1 de abril de 2017 | Ano 4, Edição #32 | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Um pouco de drama não faz mal a ninguém
tinder

 

Quando decidimos que o tema do mês de abril seria humor, uma coisa me veio à cabeça: precisamos de um texto dramático nessa edição! Acredito que poucas pessoas têm o costume de ler peças de teatro, mas eu adoro esse gênero literário. Gosto porque não conseguimos entrar na mente dos personagens como acontece num romance, por exemplo, quando o autor pode nos fazer mergulhar em seus pensamentos, dando pistas que outros personagens do livro não têm. Quase um gostinho de exclusividade e poder que o leitor sente, né?

Eu pessoalmente acho muito legal quando estou assistindo a uma peça de teatro e preciso compreender o que os personagens pensam apenas a partir de suas ações – e um processo semelhante acontece quando eu leio uma peça de teatro. Eu consigo ler as ações, consigo imaginar a expressão de cada pessoa, mas cabe apenas a mim imaginar o que elas sentem, pensam, planejam – e eu adoro essa liberdade criativa que me permite criar junto com o autor, de ser a segunda roteirista por um instante.

Então, por que não criar uma pequena esquete de humor para vocês, assíduas leitoras da Capitolina, e tentar espalhar a palavra da escrita dramática por aí? As esquetes são como pequenas peças de teatro com humor, curtinhas. Você deve conhecer alguns vídeos de esquetes famosos – como os do canal Porta dos Fundos, que tem milhões de visualizações e inscritos! Mas, por sentir que falta muita representatividade no que eu vejo por aí, eu decidi que deveria ter um roteirinho especial pra Capitô!

O mais bacana é: se vocês quiserem interpretar essa pequena e humilde produção, vocês podem fazer para o teatro da escola, no centro acadêmico da faculdade, na rua, onde vocês quiserem! Se rolar, não esquece de mandar um vídeo pra gente!

 

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Desventuras no Tinder

 

Por Carolina Sapienza
São Paulo, SP
2017

 

PERSONAGENS

Laura: estudante de biologia
Maria: melhor amiga de Laura
Bruna: moça que Laura conheceu no Tinder
Fabiana: amiga de Bruna, da academia de Kung fu

 

CENA I

Laura está sentada numa mesa de um bar em São Paulo, mexendo compulsivamente no celular. Suas mãos suam, ela olha para todos os lados com frequência, mexe muito as pernas. Toma longos goles numa garrafinha de água que está na bolsa, coloca os fones de ouvido e ouve um pouco de música enquanto espera Bruna.

 

CENA II

Bruna chega ao bar em que está Laura. Rapidamente reconhece Laura, vai até a mesa dela e a cumprimenta.

BRUNA – Oi, desculpa o atraso!, diz enquanto Laura retira os fones de ouvido e sorri para Bruna.

LAURA – Sem problemas! Tudo bem? Foi fácil de achar aqui?

BRUNA – Foi sim, tranquilo.E aí, quer tomar uma cerveja?

 

Bruna chama o garçom do bar e pede uma Original. Ele serve as duas, elas brindam e bebem os primeiros goles em silêncio. As duas conversam sobre assuntos aleatórios, a conversa não flui bem, as frases saem de forma truncada e com grandes intervalos. Laura está visivelmente desconfortável com a falta de assuntos. Bruna olha para o celular.

 

BRUNA – Uns amigos me convidaram para uma festinha na casa deles! Vamos? Vai ser na casa da Fabi, que faz Kung fu comigo. Ela é uma fofa!

 

LAURA- Vamos sim, parece uma boa!

 

CENA III

Laura e Bruna entram no ônibus juntas, passam a catraca e ficam em pé pois a parada em que vão descer é próxima. Uma moça de cabelo raspado muito bonita passa por elas e troca olhares com Laura – que corresponde com um sorriso. Bruna estava olhando para o telefone e não repara a troca de olhares. Laura e Bruna vão para a porta e descem no ponto seguinte. A caminhada até a casa da Fabiana é silenciosa. Já estava de noite, e as ruas do bairro são quietas.

 

BRUNA – Tudo bem?

LAURA – Sim, claro, acho apenas que eu tomei cerveja demais com estômago vazio! Será que vai ter algo pra comer lá?

 

CENA IV

Fabiana abre a porta com um sorriso enorme, a voz dela mostra que ela está claramente bêbada. Bruna apresenta Fabiana para Laura. Elas entram na casa de Fabiana, que é uma república. Lá estavam algumas outras garotas e uns caras, todos estavam bebendo destilados e estavam muito bêbados.

Bruna senta no sofá e interage com as pessoas da festa. Laura acompanha Fabiana até a cozinha para pegar um copo de água.

 

CENA V

Na cozinha. Fabiana fala com o rosto muito próximo do de Laura, e com a falta de equilíbrio devido ao álcool, às vezes quase chega a encostar a ponta do nariz no rosto de Laura.

 

FABIANA – Você faz Biologia? Não acreditooooo. Eu tenho uma amiga, e a irmã dela faz biologia também!

LAURA – Sério? Qual o nome dela?

FABIANA – Ela chama Maria! Você conhece?

LAURA – Peraí, essa Maria aqui?

 

Laura desbloqueia o celular e mostra a foto do WhatsApp de sua melhor amiga, Maria. Fabiana reage quase gritando.

 

FABIANA – Isso!! Ela mesma! Nossa, fala que eu disse oi pra ela!

 

CENA VI

Fabiana e Laura vão até a sala. Bruna estava sentada com ar de tédio no sofá, interagindo com os outros moradores da casa. Laura senta ao lado de Bruna, e Fabiana senta ao lado de Laura. Fabiana pega o celular de Laura e tira uma selfie com ele.

 

FABIANA – Manda pra Maria!

LAURA – Ok, vou mandar!

Laura recebe uma resposta da Maria.

LAURA – Ela disse oi pra você também, Fabi!

 

Bruna tenta engajar uma conversa com Laura, mas o assunto do momento acaba predominando. Bruna interage com Fabiana e outros na sala, todos sentados no sofá ou no chão ao redor. Laura apenas observa a conversa, sem parecer se empolgar com o assunto. Ela recebe diversas mensagens no celular, e parece estar conversando com alguém.

 

CENA VI

Após um pouco mais de uma hora, Bruna sugere que elas vão embora. Laura e Bruna se despedem de todos, e Fabiana dá um longo abraço alcoolizado em Laura. Elas entram num Uber e vão para a casa de Bruna, que era mais perto. Já era mais de onze da noite, e as duas tinham um ar muito cansado. Bruna estava um pouco mais bêbada que Laura.

 

CENA VII

Bruna abre a porta da casa e as duas entram. Bruna vai até um quarto extra, de uma colega de casa que está viajando.

 

BRUNA – Se você quiser, pode deixar suas coisas aqui e dormir aqui. Ela foi viajar com o namorado e só volta semana que vem. Vem, deixa eu te mostrar meu quarto!

Bruna abre a porta do quarto dela e convida Laura para entrar. Laura senta numa cadeira ocupando apenas a ponta dela, e Bruna se senta na cama. Laura se levanta e analisa todos os postais pregados na parede, tentando encontrar um assunto. O celular dela não para de vibrar, e às vezes ela olha discretamente para as mensagens.

LAURA – Nossa, então você viajou bastante hein? Adorei esses postais…

Bruna olha constantemente para Laura, tentando um contato visual. A linguagem corporal dela demonstra interesse. Laura olha novamente o celular.

LAURA – Que tarde, né… Acho que vou dormir…

BRUNA – Sim, tá tarde mesmo… Também tô exausta.

LAURA – Bom, então tô indo lá pro quarto onde deixei minhas coisas, boa noite!

BRUNA – Ah… mas você não quer tipo… dormir aqui?

Bruna dá duas batidinhas de leve sobre a sua cama e sorri. Laura olha para Bruna por alguns instantes que parecem uma eternidade.

LAURA – Não, obrigada, eu estou cansada mesmo…

Laura sai do quarto de Bruna com rapidez e fecha a porta. Bruna fica alguns minutos incrédula olhando para a porta fechada, sem saber como reagir. Laura dá um longo suspiro e vai quase correndo para o quarto que lhe foi designado, fecha a porta atrás de si, e senta na cama.

 

CENA VIII

O celular de Laura começa a tocar, é Maria. Laura atende e responde com sussurros.

MARIA – Meu, como assim você sai com a mina e fica me perguntando se a amiga bêbada dela é hétero? Já pensou se ela descobre, que chato?

Laura contém uma risada para não fazer muito barulho. Maria ri do outro lado da linha também.

LAURA – Ah, mas ela era muito mais legal que a Bruna – e mais bonita também, não sei… tinha um negócio na Fabi. Nossa, ela ficava falando com a boca bem perto do meu rosto… eu tava quase agarrando ela lá na cozinha. Não acredito que ela tem namorado!

MARIA – Mas a Bruna era tão chata assim?

LAURA – Não, não era isso, acho que só não bateu o santo, sabe? Ela é legal e tudo, mas não rolou. Será que ela tá muito brava comigo agora, odiando minha pessoa lá no quarto dela?

MARIA – Acho que não…

LAURA – Miga, me passa o celular da Fabi?

MARIA – Lau, não acredito! Eu te falei que ela não curte minas…

LAURA – Tudo bem, ué! Vou só tentar uma coisa.

MARIA – Tá, mas segura essa pepeca. Não faz besteira… Vou dormir que amanhã tenho treino. Beijos!

LAURA – Tá bom! Beijo.

 

CENA IX

Maria manda o contato da Fabi para a Laura. Laura imediatamente escreve para Fabi. Elas trocam algumas mensagens, cada uma de sua cama. Laura se levanta, pega suas coisas e anda na ponta dos pés até a porta. Ela escreve um bilhetinho de desculpas para Bruna – ela pensa duas vezes e acaba decidindo não deixar o bilhete e o enfia na bolsa, saindo sem fazer nenhum barulho. Ela pega o telefone e disca um número enquanto faz sinal para um táxi que estava passando.

LAURA – Fabi, qual seu endereço mesmo?

 

FIM

 

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Carolina Sapienza
  • Colaboradora de Relacionamentos e Sexo
  • Revisora

Carol nasceu em 1991 e mora em São Paulo. Bióloga que queria ser de humanas, gosta de escrever sobre ciência mas mantém o caderninho de poemas sempre na bolsa.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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