18 de agosto de 2014 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração:
Tudo bem, Sr. DeMille, estou pronta para o meu close-up

Sistema solar ilustra testIIIIlustração por Beatriz H. M. Leite

Quando pensamos em mulheres no cinema, pensamos em grandes e famosas atrizes como Angelina Jolie e Meryl Streep. Pensamos em todas aquelas artistas que desfilam lindos vestidos nas premiações pelo mundo afora, nas jovens que estampam as capas das revistas femininas e nos ícones já idolatrados pelo tempo, como Brigitte Bardot e Audrey Hepburn. Mas o glamour todo causado pelo cinema e suas produções engana.

É assustador pensar que, ainda hoje, muitas personagens do cinema vivem à sombra de seus colegas homens e têm narrativas que as isolam de outras mulheres. É sobre a pouca representatividade feminina que vamos falar hoje.

Originado em 1985 nos quadrinhos de Alison Bechdel, Dykes to Watch Out, o Bechdel Test consiste em três perguntas bem básicas:

  1. Existem duas ou mais mulheres no filme que tenham nomes?
  2. Essas mulheres conversam entre elas?
  3. Elas falam sobre alguma outra coisa que não sejam homens?

Essas perguntas podem parecer bobas, mas é assustador a quantidade de filmes que falham em uma ou todas essas questões. No site do Bechdel Test tem uma lista enorme com diversos filmes e suas classificações segundo o teste. Alguns dos filmes que foram reprovados são: Inside Llewyn Davies (Ethan e Joel Coen, 2013); Como treinar o seu dragão 2 (Dean DeBlois, 2014); Os Muppets 2 (James Bobin, 2014); Caça aos gangsters (Ruben Fleischer, 2013); Django livre (Quentin Tarantino, 2013); Batman – O cavaleiro das trevas ressurge (Christopher Nolan, 2012); Millennium – Os homens que não amavam as mulheres (David Fincher, 2011) e O grande Hotel Budapeste (Wes Anderson, 2014). O site é alimentado por internautas que classificam os filmes e muitas vezes entram em discussão sobre se o filme passa ou não.

Segundo Robert McKee:

“Na essência, o protagonista cria o resto do elenco. Todas as outras personagens estão na história simplesmente por causa do relacionamento com o protagonista e pela maneira que cada um ajuda a delinear as dimensões da natureza complexa desse protagonista.  Imagine o elenco como um tipo de sistema solar, com o protagonista como o sol,  os coadjuvantes como os planetas ao redor do sol e os papéis menores como satélites ao redor do planetas. (Robert McKee, 254, 2006, Story)”

Untitled-1 copyIlustração por Natasha Ferla

Lançado esse ano, O espetacular Homem Aranha 2 tem apenas três mulheres com nomes, Tia May (Sally Field), Gwen Stacy (Emma Stone) e Felicia (Felicity Jones), mas em nenhum momento elas se encontram ou trocam palavras. Elas ilustram bem o gráfico feito acima.

Essas personagens mulheres existem, mas não se encontram – o que é no mínimo bizarro, porque somos pouco mais da metade da população, mas Hollywood continua insistindo em fazer majoritariamente histórias de homens sendo que as mulheres são as que mais compram ingressos de cinema. Em qualquer outro negócio, seríamos vistas como público-alvo do produto vendido.

Segundo uma pesquisa mais detalhada da New York Film Academy, das 500 melhores bilheterias de 2007 até 2012, somente 30% das personagens com falas eram mulheres. O número assustador mostra a disparidade entre homens e mulheres nas telas. Somente 10.7% dos filmes tinham elencos balanceados. Os resultados também mostraram que quando o filme era dirigido ou escrito por mulheres, o número de personagens femininos crescia 10.6% e 8.7% respectivamente. A indústria cinematográfica é um campo o qual as mulheres ainda estão conquistando. Feita a mais de 80 anos, a premiação do Oscar deu apenas uma estatueta de melhor direção para uma diretora, Kathryn Bigelow, em 2009 pelo filme Guerra ao terror.

Nos últimos anos, o nome de Lena Dunham tem circulado bastante na mídia. Apesar de todas as críticas relacionadas a Girls, é inegável o fato de Dunhan ser criadora, diretora, roteirista e atriz do seriado se caracterizar como um feito incrível. Sendo vista como uma das grandes promessas na área do audiovisual, ela é abertamente feminista e não tem vergonha nenhuma de exibir o corpo fora dos padrões da mídia na televisão.

Existe também a ideia de que filmes protagonizados por mulheres não são filmes para todos. Nessa lógica, os filmes de protagonista masculino seriam para o público em geral. Essa ideia reforça um preconceito machista de que o que é feito para mulheres é de menos valor, fútil e acima de tudo “coisa de mulherzinha”, como se gostar de alguma coisa relacionada ao feminino fosse um ato vergonhoso. E além de tudo, acarreta a ideia de que as experiências dos homens são universais, o que não é bem verdade. O mundo trata homens e mulheres de maneiras diferentes, vivemos experiências diferentes e uma hora queremos ver filmes que remetam a nossa situação. Não que filmes com homens não possam emocionar mulheres e vice-versa, claro que podem, mas é essencial que o público feminino possa ir ao cinema e ver histórias que falem de sua própria luta.

Lançado em 2011, Missão madrinha de casamento chamou bastante atenção pelo fato de seu elenco principal ser formado por mulheres. Escrito pela comediante do Saturday Night Live Kristen Wiig, o filme mostra a história de Annie (interpretada pela própria Wiig), que enquanto tenta dar um jeito na própria vida precisa lidar com os deveres de madrinha do casamento de sua melhor amiga, Lillian (Maya Rudolph, colega de Wiig no SNL). Mas o que deveria ser um momento de união e celebração entre amigas acaba por se tornar um pesadelo para Annie, já que vê seu lugar importante sendo tomado por Hellen (Rose Byrne). Apesar da trama principal girar em torno do casamento de Lillian, o relacionamento entre essas mulheres é a grande questão da história.

Arrecadando quase 300 milhões de dólares, o filme protagonizado por personagens femininas sobre amizade foi um banho de água fria em quem acha que mulheres não são engraçadas, não dão bilheterias e nem sabem segurar um filme sozinhas. Wiig divide o crédito do roteiro com Annie Mumolo e as duas concorreram ao Oscar de Melhor Roteiro Original na cerimônia de 2012, mas perderam para Woody Allen, por Meia noite em Paris.

Quando se olha mais de perto os filmes, percebemos que o papel que é designado a nós mulheres – principalmente nos Hollywoodianos –  é meramente secundário. Lutamos por espaço nas telas, assim como lutamos para termos nosso lugar ao sol em diversas áreas da socidade.

Alguns links (em inglês) para quem se interessar pelo assunto:

http://www.feministfrequency.com/2009/12/the-bechdel-test-for-women-in-movies/

http://bechdeltest.com/

*Título é uma referência a Crepúsculo dos deuses

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

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