1 de janeiro de 2015 | Artes | Texto: | Ilustração: Bia Quadros
Turma da Mônica e representatividade

Sempre fui fã da Turma da Mônica. Talvez o meu personagem favorito na minha época de criança fosse a Magali. Não tinha uma identificação direta, era só o fato de ela se vestir de amarelo e ser amiga da Mônica. Também seus quadrinhos eram mais divertidos, em minha opinião. Lia o mesmo quadrinho sempre e não vou negar, fez parte da minha infância. E sim fui influenciada. Certas histórias fizeram parte da minha vida, até palavras em inglês aprendi. Porém à medida que fui crescendo vi alguns problemas em seus quadrinhos.

Não tão recentemente um aluno negro de uma escola pública de Nova Iguaçu (RJ) pintou todos os personagens principais com o lápis marrom e justificou a sua atitude dizendo que “(…)Estou cansado de só ver personagens brancos. Sou muito orgulhoso de ser negro”. Mauricio o respondeu dizendo que era “Impossível contar histórias brasileiras sem essa mistura linda de cores e valores. (…) Pra mim não há raça branca, negra, amarela… Pra mim existe a raça humana”. Esta atitude levou um monte de gente a pensar (inclusive eu) sobre a falta de “representatividade” nos quadrinhos da Turma da Mônica. Claro que há personagem negro na história. Porém se resumem a 4: O Jeremias (que não é principal, ou seja, não tem uma revista só para ele e aparece muito de vez enquanto) e mais 3 jogadores de futebol (Pelé, Ronaldinho Gaúcho e Neymar, que também aparecem jogando futebol e não mais nada além disso).

Mas se o Brasil é um país que tem metade de sua população negra, por que dentro de um monte de personagens somente 4 são negros? Na Turma da Mônica Jovem a personagem Creuzodete foi dita pelos editores que é uma personagem negra. Porém ao vê-la desenhada nenhum traço negro aparece aí. Sua pele é pintada como os outros personagens brancos e seu cabelo é cacheado. No Chico Bento Jovem não há um personagem negro (mesmo mostrando uma diversidade cultural mundial) e no infantil o único é o Saci Pererê. A bondade é representada pelo Anjinho, que sempre é bom e é loiro de olho azul. Claro que ele é o principal do “céu”, em alguns momentos aparecem outras pessoas junto com ele. Curiosamente, não há nenhum negro neste céu como anjo.

Há outra discussão sobre o personagem principal Cascão, nacionalmente conhecido por gostar de sujeira. Muitos associam o fato dele ter cabelo crespo e seus pais possuírem traços negros. Daí ser negro é problemático já que ele é sujo, não gosta de banho, preguiçoso e não gosta de estudar. E, mesmo adolescente, estas características infantis permanecem, o que faz entender que ele não evoluiu como os outros membros da turma (o Chico Bento, inclusive, está fazendo faculdade – uma realidade distante para quem mora no interior e é pobre). Porém, há uma discórdia já que a pele é salmão e o próprio Mauricio disse que “em uma de suas aventuras, os amigos o limparam com um aspirador de pó e descobriram que não só ele é branco, como tem olhos azuis”. Cascão, para alguns, é considerado pardo ou “negro-mestiço”, o que não diminui a questão.

Há sim a diversidade nos quadrinhos da Turma da Mônica, porém ela é retratada como a interpretação literal da palavra minoria, já que há uma representação de cada uma (um cego, uma cadeirante, uma feia, uma gorda, um gay…). A palavra “minoria” pode ser a representação sociopolítica e não socioquantitativa, como muitos deveriam saber. Representar a minoria ajuda, mas será que é necessário que haja uma representação maior? Há muito foi dito o fato de não ter nenhum gay na revista, tanto jovem quanto infantil. Num quadrinho de 2009, um personagem (que não retornou) deu a entender que fosse gay. A rejeição é clara, muitas pessoas não gostaram do que viram e claramente Mauricio, que chegou a dizer que “a turma da Mônica não levanta bandeira”, não o colocou mais em nenhuma outra história. O próprio comentou que “Tudo tem o seu tempo. E, logicamente, quando acabarmos com a homofobia, podemos pensar sobre.”

Há de se ter cuidado para que os temas sejam aceitos pela maioria dos leitores. Tem muita gente “agressiva”. Contudo, será que Maurício está correto em ignorar completamente esses assuntos? Não “levantar uma a bandeira” é, mesmo, uma boa para as crianças/adolescentes? Para Mauricio o personagem, aliás, não é gay, o público vai assumir se é ou não. Porém já se passaram 5 anos, e o personagem não retornou… Será que Mauricio não gostou da ideia?

Quanto às mulheres, elas são tratadas de uma forma diferenciada nos quadrinho de Maurício. O fato das histórias do Piteco, por exemplo, o homem sempre bater na cabeça da mulher amada e puxá-la pelos cabelos é um estereótipo ancestral que não é nem um pouco bom para ser assumido por quem está se desenvolvendo. Em contraponto temos a Mônica, forte e não submissa, uma menina com opinião. Mas será que é legal ela sempre ser perseguida (e é a única) por ser “gorda”? Claro que não podemos esquecer que crianças se agridem o tempo inteiro, pegando uma diferenças e transformando em algo muito maior do que de é. E em algumas histórias mostram que a implicância que o Cebolinha tem com ela não passa de um amor escondido. Mas será que isso tem que ser sempre incentivado? Será que não poderia rolar algo relacionado a buylling? Uma história sobre isso, por exemplo? Outro fato que incomoda é que as mães dos personagens não trabalham, sim os pais. Pode até ter sido uma realidade nos anos 1960/1970, mas não é necessariamente a de hoje. E por que a menina brinca de casinha e menino brinca de futebol, “tão somente só”? Há uma definição forte sexista (mulher faz isso, homem faz aquilo) que transpõe alguns personagens femininas fortes (o caso da própria Mônica, da Tina e da Magali por exemplo).

Mauricio de Souza retrata sua infância e traduz a vida de seus filhos em quadrinhos, e isso é algo mágico. A forma como ele desenha cada personagem e como isso atravessou gerações é algo admirável. Mas me parece que certas coisas não foram atualizadas. Algumas ideias antigas dos anos 1960 ainda permanecem em quadrinhos atuais. Ele tem um medo claro de defender certas causas de cidadania que ajudariam um monte de gente (criança e adolescente, principalmente). A representatividade da diversidade precisa sim ser mostrada. Isso ajuda a formar um indivíduo. Como falei lá em cima, fui criada pela Turma da Mônica e muita coisa aprendi com os quadrinhos. Desejo que no futuro haja uma igualdade de fato nos quadrinhos.

Para ficar bem claro, Mauricio de Souza não é o único que não pensa tem a representatividade do jeito que ela deveria ser construída (“minoria” como principal e não como secundário) em seus desenhos. A Disney, Os Simpsons, os quadrinhos da DC Comics, Hanna Barbera e outros, também o fazem há anos.

Bia Quadros
  • Coordenadora de Música
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Ilustradora

Bia na verdade é Beatriz e tem 20etantos anos. É do RJ, nunca saiu de lá e é formada em Artes Visuais. Transita entre ilustrações, pinturas, textos, crianças e frustrações. Tudo que está ligado a arte faz, sem vergonha e limite. Já fez algumas exposições, já fez algumas vitrines, vive fazendo um monte de coisa. Uma Metamorfose Ambulante.

  • Estel

    A madame Creuzodete tinha traços não brancos nas primeiras aparições, inclusive em uma historinha ela aparece com traços claramente negros. Mas o google só encontrou a versão embranquecida e “enshoujada” da tmj (que é outra coisa bizarra) :/
    A questão do Cascão sempre me soou muito problemática, também, tanto pela leitura racial quanto pela associação com seu gosto pela sujeira.

  • https://www.tumblr.com/blog/leandroryoko Leandro Ryoko

    Meu espanto foi ver que o Cascão, que é visto como pardo e com cabelo crespo (a maioria aqui no meu bairro, com um tom de pele clara, mas com cabelo crespo), perdeu seus cabelos crespos na escolha do elenco do filme com atores. E ninguém fala nada. Triste. Não adianta jogar a culpa no “não tinham candidatos assim”, pois quem escolhe o elenco é que vai buscar. E muitas crianças, que nem são atores, estão em filmes por aí e aprendem a atuar. Nem cabelo crespo é mais permitido. E todos os desenhistas que fizeram homenagens à turma da mônica colocam o cascão com cabelos crespos e não ondulados. O Casão é mais ou menos nesse tom de pele e nesse estilo de cabelo: http://simaigualdaderacial.com.br/wp-content/uploads/2017/03/Julia-300×300.jpg

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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