25 de março de 2015 | Ano 1, Edição #12 | Texto: | Ilustração:
Uma adolescente chamada Delírio
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“Ah, você. Me dizendo para não querer algo. Quer dizer, é exatamente isso que você está fazendo. Querendo. É meio engraçado. Não é? Não é engraçado?”

Neil Gaiman é um autor britânico louvado por suas obras literárias que lidam com conceitos bem complexos através de abstrações lúdicas e lúgubres. Em termos menos pedantes que não parecem ter sido retirados de um artigo da Wikipédia: sabe aquele trechinho de uma simplicidade tão profunda que faz você levantar a cabeça do livro para encarar o teto e se perder por dez minutos? Isso é Neil Gaiman. Ele é romancista, contista, roteirista, dono de dezenas de gatos e marido da Amanda Palmer. Enfim, um monte de coisas legais que nós invejamos de leve. Mas eu suspeito que se ele precisasse escolher um título sucinto para colocar em sua futura lápide, este seria: Neil Gaiman, autor de Sandman. A série de quadrinhos que começou em 1989 o transformou em uma figura icônica e ditou o tom de suas publicações posteriores. A Delírio do título desta matéria pertence a esse mundo mitológico denso e fascinante.

Sandman conta a história de Sonho e seus seis irmãos, os Perpétuos. Todos eles são personificações de entidades metafísicas e aspectos do universo: Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio. É como pegar um conceito e envolvê-lo em uma camada de carne e osso. Os Perpétuos são mais antigos do que a própria existência, já que a vida na Terra depende de tudo que eles representam. Ainda que eu curta a estética gótica super anos 90 da Morte, a caçulinha Delírio sempre será minha irmã favorita.


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Página de Sandman – Noites sem fim

“Eu… Eu estou aqui? Eu estava tão distante em mim…”

Delírio não tem uma aparência constante; seu cabelo multicolorido ganha novos tons, seu rosto por vezes é pintado, seus piercings se multiplicam e desaparecem. A única coisa imutável durante toda a saga de Sandman é o fato de ela ser representada como uma adolescente. E é no mínimo curioso que Gaiman tenha escolhido a imagem de uma jovem garota para personificar um conceito como delírio. Se fizéssemos uma leitura superficial da obra, seria fácil declarar que o autor está colaborando para o fortalecimento de um estereótipo ao associar feminilidade à ideia clássica e pejorativa de “loucura”. Mas Delírio vai além disso. Ainda que seja tratada de forma condescendente por alguns de seus irmãos mais velhos, a moça é a mais sábia dos Perpétuos e entende como ninguém a natureza de seu trabalho. “Nossa existência deforma o universo. Isso é responsabilidade.”

Um dos temas recorrentes em Sandman é amadurecimento, e a personagem ilustra perfeitamente o processo natural de metamorfose. Delírio nem sempre foi Delírio. Antes, se chamava Deleite. Cabe somente a ela o motivo dessa transformação drástica. Drástica, sim, afinal, são noções totalmente diferentes. Deleite é contentamento, prazer, satisfação; delírio é perturbação, alucinação. Diversas teorias tentam explicar essa mudança. Deleite é um avatar de inocência e pureza que não pode sobreviver em contato direto com a humanidade – sabemos que a vida pode ser brutal. A única forma de lidar com o mundo, portanto, seria abraçar sua total ausência de lógica e tentar encontrar algum sentido no caos. Delírio precisou se adaptar e modificar sua essência para sobreviver em um meio inóspito. Qualquer semelhança com os percalços que mulheres enfrentam na juventude provavelmente não é mera coincidência.

Delírio muitas vezes é lida como uma vítima de abuso. O recolhimento em seu próprio mundo surreal teria sido a forma encontrada pela menina de transformar a dor em cor. Não temos como saber se essa foi a intenção do autor, mas isso não importa. Após a publicação, a obra pertence ao leitor e a interpretação é completamente legítima. A personagem é fascinante exatamente por permitir que cada um projete suas experiências pessoais nela. Delírio pode ser fruto de um coração partido, de uma família disfuncional, de uma agressão física, de violência sexual, qualquer coisa. Sua tragédia é universal e é de todas nós. Mas nem todas as transformações são fruto de experiências traumáticas, e é louvável que a motivação, seja qual for, não tenha importância para sua narrativa pessoal.

Delírio nasceu de autoidentificação. Autoafirmação. Ela não se percebe mais como Deleite e, simplesmente, muda. Ela é agente, e não vítima. Todos somos moldados por eventos e estamos em permanente estado de transformação. Se ontem ela foi Deleite e hoje ela é Delírio, amanhã ela pode ser o que quiser. Se o Deleite é transitório, assim também pode ser o Delírio. No fim das contas, a personagem mais fragmentada e nebulosa de Sandman é também a maior figura de otimismo da saga. Talvez por isso sua imagem feminina e juvenil seja tão apropriada. Se há uma categoria de pessoas dispostas a abraçar o doloroso e eterno processo de destruição e construção com toda a paixão necessária, são as garotas adolescentes.

“Hmm. Qual é mesmo aquela palavra para dizer que as coisas não são as mesmas para sempre? Você sabe. Tenho certeza de que existe. Não? Deve haver uma palavra para isso… é aquela coisa que permite que você perceba que o tempo está agindo. Tem uma palavra?” 

Lorena Piñeiro
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Lorena tem 26 anos e mora no Rio, embora tenha crescido nos subúrbios da Internet. Trabalha com análise de roteiros televisivos, avalia manuscritos literários, traduz e revisa obras em inglês e escreve por aí. É igualmente fascinada pelo gracioso e pelo grotesco. Adora filmes de terror, livros de fantasia, arte surrealista e qualquer coisa que não carregue o mínimo semblante de realidade. Tem empatia até por objetos inanimados e queria ser um urso ?•?•?

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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