3 de março de 2015 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: and | Ilustração: Isadora M.
Trote: quando a tradição se transforma em opressão

Se tem um momento marcante nas nossas vidas é a entrada na faculdade. É a abertura de portas de um novo mundo: pessoas novas, lugar novo, rotina nova, conhecimentos novos a serem absorvidos, enfim, muita coisa pra conhecer e uma expectativa enorme em relação a cada uma delas. É um momento de muitos sentimentos também: ansiedade, medo, felicidade, empolgação… E cada um vive isso de uma forma.

O primeiro contato real com esse novo mundo, normalmente, é a primeira semana de aula em que, na maioria das faculdades, é realizada a “semana de trote” ou “calourada”. Uma semana tradicional, em que os estudantes mais antigos, “veteranos”, recebem os estudantes novos, “calouros” ou “bixos”. Como na maioria das tradições, essa é uma das que se consolidou, foi se transformando e hoje a gente já não sabe muito bem por que acontece, mas acontece.

 O trote não é uma invenção brasileira, se iniciou na Europa da Idade Média, com a consolidação maior da ideia de Universidade. Nessa época a segregação entre os estudantes novos e antigos era espacial, os dois grupos não tinham aula no mesmo espaço e, além disso, os estudantes novos tinham suas cabeças raspadas por questões de higiene. Importando, principalmente da Universidade de Coimbra, em Portugal, o Brasil começa com a tradição após a vinda da Família Real com rituais que mantinham do corte dos cabelos até beber urina, por exemplo.

A palavra “trote” também diz muito sobre como foi construída essa tradição. O termo se refere a uma forma especifica de andar dos cavalos, forma tal que não lhes é natural mas ensinada, entre o passo e o galope. Sendo assim, a ideia do trote universitário é a de que os novos estudantes precisam aprender sobre a vida na universidade com os veteranos, precisam ser ensinados sobre esse novo mundo.

Com o tempo, em muitos lugares, a ideia dessa semana como uma semana de humilhação para o calouro foi sendo desconstruída com atividades mais amigáveis ou trotes solidários com arrecadação de doações. Por outro lado, ainda acontecem trotes assustadores, com atividades vexatórias, preconceituosas, opressoras e criminosas. Fato é que a história dessa tradição nos prende a uma relação de poder difícil de desconstruir.

Por mais que a universidade seja um espaço de questionamento e desenvolvimento de pensamento crítico, pouco ou quase nada é repensado em relação a essa tradição. O espírito “corporativista” que se instaura no momento em que um ingressante começa a fazer parte da turma do curso e/ou faculdade é quase inevitável. Além do trote ser um tipo de recepção naturalizado, alguém que almejou tanto estar na universidade e que logo se vê fazendo parte deste universo, é tomado por um sentimento de pertencimento e mais, de superioridade (isso está muito relacionado também com a elitização das universidades), o que faz com que anseie reproduzir essa situação com a próxima turma.

O trote é, mais do que tudo, o estabelecimento de uma hierarquia, como se, por estar um ano na frente, o “veterano” soubesse mais que o ingressante. Esse mesmo ingressante, que no próximo ano será o veterano, aguarda ansiosamente a oportunidade de reproduzir essa hierarquia, gerando um ciclo sem fim que precisa ser rompido. Primeiro porque isso é completamente elitista e se baseia no fato de que a vivência universitária é o nível mais alto de experiência a que uma pessoa pode ter chegado até ali, desconsiderando-se toda a vivência não-acadêmica: a universidade não é o único local de formação e aquisição de conhecimento, e o conhecimento que se forma ali não é o mais importante. Segundo que isso gera um modus operandi nas gerações de veteranos que se formam, ávidos por reproduzir essa estrutura com as novas turmas.

Essa ausência de problematização do trote e dessa tradição, que naturaliza o período de recepção e a hierarquia estabelecida, faz com que os calouros se sintam coagidos a participar e a se submeter a situações no mínimo desconfortáveis, já que o trote “faz parte” e “sempre foi assim”. Em incontáveis casos, envolvem violência física e psicológica, atitudes opressoras e preconceituosas, que recaem mais drasticamente sobre as mulheres, pessoas LGBT e negros e negras. Concursos como Mix Bixete ou “provas” que coagem garotas a simular sexo oral, por exemplo, são episódios reais de trotes de universidades brasileiras. De maneira brutal se estabelece um controle alheio sobre os nossos corpos. Além disso, por mais inofensivas que algumas atividades de recepção possam parecer ou por mais que digam que “só participa quem quer”, o estigma de “bixo”/”calouro” persegue os ingressantes durante muito tempo e, em muitas faculdades, o fato de não ter participado do trote impede a pessoa de se engajar em outras atividades como esportes, por exemplo. A partir do momento em que se ingressa na universidade e já se é denominado como calouro e já se é colocado como parte inferior dessa relação de poder estabelecida, como conseguir se colocar contra ela? Quer dizer, mesmo que o veterano diga “participa quem quer”, até que ponto esse tipo de relação construída permite a escolha real daquele estudante ingressante?

Tradições, a partir do momento em que se constroem como opressoras para um ou mais grupos de pessoas precisam ser repensadas. A recepção é sempre válida, mas ela precisa ser agregadora e não assustadora. Atividades que façam com que estudantes se conheçam, troquem experiências, entendam a faculdade e a universidade, brinquem e se divirtam são possíveis de acontecer sem depender de situações humilhantes e agressivas. Novos estudantes precisam se sentir confortáveis e não coagidos. A universidade precisa ser para todas e todos para ser vivida intensamente, de forma saudável e não opressora. Se você está entrando em uma faculdade e não se sente a vontade para participar de alguma “brincadeira”, seja forte, procure outras pessoas que possam te acolher e saiba que, não, a sua vida na faculdade não depende dessa semana.

Leia + em:

“Trote universitário não é tradição, é relação de poder” 
Violência sexual, castigos físicos e preconceito na Faculdade de Medicina da USP 

Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

Isabela Peccini
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão

O nome é Isabela, mas os apelidos são variados, sintam-se à vontade. Quase arquiteta e urbanista pela UFRJ. Mas não se engane, não vou fazer a sua casa ou a decoração da sala. Objeto de estudo: cidade, sempre pelos olhos da mulher. A minha cidade? Rio de Janeiro, uma relação de amor e ódio. Militante no movimento estudantil desde que me lembro e feminista porque não dá pra não ser, o feminismo te liberta!

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