29 de setembro de 2014 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração:
Trilha Sonora da Vida: Arcade Fire

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Ilustração: Dora Leroy

Como uma pessoa que é quase idealista e sonhadora demais da conta, eu devo dizer que um dos nossos maiores dilemas é conseguir conciliar a nossa necessidade de um toque de fantasia, um “tchan” na vida com a nossa curiosidade igualmente grande por aquilo de real, tangível, contemporâneo que está ao nosso redor. Eu carrego esse sentimento – visto por muitos como contradição pura – comigo desde que me conheço por gente.

Por esse exato motivo, quando dei cara com o Arcade Fire, eu logo me identifiquei. A banda composta por seis integrantes (mas que dobra de número em tour) e formada em 2001, parte americana, parte canadense, tem 4 álbuns (e 1 EP) que tratam de temas diversos – infância, amor, desenvolvimento urbano e do neoimperialismo americano – com a mesma intensidade, deixando evidente o enorme espectro de sentimentos – escapismo, saudade, medo, ansiedade – que podemos sentir quando confrontados com a realidade.

E um dos aspectos mais fascinantes do grupo é que eles não medem esforços para que a mensagem seja transmitida: além de transformar seus shows em espetáculos visuais e até mesmo teatrais, com direito a figurino, cenário e performance, e, ao mesmo tempo, com a tentativa constante de quebrar a barreira artista-público (segundo Win Butler, frontman da banda, a magia de um show está justamente na colaboração entre os dois); eles sempre buscam o meio sonoro mais adequado. Para as gravações de seu segundo álbum, por exemplo, eles compraram uma igreja (!) e usaram o órgão de uma ainda maior para a gravação de algumas músicas – justamente porque o álbum tem como um de seus principais temas a religião.

A mistura dessa liberdade artística com um poder de universalizar uma multitude de sentimentos subjetivos com honestidade, mas sem niilismo, sempre foi, pra mim, a fonte da mais pura admiração e inspiração. A imagem final é tão fiel, tão transbordante em emoção e energia, que é quase impossível não entender exatamente o que eles estão tentando comunicar e, consequentemente, ser impactado pela mensagem.

Porque a verdade (que a banda sabe muito bem e me ajudou a compreender) é que não somos 100% nada o tempo todo. Para cada momento em que sentimos uma coragem que nos impulsiona a fazer até as coisas mais complicadas do mundo, existirá um em que não encontraremos esperança, por mais que procuremos – e é importante não ignorar nenhum deles, e sim entendê-los, articulá-los, e aceitar que uma vida verdadeiramente completa é o resultado de um equilíbrio entre os dois (apesar de você ter direito a alguns exageros de vez em quando). Entre a felicidade e a tristeza, o enfrentamento e o escapismo, a fantasia e a realidade, o clique da luz e o começo do sonho.

Por mais clichê que isso possa soar, o Arcade Fire foi – e ainda é – pra mim, como um amigo, que me entende e me motiva quando eu preciso e um mentor que não para de me ensinar coisas novas, expandir meus horizontes, me guiar e me inspirar. Tem como ver esse bando de gente dançando no palco, revezando-se entre os instrumentos disponíveis, indo pro meio da multidão e até mesmo cantando na língua nativa do país em que estão e não se apaixonar perdidamente?

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Bárbara Reis
  • Colaboradora de Cinema & TV

Bárbara Reis tem 18 anos, é paulista e estuda Jornalismo na ECA. Acha que a internet é a melhor coisa que já aconteceu, é fascinada por novas linguagens e tem o péssimo hábito de acumular livros para ler e séries para assistir. O seu pior pesadelo envolveria insetos, agulhas, generalizações, matemática e temperaturas acima de 27ºC.

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