3 de junho de 2014 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração:
Transexualidade na escola: infância
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Ilustração: Isadora M.

 

Quando convidada para contribuir com a Capitolina, de primeira instância idealizei que os textos tivessem como referência o cotidiano do ambiente escolar e universitário enquanto mulher transexual. E, a partir daí, iria desenvolver contribuições que abordassem desde visões pessoas, como expor problemas em relação a legitimação da nossa identidade nesse ambiente e o preconceito que nós somos expostxs.

Agora, depois de dar introdução à minha pessoa, meu desejo como primeira contribuição foi conseguir verbalizar algo que até a data eu não conseguia: meus problemas durante minha infância. Aliás, retificando: minha infância e os problemas que vieram juntos com ela, dentro do ambiente educacional. Ambiente ao qual – como já tinha dito na apresentação – fui exposta muito cedo, não tinha nem 3 anos. Será que eu estava preparada para o que iria vir? Provavelmente não. Ninguém está. Mas lá estava eu… Pequena, ingênua e apenas querendo que minha percatinha masculina, fosse o sapatinho com asinha da Sakura Card Captor.

As barreiras naquele espaço foram postas a mim de forma muito grosseira, dura. Você desejar pertencer a um gênero que socialmente não lhe é atribuído, enquanto criança, parece assustar as pessoas que ali estão inseridas. E elas irão… elas irão lhe impor suas verdades nas próprias concepções, não importa o quão cedo seja para você ser expostx a uma situação de confusão. Elas não irão dar a devida importância, porque o suposto “educador” acredita que aquele é o tempo de aprender o que é o certo e o que é o errado, e irão legitimar isso.

Lembro-me desde então já lutar pelo direito de ser reconhecida como eu me via. Mesmo cedo, eu já gritava e esperneava dizendo que eu era a Power Ranger rosa, porque na mente ingênua da criança que ainda não tem consciência dos papéis constituídos na sociedade o importante é o mundo da fantasia no qual ela quer se ver inserida. E eu queria viver aquela fantasia daquele modo, sendo a garota do desenho animado – e a mim não era permitido. Elas não deixavam porque “Você é garoto. Então, você é o vermelho e ela é a rosa porque ELA é menina”. E diante disso surgia a dúvida: mas quem melhor do eu para dizer quem realmente sou? Minhas cicatrizes de hoje são as feridas do passado que uma educação com gênero me deixaram.

A sociedade dita quem somos, como devemos viver, como deveríamos nos comportar e com quem seria o correto se relacionar. Ela tem esse poder, porque a ela foi atribuído. Eu via minhas vontades sendo negadas, meus desejos sendo ignorados e meu eu sendo deslegitimado. Minha vida se tornou uma verdadeira negação. E diante disso, eu surtei. Eu surtei porque eu já tinha vivenciado uma negação. A maior negação. A negação da minha mãe biológica, que me passou para a adoção. Então lá estava eu, nova, confusa e me questionando o por quê de receber tantos “não”. E eles assustavam, eles doíam, eles me encarceravam e não permitiam que eu fosse de encontro ao que eu era: uma garota.

Ontem uma garota, hoje uma mulher. Essas experiências me proporcionaram um amadurecimento enquanto pessoa e mulher transgênera. Repito as palavras ditas por mim no (trans)parência: “Se hoje eu sou forte, é porque lá atrás eu apanhei.” As marcas de ontem feitas por uma sociedade cissexista que me atribuiu um gênero ao qual ainda me forcei pertencer durante 16 anos, hoje me fazem estar à frente da causa de minha condição e sonhar que em um futuro próximo, crianças trans* não vivenciem o mesmo pelo qual passei: dor, confusão, negação e frustração. De ser uma mulher, mas ninguém me enxergar assim.

Maria Clara Araújo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão

Futura pedagoga e feminista que transversaliza as questões de gênero e raça. Meu nome se tornou uma alusão à minha transparência em relação aos meus sentimentos. Pisciana, sinto como se eu fosse um mar misterioso e difícil de se velejar.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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