estão, eu sou digna de estar com outras pessoas. Se ontem eu sofri agressões físicas e psicológicas por parte de homens no sanitário masculino, hoje elas se perpetuam no feminino e acabo por me questionar: se nem em um banheiro, eu travesti, posso estar, por que continuar a acreditar que todos nós somos iguais? Não, não somos. Eu nunca serei.

No ensino médio uma cena me marcou muito. Toda quarta havia o transtorno de ‘’Qual banheiro eu irei usar?’’ antes e depois das aulas de educação física. Ainda sendo lida como um garoto, mas não segura o suficiente para estar em um ambiente fechado com dezenas deles. Me identificando enquanto garota, mas não sendo lida como uma e logo não sendo bem vinda no ambiente. Onde eu me encaixava? Onde eu deveria ir? Decidi ser forte e fui no masculino.

Oras, se algo acontecesse era só chamar o diretor e tudo seria resolvido. É, precisei chamá-lo. Dois minutos lá dentro foram o suficiente para a porta de um box ser fechada enquanto eu estava dentro, eu tentar abri-la e logo depois um garoto chutar a porta e ela bater no meu rosto cortando minha testa. Ouvi desculpas, ouvi ‘’dispense, meu irmão’’ (gíria falada por garotos periféricos daqui de Pernambuco. Algo como ‘’Não precisava disso!’’), vi o agressor desesperado porque para ele tudo não passava de uma brincadeira, mas não. Eu fui violentada! Quando não fui? O banheiro sempre foi para mim um espaço de agressão, um espaço que sempre deixou em negrito que eu não sou lida como humana o suficiente para usá-lo, pois se insistir, alguma experiência traumática há de acontecer. Quando não aconteceu?

Quando fui tirada do banheiro feminino, ano passado, me impressionei posteriormente ao ter lembrado do quanto tive um controle emocional para lidar com a situação degradante que foi. Respirei fundo, levantei o rosto balançando o cabelo, coloquei a máscara e fui embora, por dentro mais uma vez eu estava despedaçada. Tão despedaçada que ao chegar em casa e olhar minha mãe, a pessoa que mais me conhece e que perfura minhas barreiras, eu caí de joelhos no chão chorando e dizendo ‘’Até quando?’’. Até quando eu vou ter que lidar com humilhações? Até quando meus irmãos e irmãs irão ter que lidar com situações vexatórias diariamente?

A discussão sobre privilégio cisgênero se torna plausível quando você, pessoa cis, reconhece que nunca foi tirada de um banheiro. Que você, pessoa cis, ao entrar em um, não precise respirar fundo e estar preparada para uma possível violência que pode vir a acontecer. Essa é a minha realidade. Essa é a realidade dura de uma pessoa trans.

Ano passado, amigas mulheres trans que estudam na Unicamp, foram avisadas por cis ativistas transfóbicas que ‘’ser mulher não é calçar nossos sapatos’’ em pichações feitas no banheiro feminino. E, indiscutivelmente, me vejo refletindo sobre o porquê de eu ter tatuado ‘’não se nasce mulher, torna-se’’ no peito. Ser mulher, pra mim, é sinônimo de luta, resistência e força. E na minha vida, enquanto pessoa trans, não existe escolha: É lutar ou lutar. Em casa, na rua, no banheiro, na vida.

Que ocupemos esses espaços e que possamos vir a transtornar as noções cissexistas. Sim, irá ter mulher de pinto no banheiro feminino e irão ter que nos aceitar.

Maria Clara Araújo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão

Futura pedagoga e feminista que transversaliza as questões de gênero e raça. Meu nome se tornou uma alusão à minha transparência em relação aos meus sentimentos. Pisciana, sinto como se eu fosse um mar misterioso e difícil de se velejar.

  • Péricles Delmondes

    Amo seus textos, Maria! Tenho aprendido bastante lendo sua coluna aqui e seus posts no Facebook :)

  • ANDRESSA SHERON SANTANA

    MUITO INTERRESANTE TAMBÉM SOU MILITANTE E ME QUESTIONO SOBRE ISSO SERA MESMO QUE PRECISAMOS DUM TERCEIRRO BANHEIRRO OU É A SOCIEDADE QUE PRECISA DUMA SENCIBILIDADE PRA ENTENDER QUE QUANDO ESTAMOS E AFIRMAMOS NOSSA INDETIDADE DE GÊNERO AUTOMATICAMENTE SOMO MULHERES DE GÊNERO E DEVEMOS ESTAR INCLUSAS NO BANHEIRRO FEMENINO POIS É LAR NOSSO LUGAR COLOQUEM SE NO LUGAR DO CONSTRANGIMENTO PASSADO POR NÓS FEMININAS E OBRIGADAS A ENTRA NUM BANHEIRRO ONDE ESTAR HOMENS BILOGICOS E POR SINAL PRECONCEITUOSOS TAMBÉM SOMOS TAXADAS ATÉ COMO TARADAS NESSE BANHEIRROS POIS PENSAM QUE VAMOS PARA ATACALOS E NA VERDADE O BANHEIRO PRA NÓS SERVE DA MESMA FORMA COMO TODO RESTO DA SOCIEDADE, A PALAVRA É SENCIBILIDADE E NOÇÃO DO ÓBVIO.

  • Monalisa

    Acabei de ver no facebook que você passou na Universidade Federal de Pernambuco. Festejei aqui! Adoro seus textos e seu sorriso na foto com sua mãe iluminou meu dia! Parabéns, querida. Emocionada com seu sucesso!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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