3 de junho de 2015 | Tech & Games | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Turing e o Jogo da Imitação

Em uma guerra, armas de fogo nem sempre são as mais poderosas. Muitas vezes, a informação – principalmente aquelas que são guardadas sob sete chaves – é quase o bastante para vencer uma guerra.

É claro que informação e comunicação não são poderosos apenas numa situação abertamente bélica. Se fosse assim, não teria tanta gente por aí lutando pela democratização da mídia ainda hoje. Mas, na guerra, uma pequena informação pode ser suficiente para que, em questão de segundos, haja a possibilidade de matar ou de salvar centenas de pessoas.

É na Segunda Guerra Mundial que se passa o filme de que estamos falando, e os dilemas enfrentados pelos detentores da informação são exatamente os de escolher friamente quem morre e quem vive. Um grupo de pessoas é contratado pelos britânicos para quebrar “Enigma”, código usado na comunicação dos alemães que formam o “projeto Ultra”. Vocês podem imaginar que, para realizar este trabalho, foram contratadas as pessoas mais inteligentes da área. Podem imaginar também que quem frequentava as universidades nos anos 1940 e tinha credibilidade no meio acadêmico eram homens brancos héteros, né? E então, portanto, todos os que trabalharam no projeto eram desse jeito? Felizmente, errado!

Apesar da maior parte da equipe ser, sim, formada por homens hétero, há duas exceções à regra, que aliás se revelarão os grandes expoentes intelectuais do projeto: um homem gay e uma mulher.

Mas não pensem vocês que isso era tratado com naturalidade! Joan (a mulher) sofre muito preconceito no processo de seleção para a vaga, e tem que mentir para seus pais para poder trabalhar no projeto, enquanto Alan Turing (o homem) passa por uma situação ainda mais severa: ao final do projeto, ele é forçado a realizar castração química via medicamentos hormonais, tratamento geralmente imposto a estupradores e pedófilos, o qual ele foi obrigado a realizar somente como castigo por ser gay.

Agora, é absurdo que qualquer ser humano passe por essa situação, mas isso é ainda mais estarrecedor quando pensamos que ocorreu com a pessoa que desenvolveu uma tecnologia altamente avançada para a época – que depois veio a ser usada na criação do computador -, e mais ainda que nós não nos apropriemos da história dessa pessoa. Não aprendemos sobre isso nas aulas de história, mas se Turing não tivesse quebrado o segredo da “Enigma”, provavelmente a guerra se estenderia por muitos mais anos, o que significaria mais mortes do que as que já ocorreram.

Será que conheceríamos mais sobre a vida de Turing se ele tivesse sido hétero? Bom, não dá pra saber, pois ninguém aqui consegue prever o futuro, né? Por mais que a historia nos dê muitos indícios sobre o que vai acontecer no futuro, as coisas não seguem uma relação de causa-consequência tão restrita. Mas, bem, seria muito mais provável que sua história fosse conhecida, né?

Além do mais, se Turing já sofreria homofobia em qualquer profissão, a ocupação que ele teve foi uma das mais homofóbicas possível, e é até hoje. A Carol já tratou aqui na Capitolina sobre o 4chan, e sobre como é comum, dentre as pessoas envolvidas com tecnologia, certas práticas opressivas. Ainda na revista, nós temos uma ex-colaboradora, a Camila Achutti que tem um amplo trabalho sobre mulheres na computação, começando quando ela entrara no curso de Ciências da Computação na USP e se deparou com uma sala que só tinha homens, com exceção dela. Esses trabalhos são tão fundamentais porque é realmente uma cultura da área de tecnologia que ela seja tão agressiva com quase todas as minorias sociais. Talvez seja consequência do véu que é criado pelo anonimato ou pela facilidade de criar falsas identidades na internet. Mesmo que se assuma a sua identidade verdadeira, o fato de estar sozinho só com uma tela nos permite, infelizmente, fazer coisas que nunca faríamos sentados de frente para alguém.

Mas, graças a Deusa, podemos nos inspirar na Camila, no Turing e na Ada Lovelace. Podemos, juntos e juntas, dizer que não aceitaremos uma tecnologia e uma internet pensadas para quem acha que determinar o papel de qualquer minoria social em qualquer espaço. Podemos, se tivermos força coletiva e dedicação, ser os transformadores de qualquer ciência, para que ela não seja racista, machista, LGBTfóbica, ou o que seja. Para que no futuro, meninas não tenham que colocar nomes falsos para jogar qualquer coisa, nem tenham vídeos e fotos íntimas espalhadas por aí. Para que, no futuro, Turing vire monumento, e não rodapé de arquivo histórico.

Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

  • Luiza Marques

    Esse filme é incrível! Fiquei boba com o que fizeram ele passar apenas por ser homossexual, mesmo apesar de ter inventado algo que acabou com a guerra e com os nazistas… É triste parar para pensar no que o homem é capaz de fazer com o próximo por uma simples diferença de escolhas…

    http://www.lelouie.com.br/

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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