14 de junho de 2015 | Ano 2, Edição #15 | Texto: and | Ilustração: Duds Saldanha
Trigger warning e a proteção na web

Se você também gosta de passar bastante tempo na internet, fuçando Facebooks e Tumblrs e procurando novos textos para ler, com certeza já se deparou com alguma coisa nesse sentido: “[TW: misoginia]” ou “Trigger warning: racismo”. Talvez, também, já tenha lido alguém dizer “tal assunto é trigger para mim”. Estamos aqui justamente para esclarecer o significado disso tudo e trazer as discussões que envolvem o assunto.

TW é uma abreviação de uma expressão em inglês, trigger warning, sendo trigger = gatilho, e warning = aviso. “Gatilho”, neste caso, expressa, basicamente, algo que, ao ser mencionado ou referido, desperta em alguém um sentimento ruim. Quando uma pessoa diz que um assunto é trigger para ela, então, quer dizer que a menção àquilo provoca uma reação negativa, o assunto a incomoda e entristece. Assim, o TW é colocado para avisar a quem alcançar aquele texto (ou imagem, ou quadrinho, etc.) que haverá referências ou menções explícitas a determinado assunto, e poderá engatilhar sentimentos/sensações/lembranças ruins. Dessa forma, o leitor saberá de antemão o que poderá encontrar e pode optar por prosseguir com a leitura ou não. Muitas vezes, a expressão TW é substituída por “aviso de conteúdo” ou “aviso de gatilho”.

É interessante notar que, na prática, qualquer assunto pode ser trigger para alguém. Tem um quadrinho muito legal chamado TW: breakfast, ou seja, “TW: café da manhã”. Infelizmente, ele só está disponível em inglês, mas fala sobre uma mulher que foi estuprada e, no dia seguinte, fez café da manhã para seu agressor. Por isso, após a situação, as sensações do estupro e as lembranças retornavam a qualquer menção ou pensamento sobre a refeição. No entanto, ninguém nunca colocava um aviso de conteúdo quando iam mencionar o café da manhã, porque é um assunto muito corriqueiro, nem imaginamos que pode ser um gatilho para alguém. Obviamente, seria impossível colocar um TW para todos os nossos posts e textos, até os mais cotidianos. Não dá para adivinhar o que vai ser trigger para alguém. Às vezes é difícil até para nós mesmas identificarmos nossos gatilhos. Mas alguns assuntos mais comumente trazem sensações negativas às pessoas, e é legal se atentar a eles, colocar um aviso.

O importante é não banalizar o que é trigger para outra pessoa só porque não é para você. Se alguém pede para você colocar um aviso quando escrever e postar sobre alguma coisa que para você pareça banal, como, sei lá, cachorros, é legal respeitar, porque todos somos seres humanos muito, muito complexos, compostos de experiências e traumas totalmente únicos. Colocar um aviso não significa se privar de escrever sobre aquele assunto, não configura uma censura, é apenas uma forma de proteger as pessoas que terão acesso àquele conteúdo. Eu, sinceramente, acredito que trigger warnings podem salvar vidas, e dou bastante importância a eles.

Em um ambiente como a internet, que tem potencialidade de multiplicar tudo que a raça humana tem a oferecer (inclusive ódio e amor gratuitos), o trigger warning vem como um alívio, como uma forma de cuidado por parte de quem tem preocupação com aquelas pessoas que estão por perto lendo e, consequentemente, sendo impactadas pelas coisas que você diz. O aviso de gatilho vem cheio de relações curiosas com nossa vida em sociedade. É muito fácil criticar o trigger warning com aquela velha máxima sobre bullying na escola: “o mundo é naturalmente cruel e precisamos aprender a enfrentá-lo”. Mentira. O mundo NÃO É cruel, as pessoas é que tentam fazer parecer que sempre foi assim, é assim e sempre será assim. Não, o mundo não foi sempre desse jeito que estamos vendo agora, e é bastante improvável que continue sendo assim para sempre. Nós construímos o mundo todos os dias com nossas ações, e devemos prestar atenção justamente em mudar o mundo, não em parecer “forte” e aguentar todos os tipos de atrocidade numa boa, porque isso é deixar tudo de ruim inalterado. É OK ficar mal ao ler certas coisas. Mas, por outro lado, é verdade que a bolha de proteção e segurança criada por nossos trigger warnings é muito limitada. O que fazemos quando ela falta? Como caminhamos sem ela?

O trigger warning surgiu, inicialmente, para apontar opressões específicas (tipo racismo, machismo, homofobia, transfobia, etc.), mas se prestarmos atenção, vemos que seu uso tem se expandido para designar coisas mais específicas, como situações pontuais. O problema nisso é onde demarcar as fronteiras do trigger warning porque, apesar de nosso desejo em proteger todas as pessoas sempre, é impossível que isso aconteça. Traumas emergem na nossa cabeça de formas muito sutis: mesmo que eu tenha passado por situações horríveis de machismo no passado, posso conseguir ler tranquilamente sobre essa forma de opressão; no entanto, a mera menção a uma cor ou um cheiro traz angústia. Então, o que “merece” um trigger warning e o que “não merece”? Essa pequena expressão funciona de formas diferentes: desde nos ajudar a evitar que nos vejamos ainda mais oprimidos inutilmente, até nos ajudar a evitar nossos próprios traumas, e essa segunda função é a mais complicada. Com ela, temos que ser especialmente cuidadosas. Traumas existem: não podemos tratá-los de forma leviana e temos sempre que respeitar certos limites que dizem respeito ao nosso bem-estar. Mas não podemos, também, diminuir ou simplificar a sua importância ao evitá-los sempre, porque traumas afetam pessoas de formas muito mais delicadas e profundas do que possa parecer à primeira vista.

Nós devemos sempre tomar cuidado: não podemos ficar confortáveis demais com nosso próprio desconforto – e aí é importante reconhecer que o trigger warning está longe de ser o único mecanismo que pode ser usado para nos fazer esquecer de traumas que temos; alguns distúrbios psicológicos se caracterizam justamente por essa tentativa. Quando nos acomodamos com a existência deles, é como se fizéssemos um acordo com nós mesmas de deixar num cantinho escuro, intocadas, aquelas partes de nós carregadas de dor. Muitas vezes, passamos a andar na pontinha dos dedos em torno delas, fazendo caminhos tortos para não encostar, fechando os olhos para tentar não ver. Mas essas partes continuarão se fazendo presentes, ditando os rumos que você vai tomar, qual o ritmo dos passos que você vai dar para tentar não cruzar com elas, onde você pode ou não pisar – então, uma questão a se pensar com cuidado é que o caminho para não deixar que nada disso te defina muitas vezes consiste no enfrentamento. Jamais sozinha, vale ressaltar. E de forma alguma porque te dizem que “o mundo é cruel” e você tem que reconhecer isso, nem muito menos porque você tem que ser “forte”, mas simplesmente porque você merece se curar daquilo que te aflige, evitando quando tem que evitar, enfrentando quando tem que enfrentar (e você só vai saber como depois de muita autorreflexão, conversa e terapia). A questão é que o trigger warning não deve ser usado para ajudar pessoas apenas a se preservarem, mas também para se curarem.

Thais Bakker
  • Colaboradora de Cinema & TV

Thais tem 20 anos e estuda Relações Internacionais e Filosofia. Se sente bem estranha se apresentando, por isso pagou uma coxinha a quem escrevesse isto por ela. Essa pessoa também achou relevante mencionar que ela reclama mais do que o socialmente aceitável.

Beatriz Trevisan
  • Cofundadora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Música

Bia, 23 anos (mas todo mundo acha que ela tem 13), feminista interseccional e estudante do último ano de direito. Talvez queira seguir na área, mas seu sonho de verdade é ser cantora e escritora. Se bem que, se fosse possível, largava tudo isso e se tornava Mestre Pokémon pra ontem.

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