1 de outubro de 2015 | Esportes | Texto: | Ilustração: Duds Saldanha
Uma tarde com Serena Williams

Bom, eu já devo abrir esse texto pedindo desculpas caso eu tenha induzido alguém a pensar que passei uma tarde junto com a Serena Williams. Não, infelizmente eu não tive essa experiência fantástica, porém escolhi uma tarde monótona para assistir um jogo inteiro dela no torneio de Wimbledon e fui arrebatada pela experiência que é ver a excelência da Serena jogando.

Após 20 minutos acompanhando a partida, eu já estava enviando emails para os principais veículos de jornalismo esportivo deste país com a seguinte frase: “Cancelem toda a sua programação normal e falem apenas da Serena Williams para sempre, por favor?”. É um show hipnótico assisti-la jogando e eu não estava entendendo porque tinha demorado tanto para sentar e apreciar a força da natureza que ela é.  

Serena Williams já ganhou 21 Grand Slams, com apenas quatro derrotas dentre as 25 finais das quais ela já participou. Ela também é dona de quatro medalhas olímpicas e está há 260 semanas (!) como a nº 1 do ranking mundial. São cinco anos consecutivos sendo a melhor do mundo no tênis. Além disso, ela ainda é dona da “Serena Williams Foundation” que distribui bolsas escolares para estudantes de baixa renda e constrói escolas na África. E o detalhe mais importante para mim ao me deixar ser encantada pela Serena naquela tarde foi: ela é negra! A melhor atleta de um esporte predominantemente branco e elitista no mundo é negra e orgulhosa disso.

Eu sou negra e fui cada vez mais ficando maravilhada ao pesquisar sobre a Serena e descobrir que ela faz questão de rebater o racismo que é jogado sobre ela. Ela não sucumbe à pressão de ser polida e passar silenciosamente até o pódio da vitória, sem incomodar aqueles que colocam obstáculos por todo o caminho do sucesso de uma mulher negra. Serena esperneia, acusa, grita, sorri e causa incômodo em muita gente.

Além de ser negra, Serena ainda tem a ousadia (calma, é ironia) de ter um corpo fora do padrão projetado em atletas de ponta, que na cabeça de muitos deveriam ser super modelos da Victoria’s Secret. O senso comum é de que a tenista tem o corpo “muito masculino” e “forte demais”. Mesmo após conquistar 21 Grande Slams, Serena ainda não consegue se desvencilhar da conversa sobre o seu corpo.

A tenista Caroline Wozniacki já colocou enchimento em seu sutiã e shorts para imitar a Serena Williams em uma partida de exibição contra Maria Sharapova. O mesmo feito já foi repetido por Novaj Djokovic e Andy Roddick, sempre com o objetivo de satirizar. Mesmo parecendo uma brincadeira entre atletas parceiros, esse tipo de tratamento, junto com os comentários sempre presentes sobre o corpo da Serena, colaboram para sedimentar pensamentos racistas, machistas e misóginos.

Na minha cabeça não faz sentido a Serena Williams não estar entre os dez profissionais do esporte mais bem pagos do mundo, mas a decepção é maior ainda ao perceber que ela não é nem a atleta mulher mais bem paga. A sua frente está sua colega de esporte, Maria Sharapova, que é atualmente a terceira do ranking mundial da WTA e ganha 5 milhões a mais em contratos publicitários. Existe alguma explicação lógica além do preconceito para explicar essa discrepância de remuneração fora das quadras? Se alguém souber, estou disposta a ouvir.

Voltando àquela tarde em que me deixei levar pelo encanto da Serena Williams na quadra de Wimbledon. Eu terminei de assistir ao jogo vibrando com uma vitória épica dela e me prometendo mentalmente que sempre que eu tivesse alguma oportunidade eu chamaria atenção para a excelência (negra) que eu testemunhei sentada no meu sofá.

Sejam testemunhas também! Vivemos na era da Serena Williams e eu finalmente descobri que somos privilegiados por isso.

Camila Paula
  • Colaboradora de Esportes

Camila Paula, esses nomes que juntos compõem um nome inusitado que poderia ter sido dado por uma celebridade americana. É jornalista por formação, mas fascinada com todo conteúdo da web, porque mora dentro dela através do usucapião. Flamenguista fiel, entusiasta do vôlei, apaixonada por músicas novas e cultura negra. Principal profissão é a de piadista das redes sociais para conquistar likes. Odeia cebola e sofre bastante com isso, pois o mundo é uma ditadura deste legume.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos