11 de março de 2015 | Tech & Games | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
Um breve tour de máquina do tempo: o feminismo
Ilustração: Dora Leroy

SALA DE OPERAÇÕES ULTRASSECRETA – ANO 3015

Na vibe do Dia Internacional da Mulher, decidimos tirar a poeira da nossa velha máquina do tempo e dar uma voltinha por alguns momentos da História em que mulheres ergueram as suas vozes.

Seria de pensar que é só apertar um botãozinho e vupt!, aqui estou, voando num pterodátilo ou assistindo a um torneio sangrento de gladiadores na antiga Roma (não recomendo). Mas assim como navegar é mais fácil com ventos favoráveis, nós precisamos seguir os ecos no passado para chegarmos a um lugar-tempo determinado. Alguns são simples de alcançar. Outros, praticamente impossíveis. Por isso, seguiremos essas vozes o quanto for possível.

Todos prontos? Ok, vamos lá!

Em algum momento da Idade Média…

Nem toda a resistência é óbvia e expressa. Algumas (muitas!) se dão no dia a dia, através de pequenos gestos espontâneos – várias vezes sem sequer se perceberem ou nomearem “resistência” –, que dificilmente ficam registrados na História sob um nome específico. As “bruxas” medievais entram nessa categoria.

Perseguidas em diversos países por não se enquadrarem nos ideais de feminilidade de seu tempo, essas mulheres tiveram as vozes apagadas exceto pelos registros de seus próprios inquisidores. Ainda assim, sua batalha diária silenciosa para simplesmente existirem merece ser lembrada nos dias de hoje.

1792

Certo, vamos fazer a segunda pausa do nosso tour aqui.

Ainda não temos uma “revolta popular” ou um movimento “feminista”, mas uma semente importante é plantada nessa época. Você provavelmente já ouviu falar da Mary Shelley, ou, melhor, de seu livro mais conhecido, o Frankenstein. Mas conhece a história da mãe dela, a Mary Wollstonecraft? Pois é.

Wollstonecraft nasceu num período em que o racionalismo trazido pela corrente Iluminista colocou em xeque muitas das crenças vigentes até então. Como essa teoria tinha na ponta da lança a ideia de que praticamente todo o nosso conhecimento e “valor” como seres racionais vinha de nossas experiências de vida e da educação que tivemos, logo começaram a ser questionadas diversas verdades a respeito de privilégios de origem e classe. E de gênero, claro.

É no ano de 1792, na Inglaterra, que Wollstonecraft publica o seu A Vindication of the Rights of Woman, considerado um dos primeiros tratados modernos de defesa à emancipação feminina e uma resposta ao Emílio de Rousseau (que, dentre outras coisas, instruía uma educação diferenciada e servil para as meninas). A autora defendia que, se as mulheres tivessem o mesmo acesso à educação que os homens, poderiam ser tão capazes quanto eles.

Ilustração: Dora Leroy

FIM DO SÉCULO XIX E INÍCIO DOS ANOS XX

Em 1848, Nova York, ocorre uma das primeiras reuniões pelos direitos das mulheres. O foco estava no direito ao voto e à educação, e igualdade de gênero perante a lei. É nesse período que o que conhecemos como feminismo nasce de fato.

Pouco mais tarde, em 1911, houve um incidente conhecido como “incêndio na fábrica da Triangle Shirtwaist”, também em Nova York. Muita gente atribui a esse evento a data que mais tarde veio a ser conhecida como Dia Internacional da Mulher, mas na verdade o incêndio aconteceu em um 25 de março.  A tragédia, que deixou dezenas de mortos (em sua imensa maioria mulheres), foi obviamente agravada pelas péssimas condições de trabalho – na época, era comum que fábricas fossem trancadas com os trabalhadores dentro durante as horas de serviço, para evitar que saíssem mais cedo ou furtassem materiais.

O ocorrido, porém, não só acabou por sedimentar mais uma denúncia à exploração do trabalho proletário e estimular a efetivação de normas trabalhistas mais humanas e em condições mais seguras, como se tornou parte da bandeira de muitos movimentos feministas, que podiam jogar na cara da sociedade que sangue feminino também escorria na luta por melhores condições de trabalho e educação.

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Foi em 1917 que realmente ocorreu o que acredita-se que tenha marcado o Dia Internacional da Mulher. A data em si já havia sido proposta em 1910, mas ficou grifada de fato pelos acontecimentos que se seguiram sete anos mais tarde, na Rússia. Em 8 de março de 1917 uma série de passeatas contra a entrada da Rússia na Primeira Guerra Mundial, e por ocasião formada e liderada por mulheres que lutavam por melhores condições de vida e trabalho, se estendeu por Petrogrado, marcando o início de uma bobeirinha que hoje conhecemos como Revolução Russa.

Final dos 1960

Nesta década, tem início o que costumamos chamar de “segunda onda” do feminismo. Na esteira dos movimentos anti Guerra do Vietnã e de uma nova configuração reprodutiva trazida pela criação dos anticoncepcionais e pela maior participação feminina na jornada de trabalho do pós-Segunda Guerra, as principais demandas eram pelo direito à sexualidade e controle sobre o próprio corpo.

Também houve maior difusão dos ideais feministas – até então relativamente restritos à elite branca – entre outras classes consideradas minorias, como negros e homossexuais.

Meados de 1990 e toda a ~Era da Web~

Ilustração: Dora Leroy

A chamada terceira onda do feminismo começa num contexto de pós-modernidade e de desmontar até mesmo ideias dos primeiros momentos do feminismo. Dentre várias características, há uma reapropriação e ressignificação irônica forte de termos opressores como “vadia” ou “slut”, que são prontamente desmontados e remontados numa configuração própria. O “feminino”, em todas as suas faces sociais, emocionais e culturais, tende a ser abraçado novamente: por que um batom vermelho ou uma saia seriam símbolos de menor competência do que uma calça ou um cigarro?

A internet tem um papel fundamental na popularização das ideias, e a Capitolina se encaixa aqui =)

DE VOLTA AO FUT… SALA DE OPERAÇÕES ULTRASSECRETAS – ANO 3015

E estamos de volta. Lar doce lar. A visita guiada termina aqui.

Mas… Como é o mundo em que eu vivo, você pergunta? Bem, é normal pensar que a história funciona em escadinha, que “evoluímos” para melhor com o passar dos anos e que, uma vez conquistados, os direitos são mantidos cristalizados para todo sempre. Mas, se querem minha opinião, a História é mais como uma onda, sabem? Ela avança e recua, desordenada e quebrando-se sobre si mesma. Ela não estará pronta até que o tempo acabe. Muita coisa se passou nesses mil anos que separam este texto da viajante do tempo do século XXXI, muitas marés foram e voltaram, muito sangue e muitas lágrimas caíram, mesmo depois de tudo o que aprendemos.

Mas aprendemos e continuamos a caminhar e a lutar por esse mundo que vemos em sonhos, ou numa máquina do tempo.

Ilustração: Dora Leroy

Vanessa Raposo
  • Coordenadora de Tech & Games

Vanessa é carioca, mas aos 25 anos sente que o mundo é grande demais para se pertencer a só um lugar. Por isso, passa boa parte do tempo em paisagens imaginárias e planejando suas próximas viagens - que podem ou não acontecer (“As passagens pra Plutão ainda estão disponíveis, moço?”). Gosta de filmes da Disney e de musicais mais do que dizem ser aconselhável para sua idade. Quando não está pseudofilosofando sobre o papel dos videogames na cultura pop, pode ser encontrada debruçada sobre seu laptop, arrancando os cabelos por alguma história que cisma em não querer ser escrita. 

  • Noruniru

    Texto maravilhoso! Ilustrações fofíssimas! <3

  • Alice

    Adorei o texto (e o fez, whovian rules)!

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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