13 de abril de 2014 | Edição #1 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Um corpo como o seu

A “beleza” não é universal, nem imutável, embora o mundo ocidental finja que todos os ideais de beleza feminina se originam de uma Mulher Ideal Platônica.
O Mito da Beleza, Naomi Wolf

O comportamento feminino é o tempo todo assistido e podado, somos ensinadas a agir de certa forma, a falar com certa tonalidade, ser sempre calma e carinhosa, entre outras coisas. Quando o assunto é moda, as coisas não são diferentes. Somos direcionadas a usar certas roupas que nos façam parecer sempre mais perto do padrão de beleza vigente: mais altas e mais magras – como se qualquer coisa fora disso fosse visto como um desvio ou errado.

Mas o que acontece com aquelas garotas que não se parecem com as das revistas e têm corpos rejeitados e subjugados?

É fácil seguir a moda quando se tem 1,70m de altura e se pesa 55kg. Todas as lojas lhe são acessíveis – em termos de preços e variedade, tu sempre vai encontrar uma peça que te sirva, e se no final tu não quiser levar nada provavelmente não será porque nada te serviu, mas porque talvez não tenha ficado bonito ou o tamanho não tenha sido o melhor. Mas a sensação que certas meninas têm de não poder entrar em metade de um shopping e frequentemente se sentir frustrada porque as lojas mais bacanas não fazem nada que te sirva pode ser arrasador para algumas.

A adolescência é vista como um dos períodos mais importante e decisivos da vida de uma pessoa, uma grande transição onde muitas vezes encontramos quem realmente somos e temos uma grande necessidade de nos expressarmos. O jeito como nos vestimos também pode ser usado como uma maneira de dizer ao mundo certas coisas.

Levando em conta os mais diversos corpos femininos que existem por aí, frequentemente somos obrigadas a não usar certo tipos de roupas, tecidos, acessórios e sapatos, com a finalidade de assim tentar chegar um pouco mais perto do modelo de beleza imposto pela nossa sociedade. Ainda que muitas de nós possamos nos sentir confortáveis e querer usar certas roupas consideradas proibidas (ex: garotas com braços grossos “devem” usar meia manga ou manguinha, na tentativa assim de disfarçar o tamanho real), para o delírio dos gurus da moda.

Pode ser difícil que garotas com corpos maiores se aventurem nessa coisa incrível e cheia de história que é a moda, se passam o tempo todo ouvindo todas as coisas que não podem usar e que precisam disfarçar. Ainda mais quando em todos os cantos que se olha nunca é fácil ver corpos que se parecem com os dessas meninas.

A autora do blog Entre Topetes e Vinis Ju Romano[1] conta em entrevista por email que a moda sempre fez parte de sua vida, que vem de uma família em que todo mundo sabe costurar e fazer roupas e que sempre entendeu a moda como uma arte e forma de expressão.

O blog, criado no ano de 2009, é frequentado por um público bem abrangente e sua ideia inicial era que fosse para mulheres diversas, com “dicas, truques, lugares baratos, (…) O blog não nasceu plus size, ele nasceu para uma menina que não se encaixa nos padrões. Como eu sou plus size, acabei levando o nome.”, conta Ju. Sobre blogs dedicados a pessoas que usam tamanhos grandes, a blogueira comenta que acha bacana veículos tentando representar uma parcela da população que por muito foi esquecida, mas destaca que não se pode quebrar um padrão impondo outro e que é preciso ter bom senso.

O feedback que o blog recebe, segundo Ju, é de “mulheres que conseguiram mudar e ser mais felizes por causa de alguma reflexão que tiveram a partir das postagens. Isso é muito mágico!”. Ao ser questionada sobre a mensagem que quer passar para suas leitoras ela conta que quer que todo o mundo veja as diferenças como uma coisa linda e que cada mulher possa aprender a se amar de verdade e que ninguém nunca a coloque para baixo.

Uma das sessões do blog Entre Topetes e Vinis é “Gorda Pode?” e Ju Romano diz que sim, gorda pode tudo! E isso é uma das coisas mais incríveis sobre o blog, de poder dizer a todas as mulheres que a escolha do que vestir é uma opção dela e de mais ninguém. “Seja corajosa, mulher! Não deixe que ninguém coloque rédeas na sua criatividade sabe? As pessoas têm muito medo de ousar, de ouvir críticas, de se assumir.”

Todas as gerações desde cerca de 1830 tiveram de enfrentar sua versão do mito da beleza. “Significa muito pouco para mim”, disse a sufragista[2] Lucy Stone em 1855, “ter o direito ao voto, a possuir propriedades etc, se eu não puder ter o pleno direito sobre o meu corpo e seus usos.”
O Mito da Beleza, Naomi Wolf

Uma das barreiras que as pessoas gordas têm que atravessar é aprender a ter uma certa autonomia sobre o próprio corpo e as escolhas referentes a ele. Entender que as escolhas que fazemos ao nos vestirmos não têm que ser tomadas para agradar ninguém, mas agradando ao seu próprio gosto.

Ver uma diversidade de corpos na mídia não é apenas um grito que pede que não seja negada a oportunidade a certas mulheres, mas é pensar também que isso ajuda enormemente milhares de outras jovens que precisam de rostos e corpos que lhe inspirem. Que lhes mostrem que é possível, sim, usar tudo aquilo que der vontade e que se sentir confortável consigo mesma e com suas escolhas de roupas é muito mais importante em seguir aquela pessoa da televisão que não sabe nada sobre você, sobre seus gostos e sobre suas vidas.

Mais dicas:
Hoje vou assim – Plus size – Indicado pela Bia Quadros
18 body positive style bloggers you should be following – Indicado pela Sofia Soter. Em inglês.
Miss Amelia Heart – Indicado pela Bia Quadros. Em inglês.

[1]Ju Romano, jornalista repórter de beleza do Portal MdeMulher (Ed. Abril) e autora do blog Entre Topetes e Vinis (www.juromano.com), É apaixonada por moda, beleza e música e por assuntos que rodeiam a vida da mulher. Ama seu corpo, apesar de viver brigando com o espelho e acredita que toda pessoa é única e linda à sua maneira. Luta todos os dias para que cada pessoa enxergue a beleza em si e pela moda democrática.

[2]Sufragistas é como eram chamadas as mulheres a favor do voto feminino, quando o mesmo era proibido.

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

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    Oi, Bruna! Não é fácil ser mulher numa cultura como a nossa, independentemente do seu peso ou altura. Nossos corpos são monitorados a todo momento por opiniões que não foram solicitadas. É difícil sustentar a autoestima quando somos tratadas como objetos de decoração que nunca parecem bons o suficiente.
    Aqui estamos falando de opressão de GÊNERO.

    Agora pegue tudo isso que falamos antes e some a um outro tipo de opressão: a GORDOFOBIA. É um fato indiscutível que nossa sociedade acolhe certos tipos de corpos e rejeita outros, certo? Isso está em todos os lugares, é só olhar para o lado. Pessoas gordas estão fora dessa norma, ou seja, roupas não são feitas para elas, assentos em transportes públicos não são feitos para elas, revistas não são feitas para elas. Nadinha. São invisíveis na televisão e no cinema e rejeitadas no espaço público.

    É sempre triste ver meninas e mulheres não se sentindo bem consigo mesmas. Em nenhuma parte do texto dizemos que quem é magra não sofre com todas essas pressões, mas quando comparadas a mulheres gordas, as magras têm, sim, privilégios. É comum que em textos e conversas que abordem questões relacionadas a pessoas gordas, pessoas não-gordas sintam a necessidade de lembrar que magras também sofrem. Nós sabemos disso e na Capitolina tentamos abranger todos os corpos nos nossos textos e não aceitamos que um padrão seja considerado bom acima de outro (por exemplo, “mulheres de verdade têm curvas”, achamos que todos os corpos são reais e, assim, todas as mulheres são reais, com curvas ou sem), mas no texto em questão estamos falando de um grupo em específico que sofre com questões específicas, como foi exemplificado no começo desse comentário. É importante saber como falar e quando falar. Por mais boa vontade que tu possa ter tido comentando, esse tipo de comentário em textos para pessoas gordas é silenciar um grupo e não abrir um debate para reflexão.

    A opressão de gênero pode fazer com que você nunca se sinta suficiente, mas você tem o privilégio de não sofrer também com a gordofobia. Você tem o privilégio de não sofrer também com o racismo. Imagine acumular tudo isso?

  • Roberta de castro rossi

    Não é legal ser alta e magra. Se você for modelo, sim você é linda, está no padrão do mundo. Mas quando se é uma garota comum é muito ruim. A média de altura da brasileira é de 1,61, eu tenho 1,75, sabe o que é se sentir esquisita e maior que todo mundo, ouvir a todo instante que se eu usar salto vou parecer uma girafa, ou por eu ser magra que eu deveria engordar por que homem gosta de mulher que tem onde pegar, que eu deveria entrar na academia ganhar corpo. Sabe isso é horrível, ser alta e magra no país da bunda.

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    A verdade é que ninguém se encaixa nesse padrão absurdo 🙁

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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