25 de abril de 2016 | Cinema & TV, Colunas, Se Liga | Texto: | Ilustração: Lila Cruz
Uma breve história das comédias românticas

Gêneros cinematográficos não podem ser definidos por nada que lhes é externo. O que significa isso? Bem, um gênero não é definido por nada qualitativo (“filmes de gênero x são filmes ruins”), por nada que venha da recepção do público e não da produção do artista (“filmes do gênero x são feitos para crianças” ou “filmes do gênero x só são assistidos por mulheres”) ou por algo relativo ao seu elenco (“filmes do gênero x são sempre estrelados por homens”). Um gênero cinematográfico é definido pela estrutura e conteúdo de seu roteiro e pelas características formais, de som e imagem, do material editado e lançado. Definir essas regras centenárias é importante ao introduzir uma discussão sobre um gênero cinematográfico que muitas vezes é definido como estrelado e assistido apenas por mulheres e repleto de filmes ruins e sem substância, a comédia romântica.

A comédia romântica não pode ser definida como nada além de um gênero marcado por elementos da comédia (que de acordo com os gregos clássicos é a visão direcionada ao humor e à leveza até perante momentos de fracasso como términos ou pequenos desastres) e o romance (narrativa de caráter exagerado no valor dos sentimentos e do mundo do subjetivo e do amoroso). Um ou mais casais devem estar no seu ponto focal. Elas eram vistas a partir desse prisma na era de ouro de Hollywood, e eram dirigidas por alguns dos diretores mais respeitados da história do cinema, como Billy Wilder e Howard Hawks. Não era vista como um trabalho “menor” por diretores desse porte ou por atores como Katherine Hepburn e Cary Grant. O que mudou?

Até certo ponto, a nossa visão do valor de relacionamentos amorosos monogâmicos como um objetivo importante na vida mudou. E com o cinismo em relação ao mundo romântico em alta, as comédias românticas viraram carne de segunda – material feito para mulheres “tolas e sonhadoras” que ainda acreditam em contos de fadas e príncipes encantados. Não é estigmatizado apenas por homens que consideram que qualquer gênero adotado pelo público feminino é inferior – é estigmatizado pela mulher moderna como algo também antiquado e fútil.

Três nomes reviveram os dias de glória do gênero dos anos 50, perdido na revolução sexual dos anos 60/70, na década de 90, e criaram uma verdadeira renascença de sua popularidade (que seria seguida imediatamente pelo mais frio dos ocasos). Nora Ephron, Richard Curtis e Garry Marshall importaram a acidez de pessoas como Woody Allen e Jerry Seinfeld para dar um pouco mais de cinismo para os romances da telinha, e transformaram Julia Roberts, Meg Ryan e Hugh Grant em ícones. Os atores muitas vezes tinham feições comuns e de fácil aproximação do espectador, como Billy Crystal e Tom Hanks. Não era um desfile de supermodelos perante a tela.
Hoje, vários novos atores tentaram se transformar nos novos queridinhos das comédias românticas, sem sucesso. Em alguns casos, por demérito deles mesmos, por falta de talento – como Katherine Heigl -, mas é difícil não ver o potencial de nomes como Anne Hathaway e Mila Kunis para o gênero – o que faltam são roteiristas de qualidade dispostos a se aventurarem pelo gênero, desmotivados pela falta de reconhecimento que até excelentes escritores como Ephron e Curtis enfrentam. Muitos vão para as séries de TV, outros para o gênero mais ácido do mumblecore, parte do cinema independente que lida com relacionamentos de maneira bem natural e seca (vide Lena Dunham e Joe Swanberg). Quando o açúcar começou a amargar o paladar do cidadão moderno, quem sofreu o verdadeiro golpe foram os melhores doceiros.
Ana Clara
  • Colaboradora de Esportes

Ana tem um site de cinema que chama Ovo de Fantasma e está se formando em comunicação na UFMG e tentando mestrado em cinema. É obcecada em estudar cultura americana, cresceu tomboy de joelho ralado, ama futebol, baseball e futebol americano. Jogada basquete, escalava, hoje tem hérnia e só comenta e ganha dos homens no Fantasy.

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