13 de junho de 2015 | Ano 2, Edição #15 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Um texto em tecido, linha, cor e forma: a moda

A definição formal de linguagem que eu conheço é a de que ela é qualquer elemento utilizado para estabelecer comunicação, e comunicar está relacionado diretamente a interagir. Você provavelmente ouviu alguma coisa assim na escola também, né? Se analisarmos a moda do mesmo jeito que fazemos com um texto dissertativo ou uma poesia na aula de Literatura, acabaremos vendo que, sim, a maneira como nos vestimos é um tipo de linguagem. Quer um exemplo? Professores vivem falando que a linguagem que usamos em determinado texto tem que ser adequada à situação em que a comunicação acontece, certo? Não é exatamente isso que ocorre quando se espera que meninas usem vestidos longos em festas de formatura e roupa de banho na praia? E se alguém se veste “mal”, não acabamos julgando essa pessoa como inadequada ou rude? Isso não é exatamente o que acontece quando alguém falha em se comunicar verbalmente de acordo com a ocasião e usa uma variante diferente da norma culta da língua?

É claro que, assim como as linguagens mais usadas ou mais tradicionais, o uso da moda para se comunicar varia de acordo com o contexto cultural, social, político, histórico, etário, etc., em que a pessoa se insere. Por “n” motivos, você e sua mãe provavelmente se vestem de maneiras diferentes, do mesmo jeito que provavelmente conversam de maneiras diferentes nas mesmas situações. Culturas e povos podem ser identificados pelo modo que se vestem tal qual podem ser identificados pelo idioma que falam; grupos sociais diferentes usam diferentes tipos de roupas e também não usam as mesmas gírias. Já reparou como algumas pessoas ficam bravas se veem alguém que não é tão fã quanto elas de uma banda usando uma camiseta da tal banda mesmo assim? Pare e pense se a ideia por trás disso não é exatamente a mesma da de apropriação cultural– obviamente com consequências infinitamente menores.

Interagir está relacionado não só às suas ações, mas também a como essas ações são percebidas. Sem contar, ainda, que essas ações nem precisam ser propositais! É aqui que entra a questão do que é ser malvestida ou não. Em um mundo em que se afastar das regras aceitas pela sociedade é visto como errado, se vestir de um jeito diferente é o mesmo que ser paulistano no Rio de Janeiro. Só que roupas custam dinheiro, custam tempo e são reguladas de uma maneira ainda mais rígida pela sociedade do que outros aspectos, especialmente para nós, garotas. Passar por uma pessoa na rua e achar que sabe quem ela é ignora que nem todo mundo tem o mesmo BACKGROUND que você, desrespeita a capacidade de escolha de quem se veste e falha em perceber que nem todo mundo tem a mesma intenção comunicativa que você. Não gostar da roupa de fulana por questões estéticas: OK. Achar que ela é uma pessoa ruim/ chata/ metida/ descuidada porque está usando alguma coisa diferente do que você usaria: nada OK.

A diferença principal da moda para outros tipos de linguagem é que ela tem uma utilidade material direta, no sentido em que usar vestido longo em vez de roupa de banho na praia afeta a velocidade com que você se movimenta, a maneira como o seu corpo reage à temperatura do dia. Usar short jeans na Sibéria não é inadequação linguística, é arriscar sua própria saúde. Acho que é por isso que a moda é julgada de uma maneira tão diferente: a adequação não é mais somente uma questão de mal entendido.

Mas se moda é linguagem, por que “é de mulher” e por que é considerado negativo se preocupar com isso? Historicamente, como a mulher era condicionada a ficar em casa sendo um enfeite, suas roupas deveriam ser mais adornadas que as do homem, aquele que tinha que sair, trabalhar e ganhar a vida e por isso se vestia de maneira mais simples. Acho que é justo dizer também que como o corpo da mulher é mais policiado, nossas roupas também o são. A roupa está relacionada não só à mente que a veste, mas também ao corpo, e é por isso que até hoje ainda é considerado uma transgressão gigantesca um rapaz usar saia, por exemplo. É claro que nesse ponto também temos que lembrar da existência da transfobia e da misoginia, já que parecer feminino no vestir é considerado parecer fraco, enquanto não há nada de errado ter características masculinas no vestiário. Vale a pena citar a gordofobia aqui também, já que “parecer gorda” é um dos maiores pecados que alguém pode cometer quando escolhe o que vai vestir.

Por fim, como toda linguagem, a moda pode ser usada como forma de expressão artística, tanto nas roupas que você usa todos os dias quanto em grandes exposições de obras planejadas arquitetonicamente. A maneira que você se apresenta para o mundo, através da escolha de suas roupas, é uma prévia de quem você é. Pode ser poesia, carta aberta, texto dissertativo, charge: é você quem decide.

Beatriz Rodrigues
  • Colaboradora de Ciências
  • Colaboradora de Estilo
  • Colaboradora de Saúde

Bia Rodrigues ou só Bea tem 19 anos, é mineira, estudante de Farmácia e adora fatos inúteis. Se tivesse que comer só uma coisa pelo resto da vida, escolheria batata. Ainda não acredita que conheceu outras meninas da Capitolina. É 60% Corvinal e 40% Sonserina.

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