6 de outubro de 2014 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração: Laura Viana
A saga espacial de Carl Sagan e Neil deGrasse Tyson
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“Nós vivemos em uma sociedade absolutamente dependente da ciência e da tecnologia e, no entanto, organizamos com astúcia todas as informações para que ninguém entenda ciência e tecnologia. Isso é uma clara receita para o desastre.”

A frase aí de cima é de um saudoso senhor chamado Carl Sagan; alguém que certamente não precisava advogar pelo acesso de leigos à ciência. Em seus 62 anos de vida, o astrônomo, astrofísico, astrobiólogo, professor da Cornell, autor e apresentador de televisão conquistou uma variedade de prêmios que deixaria até a Meryl Streep com inveja. O moço ofereceu contribuições de valor incalculável à pesquisa científica, principalmente no que diz respeito à busca por vida extraterrestre. Resumindo: Carl Sagan tinha uma vaga garantida no Olimpo das grandes mentes. Ele não precisava ter rejeitado o vocabulário quase incompreensível que gênios usam para se diferenciar dos meros mortais. Mas sua paixão pelos mistérios do universo estava em eterna expansão e precisava ser compartilhada. Dessa premissa nasceu Cosmos: A Personal Voyage, um fenômeno dos anos 80 assistido por mais de 500 milhões de pessoas em 60 países. E, neste ano, a série documental renasceu nas mãos de outro fantástico astrofísico e divulgador científico: Neil deGrasse Tyson.

Neil foi criado no Bronx, distrito de Nova York famoso por seus níveis elevados de pobreza e altas taxas de desemprego. Filho de pais brilhantes que pleiteavam a causa negra e lutavam por melhores oportunidades para a juventude da região, o rapaz já nasceu com a sementinha da inquietação arraigada no cérebro. Os Estados Unidos das décadas de 50 e 60 não eram um terreno amistoso para o desenvolvimento de um menino de ascendência caribenha e porto-riquenha. Mas o universo pertencia a todos, bastava olhar para cima. Neil se apaixonou pelas estrelas numa época em que era quase inconcebível a existência de um astrofísico negro.  Sua dedicação e seu compromisso eram tão extraordinários que aos 15 anos passou a dar palestras sobre astronomia na região. E a notícia de seu ardor deve ter viajado por Nova York até chegar aos ouvidos do nosso Carl Sagan, lá na Universidade de Cornell, pois o astrônomo convidou o jovem aspirante a passar um dia com ele na faculdade. Neil diz que antes daquela visita já sabia querer ser um cientista, mas a tarde com Carl o ensinou que tipo de pessoa ele gostaria de ser.

FOX's "Cosmos: A Spacetime Odyssey" - Season OneNeil deGrasse Tyson em seu habitat natural
(Crédito: Huffington Post)

Depois desse encontro estelar, os dois seguiram caminhos distintos. Quem imaginaria que essas duas grandes mentes voltariam a colidir em 2014, mesmo 18 anos após a morte de Sagan? A ideia de reviver Cosmos veio da também fantástica Ann Druyan, cocriadora da série original e viúva de Carl Sagan. Ann e Neil passaram anos tentando vender a ideia para algum canal, mas o esforço parecia ser inútil. Os executivos acreditavam que o conteúdo científico não seria atrativo para o grande público – prova de que eles deveriam ter checado a Wikipedia, como eu fiz, e constatado que a Cosmos de Sagan foi a série mais assistida da história da televisão pública americana. Francamente, executivos, que falta de visão. Enfim, vamos pular para o final – ou início – feliz: Seth MacFarlane, criador de séries animadas como Family Guy, levou a ideia aos ouvidos de seus amigos na Fox e se tornou produtor-executivo da nova empreitada, que estreou em março deste ano, nos Estados Unidos.

Cosmos: A Spacetime Odyssey é uma fonte de encanto democrática. Neil, assim como Carl, traduz todos aqueles códigos complexos em uma linguagem que possa encantar crianças e adultos curiosos, afinal, as dinâmicas do espaço que habitamos devem ser um motivo de fascínio para todos, e não um segredo guardado por poucos. A bordo da “nave da imaginação”, que ganhou uma bela repaginada desde 1980, o astrofísico viaja pelo passado, presente e futuro do universo. A primeira lição dita o tom da narrativa: se todos os eventos do cosmos pudessem ser comprimidos num ano, sendo o dia 1º marcado pelo Big Bang, toda a história da humanidade caberia nos últimos segundos do último minuto do dia 31 de dezembro. É uma aula de humildade e respeito diante da magnitude do universo. Somos apenas grãos de carbono, pó de estrelas. Bem impressionantes, claro. Mas um pequenino parágrafo de um livro imenso.

Usando uma combinação de imagens de telescópios espaciais, cenas computadorizadas e sequências animadas de eventos históricos, Cosmos: A Spacetime Odyssey seduz o espectador a ponto de ele nem reparar que está aprendendo tudo que rejeitava na escola. Como groupie do universo, eu até sou suspeita para falar, mas duvido que você não derrame uma lágrima tímida ao contemplar a nebulosa de Órion ou reviver a perseguição a Giordano Bruno. E Neil é um comandante excepcional nesta jornada: carismático e envolvente, o astrofísico exala uma paixão tão contagiante que eu pensei seriamente em abandonar minha carreira para estudar as estrelas – até me lembrar das notas de física no Ensino Médio. Além disso, ele é bem cool.

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Neil assistindo ao Big Bang enquanto usa óculos escuros (Crédito: Vulture)
 

A série estreou simultaneamente em diversos canais no horário nobre norte-americano, atraindo uma ótima audiência para um documentário científico. Por aqui, ela é transmitida pelo National Geographic. São 13 episódios de cerca de 40 minutos que tratam de evolução, buracos negros, estrutura atômica, matéria escura, dilatação do tempo, eletromagnetismo e demais assuntos que se transformam em ciência acessível nas palavras de Neil. Pura magia. Recomendamos o oitavo episódio, “Sisters of the Sun, que falou de moças incríveis como Annie Jump Cannon, Henrietta Swan Leavitt e Cecilia Payne. Neste ano, a série concorreu a 12 Emmys e ganhou 4 estatuetas, incluindo Melhor roteiro para programa de não-ficção.

Já esgotei minha argumentação, então vou deixar que o cosmos fale por mim:

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Tem mais gifs para ficar hipnotizada aqui

Lorena Piñeiro
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Lorena tem 26 anos e mora no Rio, embora tenha crescido nos subúrbios da Internet. Trabalha com análise de roteiros televisivos, avalia manuscritos literários, traduz e revisa obras em inglês e escreve por aí. É igualmente fascinada pelo gracioso e pelo grotesco. Adora filmes de terror, livros de fantasia, arte surrealista e qualquer coisa que não carregue o mínimo semblante de realidade. Tem empatia até por objetos inanimados e queria ser um urso ?•?•?

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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