22 de outubro de 2015 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração:
Um caso de amor com o Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro

Imagem: Sony Classics / The Diary of a Teenage Girl

Eu sou uma carioca que detesta morar no Rio de Janeiro. Tenho problemas demais com esta cidade (reclamo um pouco até de boca cheia porque tenho um monte de privilegios por morar aqui). Só que tem uma época, no finalzinho de Setembro ou início de Outubro, em que não tem cidade melhor do mundo para se estar que o Rio. Essa é a época que anualmente acontece o Festival de Cinema da cidade. E sou só amores com esse lugar que eu moro nessa época. O festival tem um monte de problemas, todas as salas de cinema participantes são concentradas em uma só zona da cidade (a mais rica, claro), se disputa a tapas alguns ingressos, já fui em várias sessões com problemas técnicos infinitos, alguns tão grandes que a sessão já chegou a ser cancelada. Mesmo não sendo perfeito, ainda é uma das melhores épocas pra mim. São duas semanas que eu respiro cinema, vejo filmes todos os dias, no final de semana chego a ver três no mesmo dia, faço um verdadeiro tour cinematográfico pela cidade atrás dos filmes que quero muito ver. É uma maravilha e levanta demais o meu humor.

 

Montar o meu horário é uma verdadeira arte. Tenho que avaliar toda a programação, destacar em cores seguindo a intensidade em que quero ver os filmes, anotar todos os dias e horários de cada um e fazer uma verdadeira manobra pra caber tudo que eu quero ver e aceitar que alguns vão ter que ficar de fora. Agora que o festival terminou, fiz aqui para Capitolina uma pequena listinha dos destaques de tudo que eu vi, uns muito positivos e outros nem tanto. Então, se você não mora no Rio ou por algum outro motivo não pôde participar desse evento lindo, vem comigo ver o que vale a pena caçar por aí, para conseguir ver.

 

THE DIARY OF A TEENAGE GIRL (2015)

Esse filme foi uma surpresa de sentimentos. Eu vi o trailer e achei uma graça. Achei a estética linda e vi história de uma adolescente se descobrindo, exatamente o tipo de história que eu gosto. Não vi mais nada sobre ele e fui pro cinema. O filme me deu um susto. Ele conta a história de Minnie Goetze, uma jovem de quinze que acabou de transar pela primeira vez, no início dos anos setenta em São Francisco. O susto foi que Minnie transou e acabou desenvolvendo um caso com o namorado de sua mãe vinte anos mais velho que ela. O susto foi que todo clima feliz e fofinho que foi passado no trailer pra mim e existe sim no filme é misturado com todo o peso de uma relação abusiva. Na real é justamente essa mistura dos dois que deixa o filme tão incrível. Minnie é levada a sério pelo filme, todos os seus sentimentos, inseguranças e medos estão lá e são compreensíveis e altamente identificáveis pra qualquer um que ainda é ou já foi um dia adolescente, principalmente mulher. Ela romantiza demais seu relacionamento, mas em nenhum momento o filme romantiza, fica claro que é uma situação de abuso sem ser moralista e isso é uma linha muito difícil de ser traçada. Além desse peso todo, o filme tem um humor muito gostoso e muito divertido de ser assistido. Outro ponto importante: ele coloca Minnie como um ser sexual que tem sim vontades e desejos. Estamos tão acostumados a ver meninos adolescentes querendo transar e gostando disso, querendo fazer todas essas descobertas, mas meninas não. É como se isso só estivesse acontecendo para eles. É refrescante e importante demais ver Minnie e todos os seus pensamentos em sexo.

 

CALIFÓRNIA (2015)

Não sei nem por onde começar a falar deste filme maravilhoso que eu amei tanto. Por uma conecidência louca da vida acabei vendo esse filme logo depois do Diary of a Teenage Girl e é muito interessante como os dois filmes conversam entre si. Estamos novamente entrando na vida de uma adolescente se descobrindo e crescendo por esses anos benditos e malditos que é a adolescência. Agora estamos falando de Teca e estamos em São Paulo no meio dos anos oitenta. Novamente temos uma diretora que consegue olhar para sua protagonista e colocar em tela seus medos, inseguranças, desejos e vontades, sem menosprezá-la, fazendo dela uma personagem crível. Ela consegue mostrar o quão complicada é essa fase e leva Teca a sério. O filme também mostra o quanto pode ser prejudicial justamente infantilizarmos adolescentes. Durante quase o filme todo existe um segredo que a familia não conta pra ela, para talvez proteger, mas que só deixa ela mais confusa. O filme fala sobre periodo de transição do país da ditadura para democracia, fala sobre homossexualidade e como era muito mais difícil falar sobre isso, justamente porque o filme também fala de AIDS e como essas duas coisas eram atreladas injustamente naquela época. A trilha sonora tambem deve ser mencionada. O filme nos coloca exatamente nos anos oitenta muito pelas músicas e pelo amor que Teca tem por isso. Não falta humor, diversão e momentos constrangedores que são engraçados justamente porque são tão reais. Califórnia é um filme sobre adolescentes nos anos oitenta, mas poderia ser sobre a minha adolescência nos anos 2000 ou sobre a sua que está acontecendo agora. Ele é especial assim.

 

UM DESLIZE PERIGOSO (DOPE, 2015)

Agora vamos para um filme que ainda trata de adolescência, mas em um contexto bem diferente. Dope conta a história de Malcolm, um jovem de dezessete anos que mora em Inglewood, na Califórnia. Um bairro pobre cuja população é majoritariamente negra. Malcolm é inteligente, nerd e ousa sonhar em ir para uma faculdade de prestígio mesmo sendo negro e pobre. Quando eu vi o trailer eu jurava que o filme se passava nos anos noventa, porém se passa nos dias atuais. O personagem principal e os amigos que gostam muito de tudo da época de 1990 e o filme acaba carregando muito essa estética pisando fundo na trilha sonora hip-hop da década em questão, que é ótima. O filme é uma comédia de aventuras, Malcolm e seus amigos acabam tendo que lidar com traficantes quando esbarram com eles fugindo de bullies e por acidente são colocados em uma disputa por venda de drogas e armas. Tudo parece uma grande aventura louca, divertida e surreal. Até que não, até que a narrativa te mostra exatamente o quanto aquilo pode ser real, o quanto o racismo é grave, estrutural e cruel. Um filme importante de ser visto.

 

GRANDMA (2015)

Confesso que grande parte do motivo de meu interesse por este filme era Lily Tomlin. Ando obcecada por Grace e Frankie (2015), série da Netflix que ela atua junto com Jane Fonda. Não me decepcionei. Lily está ótima, nos mostrando a excelente comediante e atriz que é. O filme conta a história de Elle, personagem de Lily, uma acadêmica desempregada que está tentando superar a morte de sua esposa depois delas terem ficado trinta e oito anos juntas. Sua neta, Sage, chega um dia precisando de 630 dólares para um aborto. No meio das dívidas hospitalares que a esposa de Elle deixou ela se vê sem ter como ajudar a neta imediatamente, então as duas partem na busca para arranjarem esse dinheiro. O filme lida muito bem com as questões feministas, Simone de Beauvoir é citada algumas vezes. Fica bem natural que não há nada de errado com Sage fazer o aborto, fica claro que é isso que guia o filme sem isso ser jogado na nossa cara, o que é ótimo. O filme não é exatamente sobre esse “feminismo político”, e sim um mais pessoal, é sobre as relações entre mulheres, sobre mães, filhas e netas e como são elas que nos ajudam e nos apoiam. Também é um filme sobre perdas e como a superação é difícil. Uma comédia rápida, divertida, que pode causar uma lágrima aqui e outra ali no meio das gargalhadas, o melhor tipo de comédia.

 

MALALA (He Named Me Malala, 2015)

Já falamos aqui na Capitolina quem é Malala e só por isso já sabia que um documentário sobre ela era algo que eu precisava ver. O filme se passa na Inglaterra onde Malala vive hoje com a família e conta com entrevistas dos membros da sua família, principalmente, Malala e seu pai. Mas só esses últimos que contam a história da menina e, consequentemente, a história do Vale de Swat e do Paquistão onde moravam. Com ajuda de várias pequenas animações conhecemos a história dessa jovem de dezessete anos que já tem tanta coisa para contar. O filme alterna entre esses momentos mais pesados contando a sua história no Paquistão, como o dia fatídico em que ela levou um tiro do Talibã e vários momentos engraçados e leves, mostrando que além disso tudo ela é uma adolescente que vai à escola e se preocupa com provas, tem medos e dúvidas, se interessa por garotos, briga com os irmãos e coisas do tipo. O legal do filme também é mostrar como a religião ainda é uma coisa importante pra ela, que ela mantém suas ideias de igualdade de gêneros e continua com sua fé islâmica. Pra ela, uma coisa não elimina a outra. O que pode abrir uma imensa gama de debates, mas é uma perspectiva interessante e importante. Minha única ressalva é que o enfoque é muito na relação dela com o pai. Obviamente, ele é uma imensa influência na vida da menina, o nome do filme em inglês é He Named Me Malala, em tradução livre “Ele me nomeou Malala” deixa claro que o enfoque é neles dois, mas eu senti falta da mãe. Ela aparece em alguns momentos, porém, me parece que está muito de plano de fundo, quando justamente, como Malala diz em um momento do filme, ela (a mãe) foi uma das inúmeras meninas que não pôde estudar que inspiraram ela a querer ficar na escola. Há uma forte influência dessa mãe que quase não aparece no filme.

 

EU, VOCÊ E A MENINA QUE VAI MORRER (Me, Earl and the Dying Girl, 2015)

Esse filme está na lista para justificar a parte de filmes não muito bons. Fui ver muito baseada na parte do trailer em que os personagens recriam grandes clássicos do cinema como diversão, e essa de fato, é a melhor parte do filme. Podia ser só isso. Ele conta a história de Greg. É mais uma história de formação e amadurecimento de um homem branco, cis, hétero e de classe média que já vimos várias vezes. Estou bem cansada dessas histórias de meninos que se automenosprezam e se acham o centro do universo. Esse personagem, especificamente, me irritou demais. Ele detesta meninas bonitas porque, aparentemente, elas são gentis com ele, mesmo não querendo nada romântico e, para ele, isso é muito cruel. Oi? É sério isso, amigo? (sim, é sério). Voltando à sinopse, Greg tem uma fobia social muito louca e não consegue interagir profundamente com ninguém, se mantém meio conhecido de todo mundo para não sofrer bullying e a única pessoa que interage mais profundamente é Earl com quem ele faz os filmes caseiros recriando clássicos, mas não consegue nem chamar o sujeito de amigo. Eis que sua mãe o obriga a passar um tempo com Rachel, sua colega de classe que foi diagnosticada com leucemia, como um favor à mãe da menina. Então Rachel tem que achar tempo no meio de sua luta contra o câncer para ensinar Greg a interagir com outros seres humanos e a criar laços. A sua clássica manic-pixie-dream-girl. Não achei o humor nem um pouco engraçado e quanto ao drama, eu definitivamente não embarquei. Olhei as pessoas à minha volta chorando e não entendi nada.Talvez, se a história fosse contada do ponto de vista do amigo Earl que é negro, pobre e tem um irmão traficante de drogas ela fosse mais interessante ou se o ponto de vista fosse de Rachel que está prestes a se formar e descobre que tem câncer, a história fosse mais interessante, porém, de Gregs já estou cansada.

 

TANGERINE (2015)  

Agora vamos falar de perspectivas definitivamente não muito representadas. Tangerine conta a história de Sin-dee, uma prostituta transexual que acaba de sair da cadeia na véspera de Natal, descobre que seu namorado, também seu cafetão, a traiu e parte em uma jornada para encontrá-lo e também a mulher com que ele ficou durante esse tempo. O filme foi todo gravado com um Iphone e tem uma estética e linguagem bem diferentes do comum. Confesso que nos primeiros quinze minutos eu fiquei avaliando ele tecnicamente. Pensando em como o diretor e fotógrafo conseguiram fazer certos planos. É sempre muito bom quando um filme desafia esteticamente o espectador e sai do lugar-comum. Tecnicalidades a parte, o filme é extremamente sensível em querer mostrar o mundo dessas mulheres que são constantemente esquecidas. Digo mulheres porque, através de Sin-dee, conhecemos algumas outras personagens que habitam o seu universo. Sua melhor amiga, Alexandra, por exemplo, é minha personagem favorita e a amizade das duas é uma das coisas mais lindas da narrativa. O filme é um frescor de extrema importância porque ele sai de clichês não só na linguagem e fotografia diferentes, mas também em dar a voz a pessoas que são tão frequentemente silenciadas.

 

LOVE & MERCY (2014)

Fechando meu festival, eu vi esse filmão. Filmão nem é no sentido de ser bom ou não, é mais no sentido de ser filme grande, que tem tudo para ser queridinho no Oscar. O filme é uma biografia do músico Brian Wilson, vocalista e compositor da banda dos anos 1960, The Beach Boys.O filme fala especificamente, de dois momentos da vida de Brian: um mais jovem quando ele está construindo o álbum “Pet Sounds”, o disco mais renomado da banda e um Brain mais velho, já nos anos 1990, sofrendo de doenças mentais e maus tratos de psiquiatras. Eu tive um grande problema com o filme: achar a parte dele mais novo muito melhor que a outra. A parte dele jovem é muito mais experimental e por isso muito mais interessante. Até porque o trabalho de Brian no “Pet Sounds” é, também, muito experimental, então faz sentido essa opção e é bem legal de ver. Paul Dano, que interpreta Brian nessa etapa, também está absurdamente bem. Já a outra parte é bem mais convencional e se apoia no lado emocional desse momento sofrido da vida de Wilson. Não nego que essa foi uma história bem triste e que essa parte do filme seja bem feita, John Cusack, que interpreta Brian nesse momento, está assustadoramente parecido com ele. Eu é que achei chato mesmo.Toda hora que ia para esse momento eu ficava querendo que voltasse para o “Pet Sounds”. Fora isso, tudo é uma delicia. Ficar ouvindo a trilha do filme pontuada pelos maiores sucessos da banda é pra voltar pra casa e ir correndo ouvir a discografia deles.

Dani Feno
  • Coordenadora de Audiovisual
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Música

Dani Feno, 26 anos. Quando era criança foi ao cinema ver Rei Leão a primeira vez e se apaixonou por essa coisa de ver filmes. Mais velha viu um seriado chamado Clarissa e pronto, a paixão passou para seriados também. Foi tão forte que agora trabalha em uma finalizadora de filmes e programas de TV, mas o que gosta mesmo é de editar vídeos para Capitolina. Gorda e feminista desde criança também (apesar de só saber que é esse o nome há pouco tempo). Acha que a melhor banda do universo é Arcade Fire e pode ficar horas te convencendo disso. Em Hogwarts é 70% Corvinal e 30% Grifinória.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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