12 de dezembro de 2014 | Ano 1, Edição #9 | Texto: and | Ilustração: Isadora Carangi
Uma ideia feminista sobre família

 

O modelo de família que temos na nossa sociedade é construído. Às vezes a gente esquece, e acaba achando que toda família no mundo segue um padrão de família mais ou menos parecido com o que a gente conhece. Mas a verdade é que famílias já são muito diversas entre si só na nossa sociedade… imagina então se formos comparar com o resto do mundo?

Aquilo que aqui entendemos como família é uma instituição social moldada, sob valores ocidentais, originalmente, nos pilares patriarcais. Isso significa que este modelo tradicional de família tem o seu centro em volta da figura masculina, com o homem assumindo o papel de chefe de família e provedor. Esse poder sobre a mulher passa do pai para o marido, ou seja, durante toda a vida, fechada no âmbito do lar e do privado, a mulher é submissa a uma figura masculina. Assim se construiu esse conceito, séculos atrás.

O termo família vem do latim famulus, que significa escravo doméstico. A instituição família, nos moldes que hoje reconhecemos como tradicional, encontrou fortes pilares na Roma Antiga. A partir desse ponto histórico, o homem assumiu a posição de patriarca da família, detendo o poder sobre a esposa e os filhos. Filhos homens também possuíam grande destaque dentro da família, pois seriam soldados, logo importantes para a nação. O patriarca detinha poder não somente sobre sua família, mas também sobre seus escravos, podendo dispor do direito à vida de qualquer um deles. Podia, inclusive, transformar o próprio filho em escravo e vendê-lo. A figura masculina emitia maior poder, no contexto familiar, do que o próprio Estado.

Ao longo dos anos, com a luta feminista – quando as mulheres se unem enquanto coletivo para exigir seus direitos –, a mulher passou a assumir cada vez mais o seu espaço no público, expandindo seus horizontes, ultrapassando aqueles limites tão absurdamente retrógrados. Isso não significa que todas as mulheres, antes desse processo, estivessem confinadas em casa. Na verdade, as mulheres populares (que são maioria em um país desigual como o nosso) sempre tiveram que trabalhar, seja no cruel regime escravocrata brasileiro, que acabou há apenas pouco mais de 100 anos, seja em trabalhos precários e mal remunerados – culpa de uma coisa chamada Divisão Sexual do Trabalho.

De qualquer forma, com a mulher trabalhando, o seu tempo em casa, dedicado às funções domésticas, diminuiu. Se espera, portanto, que os componentes adultos dessa família dividam as tarefas domésticas e mantenham o equilíbrio na casa, certo?

Infelizmente, esse modelo ainda não é padrão. Dentre os diversos modelos familiares modernos, a família equitativa se refere a uma parcela ainda muito pequena. São muitas as famílias nas quais a mulher realiza a chamada jornada dupla: trabalha fora e dentro de casa. Ao passo que o homem tão somente se limita ao seu trabalho fora de casa, não dando suporte a uma divisão de tarefas domésticas. Outra parcela das famílias tem homens que ajudam muito pouco, trabalhando dentro de casa muitas horas a menos que suas companheiras. E eles ainda dizem “ah, mas eu ajudo um pouco” e, assim, sentem que já fizeram sua parte. Queremos dizer que não. Enquanto a totalidade ou a maioria das tarefas domésticas for responsabilidade da mulher, ainda teremos muito o que lutar. É necessário desconstruir cada vez mais essa divisão sexual do trabalho enraizada no molde tradicional de família. Ainda precisamos avançar e muito no que concerne um modelo familiar no qual o homem e a mulher exerçam as mesmas funções e arquem com iguais responsabilidades.

A falta de equidade ultrapassa o âmbito familiar e respinga no âmbito do trabalho. É por não termos o homem exercendo seu papel em casa em condições igualitárias à mulher que as empresas demonstram preferência em contratar homens. “Mulher com filhos são mais prováveis de saírem correndo para acudir um filho doente”, pensam eles. E, no final das contas, pode até ser verdade, mas a gente sabe muito bem a raiz desse fato. O homem não vai por quê? Porque, para ele e para o resto do mundo, essa função é da mãe. Não do pai. Tudo aquilo que se refere à mulher em seu papel doméstico sempre irá ter consequências em seu ambiente de trabalho. E aí temos uma discriminação natural que tem por base um modelo de família desigual.

Mas o problema vai mais além: já falamos bastante sobre como esse modelo de família é ruim, opressivo, chato, bobo e etc. Mas e como ele se mostra? Quem vê de primeira acha que é lindo. As tão citadas famílias de propaganda de margarina, por exemplo. A família é branca, rica, heterossexual e (supostamente) feliz. E só compra margarina da marca xis. O que isso tudo significa? Que a sociedade em que vivemos quer, a todo custo, propagar uma imagem de família escondendo todos os problemas, contradições e processos de opressão que vêm junto a esse modelo. E faz isso através de outras instituições como a mídia, porque é muito benéfico para uma sociedade capitalista e patriarcal que a família nuclear se mantenha desta forma.

Nunca vimos por aí, na mídia, a exaltação de qualquer família que tenha como base o amor entre mulheres, por exemplo. Isso porque a família de propaganda de margarina é heteronormativa – é padrão. Vemos aí um desvio severo do mais importante em uma família: o amor. Uma família pode ter somente duas mães, somente dois pais, somente uma tia, somente uma avó, etc., e continuará sendo uma família. A família constituída por duas mulheres figurando no papel parental, por exemplo, já é um modelo um tanto comum de família na realidade brasileira. Em fato, com a decisão do STF,  em 2011, reconheceram a união estável para casais do mesmo sexo. Apesar de ser permitida a formação de famílias homossexuais, tornar esta realidade possível significa romper muitas barreiras e obstáculos. Significa ir na contramão do que homofóbicos e lesbofóbicos de plantão gritam por todos os cantos. Significa enfrentar a violência, os xingamentos na rua, as agressões, as pessoas próximas falando que “ah, tudo bem elas se gostarem, mas daí a ter filhos? A criança vai ter mau exemplo, vai virar gay também!”. Apesar disso tudo, há sim um início de mudança nessas configurações sociais e cabe a nós reforçarmos o apoio ativo a estas mudanças.

Depois disso tudo, cabe a todas nós refletir sobre alguns questionamentos:

A quem serve manter o modelo de família tradicional, que tantas dificuldades gera na vida das mulheres?

Se queremos mudar o modelo de família, e esse modelo de família faz parte de uma construção social, será que não cabe a nós, também, querer mudar a sociedade?

Não queremos destruir os laços e construções coletivas que são possíveis em relações familiares. Só queremos que a família não represente mais uma instância do machismo, da misoginia, da divisão sexual do trabalho, da hierarquia de poderes e da lesbofobia.

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

Priscylla Piucco
  • Membro do Conselho Editorial
  • Coordenadora de Relacionamentos & Sexo

Priscylla. Apaixonada por seriados, kpop, reality show ruim, Warsan Shire e as Kardashians. Odeio o Grêmio e cebola. Prazer, pode chamar de Prih agora.

  • Isabela

    Acredito que uma forma válida de desconstruir esse tipo de comportamento sexista também está na educação infantil dentro do lar. Meninos ajudando nas tarefas domésticas, brinquedos e brincadeira que não sejam estereotipados por gênero e claro, a referência do comportamento dos pais ainda é muito importante nesta fase. Atualmente, é possível ver mães (ou outra figura feminina no âmbito familiar) que mesmo não suportando a carga que o fundamentalismo patriarcal as submete, continuam mantendo este mesmo ciclo vicioso como algo inerente à capacidade de mudança.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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