6 de maio de 2015 | Edição #14 | Texto: and | Ilustração: Beatriz Leite
A universal sensação de ser único

É comum, muitas vezes, nos sentirmos sozinhas em relação a um sentimento ou a uma experiência. Achamos que mais ninguém se sente daquela forma e nos sentimos diferentes. Também é comum esperarmos que as outras pessoas sejam todas como nós: tenham as mesmas prioridades, preocupações, expectativas, atitudes, etc., e acabamos nos decepcionando quando percebemos que cada um tem seu próprio jeito de ser. Nem sempre seremos compreendidas, da mesma forma que nem sempre compreenderemos as outras pessoas. Às vezes, parece até que somos de mundos diferentes!

Nós todas da Capitolina, por exemplo, somos mulheres, somos da mesma geração e somos brasileiras. Nós temos muito em comum, assim como temos muitas coisas em comum com homens da nossa geração, com pessoas da nossa cidade e com outras pessoas que falam português. Mesmo assim, somos únicas. Nós dividimos várias experiências, algumas estudamos na mesma escola ou na mesma faculdade, algumas moramos no mesmo bairro, algumas são amigas desde antes da revista e têm os mesmos círculos de amizades. Só que o quando e a forma como cada uma dessas coisas aconteceu com cada uma de nós são diferentes. E o conjunto de experiências individuais de cada uma nos dá particularidades que formam nossas personalidades de indivíduo.

Ah, mas então quer dizer que a sociedade e a cultura não têm nada com isso? É claro que têm: todo mundo é influenciado pelo meio em que vive, mas essa influência se dá de maneira diferente. Em nossas vivências mais pessoais, estamos sempre respondendo a um contexto social mais amplo, seja de maneira a ratificá-lo, contestá-lo ou modificá-lo. É como escolher roupa: a gente pode gostar de seguir as tendências ou preferir evitá-las, mas, de uma forma ou de outra, o que há disponível no mercado é limitado, e é dentro desses limites que somos quem somos.

É um grande paradoxo: a sociedade é formada de indivíduos ou os indivíduos é que são formados pela sociedade? Diríamos que os dois, que existe uma circularidade, o ovo e a galinha, impossível de saber o que surge primeiro e o que vem em decorrência daquilo. Vamos pensar em uma maçã: eu, Brena, imagino uma fruta pequena, vermelha, com um pouco de amarelo, e um cabinho. Acho que muita gente vai pensar numa maçã parecida, mas nunca igual à imagem mental que eu tenho dessa maçã. Por mais que a gente viva e sinta coisas parecidas, nossa interpretação de tudo sempre entrará em conjunção com todo o nosso histórico de vida.

Então, mesmo que a gente passe pelas mesmas experiências de forma geral, esses momentos vão afetar cada pessoa de forma diferente. O 11 de setembro é um ótimo exemplo para a nossa geração, todo mundo se lembra de onde estava e o que estava fazendo na hora do atentado. No Rio, todo mundo se lembra do dia em que o ônibus 174 foi sequestrado. Mas esses eventos afetam a gente de formas diferentes.

Alguns sentimentos, como medo e amor, por exemplo, são, de certa forma, universais, pois estão presentes em diversas culturas. No entanto, a maneira como esses sentimentos são vividos varia muito de uma cultura para a outra e também de acordo com o momento da história. No caso do amor, por mais que nos pareça natural enxergá-lo como o enxergamos hoje em dia, ele já foi muito diferente em outros momentos da história, e todas aquelas regrinhas de relacionamentos que nos parecem “normais”, na verdade, são totalmente dependentes do contexto cultural, social e histórico. O medo também; todo mundo já teve medo de alguma coisa, mas ter medo de que as máquinas fiquem mais inteligentes que humanos é um medo que não existia até pouco tempo atrás.

Quando a gente percebe que temos todas essas coisas em comum, mas que ainda assim somos únicos, podemos passar a olhar as pessoas de outra forma. Eu olho com mais simpatia para uma mina que tenha medo de algo, mesmo que eu não tenha medo disso porque eu sei o que é ter medo. Se a gente percebe que mesmo pessoas que são totalmente diferentes da gente passaram e vão passar por coisas em comum, pelas mesmas dificuldades e inseguranças, a gente pode ter mais empatia em relação ao outro, mesmo ao outro que nos parece tão diferente.

Brena O'Dwyer
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Brena é uma jovem carioca de 22 anos que cada dia tem um pouco menos de certeza. Muda de opinião o tempo toda e falha miseravelmente na sua tentativa de dar sentido a si mesma e ao mundo em que vive. Gosta de ir ao cinema sozinha as quintas a noite e de ler vários livros ao mesmo tempo. Quase todas as segundas de sol pensa que preferia estar indo a praia, mas nunca vai aos domingos.

Laura Pires
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Vlogger

Usa seu vício em séries e Facebook como inspiração para os textos, para a vida e para puxar assunto com os outros. Adora ouvir histórias e conversar sobre gênero, sexualidade, amor e relações amorosas – gosta tanto desses temas que deu até um jeito de fazer mestrado nisso. É professora de inglês, cantora e pianista amadora de YouTube, fala muito, ri de tudo e escreve porque precisa. Ama: pessoas e queijo. Detesta: que gritem.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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