9 de março de 2015 | Edição #12 | Texto: | Ilustração: Ana Maria Sena
Transtornos psicológicos: entenda um pouco mais

É comum ouvirmos a palavra “transtorno” ser utilizada de forma banal, porque já foi tão internalizada na nossa linguagem que perdeu seu real significado. “Todos estão transtornados”; “As mulheres são transtornadas”. Mas o que isso realmente significa? Na realidade, existe uma gama de tipos de transtornos psicológicos e todos devem ser tratados com a devida atenção.

Para falar um pouco sobre o assunto, a Capitolina entrevistou a psicóloga Raquel Caldeira, graduada na Universidade Paulista que atua na Clínica Ipê, em Brasília.

CAPITOLINA: O que são transtornos psicológicos e quais os tipos mais comuns de surgirem?

RAQUEL CALDEIRA: Diferente da síndrome, que é apenas conjunto de sintomas associados, o transtorno psicológico, além de possuir sintomas que o caracterizam, tem fatores causais, curso e outras particularidades que são possíveis de se identificar.

Para que uma alteração na “normalidade” (entre aspas pois tal termo ainda é fonte de controvérsias) seja considerada um transtorno psicológico, é necessário observar não somente a sintomatologia, mas também como esta tem interferido no curso da vida do sujeito e em seu bem-estar.

Por exemplo, a ansiedade é uma reação comum ao ser humano. Por fatores físicos ou de personalidade, algumas pessoas podem ser mais ansiosas que as outras. O que difere alguém ansioso de uma pessoa que sofre de Transtorno de Ansiedade Generalizada, é que a primeira consegue continuar com as atividades do seu cotidiano e consegue sair do estado de ansiedade nos momentos em que não precisa mais dela. Já quem sofre do Transtorno de Ansiedade Generalizada tem dificuldades de realizar suas atividades do dia a dia, toma decisões que normalmente não tomaria, cada vez mais é castrado de seu convívio social por causa da ansiedade.

Os transtornos de humor são mais comumente encontrados na prática da clínica, em especial as síndromes depressivas e ansiosas. Transtornos alimentares associados a ansiedade, em especial em mulheres, são bastantes comuns.

Gostaria de esclarecer que diagnosticar um transtorno é uma tarefa minuciosa e que leva tempo, embora geralmente os pacientes demandem (algumas vezes por motivos jurídicos) um diagnóstico em pouco tempo. Nem todo mundo que precisa de ajuda tem um transtorno, e um diagnóstico pode atrapalhar mais do que ajudar.

C: Transtorno e distúrbio significam a mesma coisa?

R.C.: Tanto o transtorno quanto o distúrbio podem ser utilizados para falar sobre perturbações na “normalidade”. No entanto, o termo doença mental já não é utilizado, por ele não abranger as características de um transtorno.

C: O transtorno tem cura?

R.C.: A cura da loucura, como eram considerados os transtornos, remete ao modelo manicomial, onde o louco era visto como um organismo que precisava sair da sociedade, ser curado da sua enfermidade e só assim retornar ao laço social. Por louco, era entendido qualquer pessoa que desviasse da ordem social vigente.

Após a tão necessária reforma manicomial, essa visão foi modificada. Na psicologia, não falamos em termos de cura. Primeiro porque não se trata de uma doença, mas de fenômenos que muitas vezes estão ligados com o modo de ser do indivíduo. A psicologia trabalha na ressignificação dos sintomas, e em ajudar o sujeito a buscar o seu bem-estar.

C: O acompanhamento dos transtornos psicológicos é feito por psicólogo, psiquiatra ou por ambos?

R.C.: O ideal é que haja um trabalho multiprofissional, que possa incluir outros profissionais, em casos que haja a necessidade de medicação. Cada caso tem sua particularidade, nem todos os depressivos conseguem ajuda na medicação, por exemplo. É sempre bom que haja acompanhamento psicológico junto com o psiquiátrico, em especial se o paciente tiver a intenção de parar com a medicação em um momento.

C: Você vê preconceito ou dificuldade em lidar com transtornos psicológicos, seja por parte da família do paciente ou da sociedade em geral?

R.C.: Geralmente, tanto o preconceito quanto a dificuldade em lidar com os transtornos são frutos da falta de conhecimento. Então sim, vejo preconceito e dificuldades de todo o tipo, pois há uma cultura de não falar sobre como é difícil SER no mundo. Não só sobre como é difícil ser mãe de um autista, ou ser bipolar, mas como é difícil enfrentar minha fraqueza, reconhecer a imperfeição e suportar a dor do outro.

C: Como você sugere que lidemos com conhecidos ou familiares, caso estes sofram de algum transtorno psicológico, visando uma colaboração direta com o tratamento e com o objetivo de diminuir o preconceito gerado?

R.C.: Escutem. Muitas vezes, enfrentar um transtorno é uma jornada solitária, e escutar é a melhor forma de se fazer presente. Incentive eles a continuarem com o tratamento, por mais difícil que seja. Reconheçam os pequenos progressos, pois eles não irão. E entendam que algumas feridas serão abertas, o relacionamento pode ficar complicado, mas é apenas uma forma que eles estão procurando de sobreviver.

Mas acima de tudo, se respeitem. Não há ajuda nenhuma no comportamento de fragilizar mais ainda seu familiar ou conhecido. Caso esteja ficando difícil para você, não deixe de procurar ajuda também, o preconceito é aos poucos quebrado quando admitimos que todos estamos sujeitos à mesma situação.

Priscylla Piucco
  • Membro do Conselho Editorial
  • Coordenadora de Relacionamentos & Sexo

Priscylla. Apaixonada por seriados, kpop, reality show ruim, Warsan Shire e as Kardashians. Odeio o Grêmio e cebola. Prazer, pode chamar de Prih agora.

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