9 de novembro de 2015 | Cinema & TV, Sem categoria | Texto: | Ilustração: Isadora M
Tudo que sempre quis saber sobre legendas, mas tinha vergonha de perguntar

Liga a TV, começa a passar aquele seriado. Você, que fez dez anos de cursinho, utiliza a TV a cabo para poder treinar o ouvido e começa a ver as legendas dos programas saindo muito rápido sem dar chance para ler o que estava escrito. Ou você leu e viu que não tinha todas as palavras que o personagem falou.
Você certamente já observou isso. Mesmo sem nem entender o idioma original. Pensando nisso, tentarei responder possíveis dúvidas que as pessoas têm sobre legendagem.

Eu trabalho em empresas de legendagem desde 2013 e trabalhar nesse ramo me fez ver TV de forma completamente diferente desde então. Se antes já era chato assistir a Friends comigo porque eu sabia todas as falas de cor, agora é pior ainda, porque eu falo coisas horríveis como “Nossa, olha como saiu antes essa legenda”, “e esse spotting horroroso?”.
Vendo assim, prontinha na tela, parece até que é só saber o idioma e traduzir — aliás, toda a questão de achar que sabe traduzir só porque fala outra língua já é bem errada, mas a tradução audiovisual é ainda mais complexa, porque há uma série de regras e limitações que a tradução literária permite.

O tempo que a legenda fica na tela é o que chamamos de tempo de leitura. O tempo de leitura médio do português-brasileiro é 15 caracteres por segundo. Então o legendador tem sempre que ficar atento para fazer com que a legenda entre nesse padrão. Nem sempre dá, mas a gente tenta ao máximo. E pra que consigam ler mais rápido, temos sempre que encurtar as palavras. Vocês não acreditariam o quanto que as palavras no português são grandes, a não ser quando começam a legendar. Porque na televisão, o padrão de caracteres por linha de legenda varia entre 32 e 36, isso depende do canal. E tudo em duas linhas no máximo. É aí que vem aquele poder de resumir ao máximo as coisas para que a ideia central do que foi falado fique na tela e não necessariamente tradução de palavra por palavra. Aí vem o povo reclamar que o Twitter são só 140 caracteres.

Mas Gê, onde você arruma essas legendas, em que programa elas são criadas? Existem vários programas que geram legendas, mas o mais famoso e usado é o Subtitle Workshop. Ele é grátis. E de fácil manuseio.
Tá, abri o programa, como eu faço pra saber como a legenda vai entrar e vai sair da tela? Isso se chama ‘timing’. É o processo de sincronizar o texto da legenda com o que foi dito. Eu chorei no dia em que tive que aprender a timear, fui zoada a vida toda na empresa, mas se eu consegui, todo mundo consegue. Como é? No Subtitle Workshop o comando alt+c marca a entrada da legenda e o comando alt+v marca a saída. Há um tempo mínimo e um tempo máximo que uma legenda pode ficar aparecendo na tela. E a unidade de medida é contada em segundos e frames. Um segundo contém trinta frames*.

Eu falei lá em cima de um negócio chamado spotting, né? Spotting é como fica a disposição das palavras na legenda. Por exemplo, uma legenda tem no máximo 32/36 caracteres por linha, mas para ser uma legenda com uma única linha, ela tem que ter no máximo 28 caracteres. Passou desse número ela tem que ser quebrada em duas linhas. E em que palavra quebrar a legenda? Aí é que o spotting entra. O ideal é sempre quebrar a linha numa pontuação. Pode ser vírgula, dois pontos, ponto final, ponto de exclamação e interrogação, mas nem sempre é possível. Se não tiver pontuação pra quebrar, quebre sempre depois do verbo. E nunca separe sintagmas.
Um exemplo do que fazer:

Capitolina é
uma revista online independente.

>> Quebrar a linha depois do verbo. Não separar “revista” de “online”.

Bem, isso tudo foi pra gerar um arquivo de legenda. Você traduziu, fez o spotting certinho, timeou. Tá pronto. E agora? Como ela aparece na tela da TV? Há dois tipos de legenda. A legenda que é queimada no programa de TV e a legenda eletrônica. Sabe quando você tá zapeando a TV a cabo e você consegue ter a opção de ver um programa com legenda no áudio original, mesmo ele aparecendo dublado a princípio? Isso é a legenda eletrônica. Ela não fica queimada junto com o arquivo do vídeo. Aí você pode colocar ou tirar do seu programa. Se a legenda ficar queimadinha no arquivo, bem, aí ela precisa passar por um finalizador de vídeo, que queima a legenda no programa. Mas pra isso precisa de um outro programa — o Subtitle Workshop não faz isso.

As capitolinas me perguntaram qual é a melhor legenda, a branca ou amarela. Isso fica a gosto do freguês. Eu prefiro legenda amarela. Mas se usar a branca, por favor, coloque uma borda preta, senão vira legenda de cinema e legendas de cinema são horríveis para ler.
Elas também me perguntaram como faz com expressões em inglês. Bem, tradução é complicado porque sempre tem coisas que se perdem. Não tem como traduzir algo fielmente pois há piadas que não dão pra fazer. Mas expressões têm sempre como adaptar. Basta saber qual é o equivalente. Há muita pesquisa na hora de se fazer uma tradução. Existem dicionários específicos só pra expressões, outros só para termos técnicos e assim por diante. Um bom tradutor faz muita pesquisa. É um trabalho bem complicado, na verdade.

A última dúvida que recebi foi: por que a dublagem e a legenda são tão diferentes?
Bem, primeiro porque quem faz a tradução da dublagem e a tradução da legenda não são a mesma pessoa. Segundo porque na dublagem a tradução tem que se encaixar com o tempo de fala dos personagens. Ela tem que parecer mais como as pessoas falam na vida real. E a legenda tem que ser resumida o bastante para caber num espaço curto de tempo. Eu não tive muito contato com tradução para dublagem, esse é o máximo que eu consigo responder.

Espero que tenha sanado muitas de suas dúvidas. E lembrem-se do trabalhão que dá para fazer as legendinhas dos seus programas na TV, da quantidade de pesquisa e de regras que elas precisam se encaixar e deem o devido valor para a área.

Se vocês tiverem mais dúvidas, deixem nos comentários que tentarei respondê-las depois.

*o número de frames, ou frame rate, de um produto audiovisual depende da onde ele será exibido.

Georgia Santana
  • Coordenadora de Revisão
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Esportes

25 anos, do Rio de Janeiro, mas passou a primeira infância em Natal - RN. Estuda Biblioteconomia na UFRJ. Assiste a qualquer tipo de competição esportiva e lê muitas biografias / autobiografias e já chorou de emoção ao comer caldinho de sururu. Odeia barulhos, luz artificial e frio. 90% lufa-lufa, 10% sonserina.

  • Bianca da Costa

    Sou tradutora audiovisual, mas a maioria dos meus trabalhos é tradução para dublagem e, posso lhe dizer, quem faz a dublagem, às vezes, também faz a legenda. Um exemplo disso é a maravilhosa Dilma Machado que, além de fazer a tradução para dublagem, faz a legenda de Game of Thrones.
    Por que a legenda é diferente da dublagem? Primeiro, a legenda precisa ser formal e a dublagem precisa ser coloquial (com exceção de filmes de época e personagens mais formais). Quanto mais próximo do jeito que falamos, melhor.
    Segundo, a sincronia da dublagem, às vezes, não é só o timing da boca do personagem. Há, também, a sincronia pela forma que a boca faz ao dizer uma palavra. Por exemplo, ontem fui assistir uma dublagem de uma tradução minha. Eu havia traduzido “dude” por “cara” e, no contexto, cabia um “não” no lugar do “cara”. A forma que boca faz para dizer “não” é muito mais parecida com a forma que a boca faz ao falar “dude”.
    Além da sincronia pela forma, temos também existe a sincronia pelo som. Algumas empresas pedem que a sincronia seja feita pelo som. A visualização fica mais clara no estúdio porque podemos ver as ondas de som, mas, para simplificar, sempre que o personagem abrir e fechar a boca, o dublador tem que abrir e fechar a boca. Às vezes isso cria falas com pouca fluidez e deixa o texto estranho, mas a métrica é o que importa nesse tipo de filme. Por exemplo, tinha um filme que a frase em português tinha ficado “eu odeio aquela mulher” e as pausas pra caber ficaram “eu odeio aquela — mulher”. Ficou estranho em português, mas era a métrica a ser seguida e, na maioria das vezes, essa métrica afeta diretamente a tradução.
    Claro que, como tudo no mundo da tradução, o contexto é o que rege o que entrará dessas sugestões e o que não entrará.
    O que devemos entender é que, apesar dos dois tipos serem classificados como tradução audiovisual, cada tipo de tradução tem as suas peculiaridades e ferramentas e, por tanto, resultam em textos bem diferentes um do outro.
    Enfim, obrigada pelo artigo!
    Beijos ;*

  • Sylvio de Alencar

    Acabei de assistir um filme muito bonito, In The Air, e muito bem legendado.
    No arquivo .srt está um nome, SiNNERS, que considerei como sendo uma empresa de legendagem.
    Fui atrás para mandar um elogio por escrito para os profissionais que fizeram este trabalho, mas não encontrei esta suposta empresa.
    Vc poderia me ajudar?

    Pelo que percebo, vejo um prazer inerente à sua fala ao nos expor sobre a legendagem. Aprendi a respeitar muito, esse trabalho. Está tão intrinsecamente ligado ao filme que…, é um imenso prazer ao perceber que entendemos um filme e o apreciamos em sua totalidade, por causa de uma legenda bem feita.
    Taí uma atividade à qual me entregaria…!
    90% lufa-lufa?? Ôxe, vou ver o que isso significa, não me lembro mais quais as características dessa turma…! Não é a turma do Malfoy, é?

    Abraço!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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