24 de junho de 2015 | Ano 2, Edição #15 | Texto: | Ilustração:
Um outro tipo de linguagem: autismo e dislexia
Um outro tipo de linguagem: autismo e dislexia

A linguagem é central para as relações humanas. É por meio dela que fazemos pedidos, expressamos afetos e desafetos, manifestamos nossas opiniões e nos comunicamos, construindo sentidos de uma maneira geral. É a linguagem que nos mantêm conectadas com as outras pessoas.

Quando pensamos em linguagem, nossa primeira referência costuma ser a verbal, falada e escrita, mas há diversos outros tipos de linguagem e comunicação. Já falamos aqui na Capitolina sobre a Língua de Sinais e o Sistema Braille , que são formas de comunicação para pessoas surdo-mudas e cegas, respectivamente. Mas, e quando a linguagem em si é entendida de maneira diferente daquela que é considerada padrão? Neste artigo, vamos falar sobre autismo e dislexia, dois transtornos muito diferentes entre si, que têm em comum o entendimento da linguagem diferente desse padrão.

 

O espectro autista

Há diferentes tipos de autismo, então, vamos nos referir ao espectro autista de uma maneira geral, sem entrar em especificidades de cada tipo. Nenhuma pessoa autista é igual à outra, mas há características gerais desse transtorno que o identificam. Pode-se dizer que as maiores dificuldades de uma pessoa autista estão na comunicação, na socialização e no comportamento, eixos extremamente interligados entre si e à linguagem.

A pessoa autista percebe a linguagem de outra forma. É preciso tomar o cuidado de não cair em discursos capacitistas, portanto, quando digo “outra forma”, quero dizer em referência àquela que é considerada padrão, mas de maneira alguma isso significa um juízo de valor entre uma forma e outra. Acontece que, justamente por ter uma forma de comunicação diferente do esperado, uma pessoa autista acaba tendo dificuldades de relacionamento.

Mas no que a linguagem é diferente para uma pessoa que se encontra dentro do chamado espectro autista? Uma das características desse transtorno é entender a linguagem de maneira mais objetiva, isto é, a pessoa pode não entender ironia, deboche, metáforas e outros meios de linguagem figurativa. Por exemplo, a frase “que blusa bonita, hein!” que, dependendo do tom em que seja dita, pode ser um elogio sincero ou um comentário debochado, muito provavelmente será entendida sempre como um elogio por uma pessoa autista. Da mesma maneira, se lhes disserem que está chovendo canivete, ela pode fazer uma interpretação literal da frase e simplesmente não entender do que estão falando, já que obviamente não existe chuva de canivete.

Por causa dessa mente mais objetiva, uma pessoa autista também costuma ter muita dificuldade em verbalizar seus sentimentos e em entender os sentimentos dos outros. Ainda que cheguem a conseguir distinguir emoções, é comum que sejam emoções mais básicas, como “feliz” ou “triste”, e não tão nuançadas e complexas, como “animada”, “empolgada”, “magoada”, “chateada”, etc. Essa objetividade pode atrapalhar as relações interpessoais, pois, muitas vezes, a pessoa autista não consegue corresponder às expectativas dos outros e acaba se sentindo culpada por isso.

É importante mencionar também que muito dessa dificuldade de relacionamento das pessoas autistas é decorrente de preconceito e impaciência por parte dos outros. Uma adolescente autista sente como qualquer outra; tem vontades, escuta música, gosta dos animais de estimação, ajuda nas tarefas de casa, planeja fazer faculdade e compartilha de todos aqueles medos, sonhos e vontades que todos temos. Não são pessoas diferentes das demais e também não são menos inteligentes ou talentosas que as demais. No entanto, por verem o mundo de uma maneira diferente daquela que aprendemos ser a “normal”, acabam sofrendo com isso. Devemos, então, ter sensibilidade ao lidar com essas pessoas, sempre respeitando o espaço delas e não nos prendendo a padrões sociais, mas olhando para o indivíduo em questão.
Dislexia

A dislexia é caracterizada por grande dificuldade na decodificação de símbolos, ou seja, uma pessoa com dislexia terá problemas em associar um som à sua letra correspondente, a entender mapas, a interpretar símbolos matemáticos, entre outros. Isso irá se manifestar, então, em dificuldades na leitura, na escrita e também na interpretação de textos. Por esse motivo, a comunicação oral costuma ser mais fácil do que a escrita para uma pessoa disléxica. No entanto, a oralidade também pode ser afetada, visto que a decodificação de símbolos também acarreta na pronúncia dos fonemas, no reconhecimento de sílabas, etc.

Talvez uma das maiores dificuldades enfrentadas por uma pessoa disléxica seja o preconceito. Diante dos desafios comuns a esse transtorno e à expectativa de professores, família e da sociedade de uma maneira geral, uma pessoa disléxica pode acabar tendo problemas de autoestima e, por isso, ter dificuldades de socialização. Diferente do autismo, ao qual os problemas de relacionamento são uma característica do próprio transtorno, a dislexia afeta apenas essa compreensão específica da linguagem que, ao ser avaliada da maneira errada, pode levar a pessoa disléxica à frustração, desmotivação e baixa autoestima.

Esse transtorno é fruto de uma alteração neurobiológica, isto é, trata-se de uma condição genética hereditária. Portanto, a dislexia não é decorrente de má alfabetização ou desatenção, muito menos de falta de inteligência. Assim como no caso das pessoas autistas, devemos frisar que pessoas disléxicas não são menos inteligentes ou menos talentosas que as outras pessoas. A dislexia é apenas uma forma de expressão e funcionamento diferente daquele considerado padrão e, por isso, pessoas disléxicas devem ser avaliadas de outra maneira, de modo a terem seus pontos fortes ressaltados.

Tanto as pessoas autistas quanto as disléxicas podem, por meio de tratamento, desenvolver melhor as habilidades que lhes são mais desafiadoras e levar uma vida muito próxima daquela que é considera “normal” para a sociedade. Basta um diagnóstico, um tratamento adequado e respeito por esses indivíduos e suas particularidades.

 

*Agradecimentos: a Arlena Carvalho (psicóloga e psicopedagoga), pela consultoria e disponibilidade, e Aline Costa e Mariana Costa, por ajudarem compartilhando a experiência com o autismo.

 

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Laura Pires
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Vlogger

Usa seu vício em séries e Facebook como inspiração para os textos, para a vida e para puxar assunto com os outros. Adora ouvir histórias e conversar sobre gênero, sexualidade, amor e relações amorosas – gosta tanto desses temas que deu até um jeito de fazer mestrado nisso. É professora de inglês, cantora e pianista amadora de YouTube, fala muito, ri de tudo e escreve porque precisa. Ama: pessoas e queijo. Detesta: que gritem.

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