1 de julho de 2014 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração:
Transexualidade na Escola: Nome Social
Ilustração: Isadora M.

Ilustração: Isadora M.

Quando trilhando um caminho, onde o que mais se almeja é ir de encontro ao que somos, o nome é a primeira roupagem a qual iremos vestir. Ele é a nossa identidade, ele é o pé inicial de um trajeto que começará ali e, indiscutivelmente, irá dizer muito sobre nós. Quando escolhi Maria Clara, eu tinha a certeza que ele deixava claro, o que Clara era: Alguém transparente. Sempre fui uma pessoa que espontaneamente expressava seus sentimentos. E no momento de decisão, no momento de IDENTIFICAÇÃO, o Maria Clara falava muito sobre mim, meu nome de registro não.

A dificuldade da pessoa trans* em ter seu nome social e seu gênero respeitados mesmo nos dias atuais, é real e cotidiana, não importa em qual ambiente.  Seja ele escolar, de trabalho ou mesmo em um âmbito familiar, quando recusam-se a tratar na forma a qual ela deseja. O que soa bastante problemático, porque, ao colocarmos em uma balança, tudo se resume a respeito; a respeitar a forma como a pessoa se vê e quer ser tratada. E ao observarmos isso, nos vemos batendo numa tecla deprimente, podendo assim dizer. Porque o respeito se torna algo opcional e não mais essencial.

Infelizmente, todo esse despreparo para lidar com nossas demandas, acaba, frequentemente, afastando essas pessoas do âmbito escolar e as desestimulando de cultivar o interesse em estudar, em se formar e estar qualificadx para um mercado de trabalho que, não muito diferente, também terá suas dificuldades em entender coisas simples, como respeitar um nome com o qual a pessoa se identifica e quer ser tratada no cotidiano.

A última medida em relação ao nome social que foi reportada a nível nacional, foi a possibilidade do uso no ENEM desse ano. Nos foi permitido usar o banheiro que desejamos , estarmos na sala de nome que escolhemos e nos identificarmos lá com o nosso nome social. Obviamente existe a possibilidade de situações vexatórias na hora da aplicação da prova. Só sabemos posteriormente, mas desde já, é um grande avanço.  E que isso sirva de exemplo para as instituições de ensino prestarem a devida atenção nesse tópico tão importante da vida das pessoas trans*. Respeitar a nossa identidade é uma forma de nos dizer, que aquele ambiente é seguro e podemos fazer parte dele.

Como forma de ajuda, aconselho para que todas as pessoas trans* que estão tendo dificuldade em relação ao nome social e uso de banheiro (assunto abordado em breve em outra contribuição), procure um centro de referência LGBT mais próximo de onde reside e se informe acerca das medidas a serem tomadas.

Deixo aqui uma página com leis, portarias e afins de todos os estados brasileiros, que asseguram o direito ao uso do nome social: http://www.abglt.org.br/port/nomesocial.php E uma informação muito importante, e que poucxs sabem, é que o MEC publicou, no Diário Oficial da União do dia 21 de novembro de 2011, a portaria de nº 1.612, de 18 de novembro de 2011, assegurando a transexuais e travestis, o direito à escolha de tratamento nominal nos atos e procedimentos promovidos no âmbito do Ministério da Educação. Os links para a portaria estão aqui  e aqui e DEVEM ser usados quando preciso. Chega de aguentarmos caladxs violências e situações vexatórias nas quais estamos sendo submetidxs todos os dias. Não estamos sozinhxs e juntxs iremos nos fortalecer.

Para finalizar, peço para que não esqueçam sobre o quanto estamos lutando para a Lei de Identidade de Gênero João W Nery e reforço:

Nome civil para Travestis, Transexuais e Transgêneros é importante! Devolve a autonomia! 

Pela lei João W. Nery de Identidade de Gênero!

Maria Clara Araújo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão

Futura pedagoga e feminista que transversaliza as questões de gênero e raça. Meu nome se tornou uma alusão à minha transparência em relação aos meus sentimentos. Pisciana, sinto como se eu fosse um mar misterioso e difícil de se velejar.

  • Pedro

    caralho, essa foto do inicio do texto foi revoltante, professora desrespeitosa ao extremo…

    • Lorena

      No início, também achei que fosse uma foto real – e fiquei revoltada -, mas logo abaixo diz que a ilustração é de Isadora M. Então deve ter sido a ilustradora da Capitolina que fez.

    • Rafael

      Vc entendeu errado. A professora quis dizer que ela não é Pedro, que aquele nome é falso, que ela devia colocar seu nome verdadeiro, social: Maria Clara

  • Pingback: A importância do ingresso e resistência de pessoas trans* no mundo acadêmico | Capitolina()

  • Diego Bezerra

    Em cada texto, reportagem ou publicações nas redes sociais, em que no momento está tão escrachado em escrachar homossexuais com toda hipocrisia do desrespeito ao respeito, me deparo com uma linda história, de vitória e principalmente de realização em ser, simplesmente ser simples ser humano. Parabéns !!!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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