15 de maio de 2014 | Ano 1, Edição #2 | Texto: | Ilustração:
Um sonho que se sonha junto
Ilustração: Bárbara Fernandes.

Ilustração: Bárbara Fernandes.

Os alunos não estão na sala de aula, mas na coxia do anfiteatro. As luzes estão apagadas, o vídeo de abertura da peça é projetado, mas não há mais que dez pessoas na plateia. Isto é porque é apenas um ensaio geral. As apresentações do teatro do nono ano só começam em outubro e ainda há muita coisa para se ajeitar antes da estreia. Mas que peça é essa? Quem é o diretor? Quem faz que papel?

Há mais de dez anos a professora de história Mônika Kuszka decidiu estudar em seu mestrado uma forma que fizesse com que os alunos conseguissem aprender história fora dos livros. Pensando nas múltiplas inteligências que existem, Mônika acreditava que a aprendizagem por meio da leitura de textos e exposição de matéria em sala de aula não contemplavam todos os seus alunos e, portanto, buscou uma nova forma de ensinar história. Com essa questão na cabeça, a professora montou uma peça de teatro que tratasse de determinado período histórico; juntando música, dança, poesia e textos teóricos, para que seus alunos pudessem aprender a matéria de um jeito diferente.

Mônika pediu permissão para a escola onde trabalha ceder o espaço do anfiteatro para que sua pesquisa de mestrado fosse testada, a permissão foi concedida e, logo mais, a professora começava, sem saber, um projeto que ficaria ao seu cargo por pelo menos oito anos. Montou um roteiro com base na matéria que ensinava e ofereceu a seus alunos a possibilidade de ajudá-la na pesquisa ao participarem do projeto como atores. Movidos pelo pedido da professora que tanto gostavam, os alunos do nono ano (naquela época, ainda chamado de “oitava série”) decidiram então colocar no palco do colégio a peça criada por Mônika Kuszka.

O primeiro ano, conta ela, foi uma loucura. Como única responsável, corria de cima para baixo para supervisionar os alunos, os quais montavam as cenas em grupos autocoordenados. Apesar de todos os estresses, a peça ficou pronta, as diferentes plateias aplaudiram, dera certo. Assim que a cortina fechou, logo na noite de estreia, todos os alunos (agora atores) pularam em cima da querida diretora, e Mônika abraçou todos juntos. Eles choravam, ela chorava – era uma verdadeira catarse de tanta felicidade pelo sucesso que havia sido a peça.

Os alunos da sétima série se maravilharam com a apresentação e, agora, no ano seguinte, também queriam participar do projeto. E queriam tanto que a coordenação abriu a possibilidade de uma segunda peça. Novamente, Mônika estava naquela correria de escrever roteiro, supervisionar os alunos, arrumar adereços, ensaiar cada cena para as apresentações. Mas este ano foi diferente: um dia, quando estava desesperada na sala dos professores sem saber como resolver todas as suas responsabilidades, a professora de português do sexto ano lhe perguntou: “Você quer ajuda?”. E foi assim que Valéria de Melo Pereira entrou para o projeto, tornando-se codiretora de todas as peças que seriam feitas a partir de então.

Mais um ano se passou e mais uma vez os alunos quiseram subir no palco. E foi em meio a um ensaio geral que a dona do colégio entrou no anfiteatro, foi até Mônika (que neste momento estava ajeitando o sistema de sons) e lhe disse: “Mônika, ano que vem você e a Valéria vão dar aula de Artes Cênicas”. Depois disso, foi embora. E assim ficou acordado: além de professoras das matérias que já lecionavam (história e português), de agora em diante, Mônika Kuszka e Valéria de Melo Pereira também dariam o novo curso de artes cênicas do colégio, mesmo que nenhuma das duas já tivesse estudado teatro. Por muitos anos, inclusive, elas brincavam que davam aula de “artes cínicas”, ao invés de cênicas.

Com a formalização das aulas de teatro, o ritmo mudou um bocado. Por mais que ainda houvesse a correria final antes das apresentações, era muito mais fácil de criar a noção de espaço, postura e voz agora que tinham um tempo reservado na grade curricular. Trabalhar com os alunos tímidos ou que não se dispunham muito ao projeto também foi algo facilitado. Aos poucos, eles percebiam que não havia problema em errar, que era possível se divertir com a exposição. E mesmo que ainda assim se sentissem desconfortáveis, esses poucos alunos aceitavam cantar no coral, tocar algum instrumento, mexer com a iluminação ou fazer adereços. Ninguém ficaria de fora.

O projeto cresceu e tomou forma. Mais pessoas passaram a ajudar – tanto antigos alunos quanto professores –, trazendo novas ideias, novos exercícios, novos jeitos, novos rituais para o palco. Cada vez mais era criado algo que já não estava no controle das professoras, da escola ou dos alunos: o teatro criou-se em si.

Com tantas reviravoltas, Mônika deixou de lado seu mestrado e passou a se dedicar às suas aulas, fossem de história, fossem de artes cênicas. Mas a verdade é que, mesmo sem redigir em uma dissertação, já tinha sua teoria comprovada: ao participarem do teatro, os alunos não apenas aumentaram suas notas, como fixaram a matéria – tanto que, até hoje, a professora escuta antigos alunos comentando sobre como os roteiros de suas peças os ajudaram a estudar para provas no Ensino Médio ou mesmo no vestibular, e como alguns assuntos ficam cada vez mais claros para eles.

Apesar de muitos textos (principalmente os teóricos) serem tidos como difíceis para alunos de 14 anos, a emoção aparenta mais forte. Aquilo que não é acadêmico se finca na lembrança daqueles que passam pelo projeto e acabam todos por se lembrarem de algum detalhe. Além disso, os alunos entram em contato com uma cultura que muitas vezes não têm em casa. Pois coreografam músicas de Secos & Molhados, cantam Gilberto Gil, Os Mutantes, aprendem a tocar músicas de Chico Buarque, entram em contato com passos de jazz, maxixe e outras danças, interpretam poemas de Bertold Brecht e Paulo Leminski.

Mas mais do que aprenderem sobre história ou cultura geral, os alunos aprendem a se unir. As pessoas mais diversas, aos poucos, põem suas diferenças de lado, dão as mãos nas apresentações, nos ensaios, tudo para que a peça fique boa. Às vezes, é claro, isto custa a acontecer, mas é nítida a mudança. Os alunos se abrem uns aos outros, fazem amizades que não esperavam, às vezes até se afastam de outras. A cada cena passada, um novo tipo de relação é construída entre eles. Sem perceber, aqueles adolescentes de 14 anos crescem. E crescem juntos. Não é à toa que todos choram ao fim da última apresentação. Em meio ao turbilhão de emoções que passam durante o período da adolescência, todas as histórias que vivem, os alunos encontram algo que os mantém unidos – e que, surpreendentemente, os unirá por toda a vida, pois sempre lembrarão de algo: uma música, uma cena, uma coreografia, um momento na apresentação.

O teatro do nono ano, assim que foi montado pela primeira vez, deixou de ser apenas uma pesquisa e se tornou a um verdadeiro rito de passagem. Ao fim do Ensino Fundamental, os alunos aprendem a lidar com muito do que precisarão para a vida adulta, como responsabilidades, foco e trabalho em equipe, mas de maneira festiva. Os alunos são desafiados a ter um autocontrole que não é apenas necessário dentro da sala de aula, mas principalmente fora dela. As professoras também passaram a ajudar alguns alunos de uma maneira pouco tradicional: colocando aqueles que pareciam mais desleixados em cargos de grande responsabilidade (como organizar a coxia) ou alunos mais quietos em lugares de algum destaque (como coordenadores de cena). Assim, mesmo quando não percebem, todos, aos poucos, tornam-se responsáveis pelo projeto, o que faz com que cada ano seja um novo desafio.

Mônika diz que já pensou em fazer deste teatro um projeto de lei, mas confessa que o que aquela sua pesquisa inicial se tornou é muito maior. Conta que tudo o que aconteceu foi tão espontâneo e movido não por um dever, mas sim por amor, que não consegue concebê-lo como algo obrigatório. Ir para a escola aos sábados não é dever, mas algo prazeroso, mesmo com todos os gritos de “silêncio na coxia!” ou os sermões sobre trabalho em equipe – e isto acontece porque tudo é feito com uma energia única. O projeto é mágico – e todos os alunos, cada um à sua maneira, se entregam e deixam sua marca no palco do anfiteatro.

Em 2008, oito anos depois do início dessa jornada, Valéria e Mônika passaram a direção para o professor de português do nono ano, que assumiu com o maior carinho e dedicação o projeto. Com isso, alguns ajustes foram feitos, como a duração das peças e o enfoque, que não é mais histórico, e sim literário. Apesar disso, o mesmo espírito amoroso continua na equipe, que ainda tem Valéria e Mônika como ajudantes, além de uma professora de coral e uma série de ex-alunos, os quais mudam ao longo dos anos.

Depois de mais de dez anos, todo ano, novos alunos criam cenas, inventam coreografias, cantam músicas. É um projeto rotativo, afirma Mônika. Mudam os diretores, os atores, os ajudantes. Mas algumas coisas sempre ficam. E, antes do começo de cada apresentação, todos se sentam nas cadeiras do anfiteatro da escola, repassam tudo o que devem fazer durante a peça, respiram fundo e repetem baixinho a frase que é dita toda vez por Valéria: “tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”. Então, todos se dão as mãos, contam até três e gritam o desejo de boa sorte do teatro: “merda!!!”.

Vão todos para a coxia. Não há ninguém nas salas de aula. A peça pode variar, os diretores também, os alunos assumem todos os papeis. E, por mais um ano, é confirmado o que Mônika dizia desde o começo: um sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas um sonho que se sonha junto é a realidade.

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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