24 de julho de 2014 | Artes, Música | Texto: | Ilustração:
Trilha sonora da vida: Blue, um álbum de Joni Mitchell.
JONI

Ilustração: Julia Oliveira

(Nessa série, uma colaboradora da Capitolina compartilha uma música que faz parte da sua vida. Sabe, aquela que se tua vida fosse um filme, essa música estaria na trilha sonora…?)

“Me sinto grata por cada erro
A má sorte mudou o rumo do meu destino“*
Joni Mitchell

Conheci Joni Mitchell no meu primeiro período da faculdade, aos 18 anos, foi um encontro na hora certa. Aquele era o melhor dos tempos ou pelo menos deveria ser. Depois da pressão do vestibular,era o momento da minha vida começar. O que eu não sabia até então é que esse período não se resumiria a euforia universitária. O melhor dos tempos não é feito só de tranquilidade. As novas descobertas às vezes são incríveis, às vezes colocam todas nossas certezas em questão. Começar minha vida era de uma liberdade inédita e por isso pela primeira vez entendi o que realmente signfica ter responsabilidades. Em meio a tudo isso, eu era muito feliz e igualmente desnorteada. Blue  é o álbum do começo da minha vida adulta, porque, nas palavras da própria Joni, seus acordes soam como interrogações.

Há alguns anos Joni Mitchell também foi uma garota que enfrentou as pressões de crescer e tornar-se dona de sua jornada. Depois de uma infância reclusa por causa da poliomelite, Joni se tornou uma jovem inquieta que queria ser uma pintora famosa. Na escola de artes começou um novo hobby, tocar algumas músicas em um café universitário. Pintar era o que ela considerava seu trabalho sério, a música era só uma distração. Logo nesse momento em que começava a se descobrir enquanto artista, ela engravida e se vê presa em um casamento não desejado. Seu marido também era músico e juntos formaram uma dupla, mas era ele quem controlava o dinheiro que produziam juntos. É nessa fase angustiante que Joni começa a escrever como um modo de desabafar suas emoções. Ela compõe inúmeras canções, se divorcia e sai pelo país dando início a sua própria jornada. Assim surge seu primeiro álbum Song to a seagull  que, embora tenha canções doloridas, é certamente mais inocente que seu trabalho mais marcante, Blue. Esse é o disco em que Joni se entrega a uma honestidade profunda. Blue é sobre a sua travessia individual, sobre se descobrir enquanto uma mulher artista, sobre o amor, seus prazeres, seu fim e, principalmente, sobre esse caminho que se percorre sem resolução, sem nenhuma promessa de chegada. Sua primeira música All I want  é a mais bonita carta de amor que existe. A letra diz:

“Tudo o que eu realmente realmente quero que nosso amor faça
É que ele revele o melhor em mim e em você também
Quero conversar com você, quero lavar seu cabelo
Quero renovar você de novo e de novo
Aplauda, aplauda – a vida é a nossa causa”

 É um pedido de Joni que, após sofrer um casamento abusivo, procurar um amor que seja sobre compartilhar a alegria, um amor feito de dois caminhos livres que se encontram porque desejam e não porque precisam. Como canta em Blue, músicas são como tatuagens, carrego alguns versos desse disco que constantemente reaparecem em minha cabeça. A case of you tem o mais doce verso sobre o amor “O amor é almas se tocando”e também os mais cruéis “eu sou uma pintora solitária/ Eu vivo em uma caixa de tintas” ou  “Eu poderia beber uma caixa de você, querido/ E eu continuaria de pé”. Joni escreveu Blue depois de viver um amor intenso com outro músico, era um relacionamento feliz, ao contrário de seu primeiro casamento. Mas, ao mesmo tempo, Joni sofria o medo de repetir a história das mulheres de sua família, artistas frustradas porque não puderam dar expressão ao seu talento. Blue nasce de todas esses questionamentos, os erros do passado, o receio, a necessidade de ser livre, a delicadeza e a dificuldade de amar. É um álbum que acompanha viagens, períodos de suspensão em que não sabemos para onde ir, mas mesmo assim vamos nessa estrada solitária, tatendo encontros, buscando sem saber o quê se quer, desejando a liberdade ainda que ela nos deixe sem um ponto fixo.

 

* Esse relato está nas entrevistas do documentário sobre sua vida chamado A life story – woman of heart and mind.

Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

  • Lorena Piñeiro

    Quase chorei lendo seu texto, Taís. O Blue também representa um momento transitório importante para mim 🙂

  • http://thecactustree.blogspot.com Babi

    taís, tô na dúvida se gosto mais de você, mais desse texto ou mais de joni nesse momento.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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