20 de abril de 2014 | Estilo | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Um conto real

A beleza de uma princesa dessas de um conto como esse sempre costuma ser digna de muitos elogios. Acontece a mesma coisa nesse conto: Essa Princesa era lindíssima como a cerejeira em flor, gloriosa como a aurora boreal, etc. Só que Essa Princesa ficava muito fula da vida com toda essa babação de ovo.

“Eu consigo tirar fotografias de insetos bem de pertinho antes que eles me percebam e voem.”

“Tudo bem que eu não sei cozinhar mais nada, mas frango frito igual ao meu não tem!’”

“Ouvi dizer por aí que sou a única princesa no mundo que consegue colocar a língua no cotovelo…”

Essa Princesa era realmente demais pelos mais variados motivos. Mas ela podia ordenar que o arauto berrasse seus talentos nos ouvidos de cada um daquele reino: não surtiria efeito algum. Na sala de jantar, as pessoas continuariam exaltando somente sua aparência. E ponto final.

O que ninguém sabia era que Essa Princesa era muito insegura com sua aparência. Ela se olhava no espelho de sua penteadeira e não conseguia abstrair daquela “coisa horrenda com narinas” (não que eu concorde, palavras dela) bem no meio de seu rosto de porcelana. Para ela não havia boca de morango ou cabelos de cetim que não pudessem ser corrompidos pela distinta e delicada lombada em seu nariz. Sim, até ela, a de beleza inefável, tinha um calcanhar de Aquiles.

Mas nem só de princesa vive um palácio. E, no palácio d’Essa Princesa, era tradicional um baile anual promovido pelo rei para que a realeza da vizinhança confraternizasse. Pelo menos era essa a ideia inicial. Acontece que a festança acabava sendo combustível para a fofoca dos meses seguintes. Fofoca do mal mesmo. Foi assim, meio no telefone sem fio, que a Princesa de Lá ficou famosa.

A Princesa de Lá cantava bem pra caramba. Melhor que se Ariel e Branca fossem gêmeas siamesas cantando em harmonia vocálica. A Princesa de Lá fazia as suas próprias roupas, e tinha muito estilo e esmero – Maria Antonieta invejaria seus suntuosos saiotes. A Princesa de Lá era também a primeira princesa cujas habilidades como espadachim eram reconhecidas pela sociedade.

A Princesa de Lá era incrível pelos mais variados motivos. Mas, mesmo que ela transformasse cuspe em mel, ninguém daria a mínima para o que ela era ou fazia. A Princesa de Lá tinha ficado famosa não porque era incrível, mas porque os outros a achavam incrivelmente feia.

“Mas… é uma princesa ou uma bruxa? Huahuahua!”

“Custava fechar a boca pra diminuir aquele bundão?”

“Acho que aparelho freio de burro não consertava aqueles dentes… Talvez um freio de elefante! Huehuehue!”

Essa Princesa nunca tinha ido a nenhum baile, então só sabia das maldades que lhe contavam. Mas aquele ano seria diferente. Ela tinha crescido e veria tudo em primeira mão, com os olhos livres!

Eis que chega o grande dia! Com ele vem, contanto, uma grande surpresa. Oh, não! Uma grande e horripilante surpresa! Pior que barata na cozinha, lá estava ela: a primeira espinha. Na pontinha do nariz. Justo na pontinha do nariz!

Mesmo com os abalos sísmicos em sua autoconfiança, lá foi Essa Princesa cumprir com suas obrigações sociais de princesa. E ela acenava e sorria e cumprimentava e tinha aquela aura encantada de princesa encantada. Ninguém nem reparou na espinha coberta por uma camada caprichada de corretivo.

Na primeira oportunidade de pausa, Essa Princesa correu para o banheiro para tentar recarregar o sorriso e dar aquela rebocada na cara. Na pia, no espelho ao lado, estava uma menina de fartas sobrancelhas e trajes como Essa Princesa jamais havia visto. E um nariz… Como se pode descrever aquele nariz? Bem, era o nariz com o qual Essa Princesa sempre havia sonhado, pequeno e levemente arrebitado.

De um jeito clichê, a garota puxa papo com Essa Princesa, elogia sua beleza. Essa Princesa prontamente elogia o nariz e o vestido que lhe chamaram atenção. E engataram numa conversa sem fim. Uma estava absolutamente interessada no que a outra tinha a dizer, e vice-versa. Como elas não tinham se conhecido antes? E, naquela noite, elas não falaram com príncipe nenhum. Naquela noite elas se bastaram: conversaram, comeram a valer e comandaram a pista de dança.

Quando chega a hora de ir embora, elas percebem que não haviam se apresentado. A reação quando cada uma disse seu nome foi de espanto.

“Mas… Eu achei que você era feia que nem a manga chupando o cão!”

“E eu achava que você era uma tremenda de uma metida a besta!”

As duas riram daquela situação toda e concluíram (brilhantemente) que besta é quem o disse! Depois se despediram, mas logo tornaram a se ver. E cada vez com mais frequência.
Quanto mais a amizade crescia, mais bonitas elas ficavam e menos elas ligavam pras fofocas de salão. No último baile, o vestido da Princesa de Lá estava mais justo que no baile anterior. Ela e seu bundão estavam gloriosos. E Essa Princesa até colocou um piercing de argola no nariz.

(Um conto não costuma ter epílogo. Mas esse tem e é o seguinte:
Livre de todo o verniz,
sem anões, sem anéis,
com o cabelo gris,
com pés de galinha, pelancas,
dor nas ancas
e imperfeições sutis:
a princesa viveu feliz.)

Julia Oliveira
  • Coordenadora de Estilo
  • Ilustradora

Julia Oliveira, atende por Juia, tem 22 anos e se mete em muitas coisas, mas não faz nada direito — o que tudo bem, porque ela só faz por prazer mesmo. Foi uma criança muito bem-sucedida e espera o mesmo para sua vida adulta: lançou o hit “Quem sabe” e o conto “A ursa bailarina”, grande sucesso entre familiares. Seu lema é “quanto pior, melhor”, frase que até consideraria tatuar se não tivesse dermatite atópica. Brincadeira, ela nunca faria essa tatuagem. Instagram: @ursabailarina

  • bruna

    gostei muito do seu texto ju, muito gostoso de ler!
    beijinhos direto da inglaterra

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos